segunda-feira, 31 de agosto de 2009

"Encalços e percalços"

Quando criança me ensinaram que na vida eu precisava ter força. Mas acho que esqueceram de me dizer apropriadamente o que era a referida. Bom, eu tinha um modelo em casa, que talvez seria o natural de se seguir. Mas acontece que o tal modelo, agora que tenho mais informações para poder analisar, não era assim tão adequado à idéia que hoje faço a respeito de força. Sabe autoritarismo? Pois é, acho que tava mais para isso. É íncrivel como as pessoas confundem autoritários com fortes. "Nossa, fulano é tão forte", e o que vemos é uma pessoa toda armada, botando ordens e morrendo de medo de se relacionar de outra forma.

Mas, voltando à bendita força, precisamos cavá-la muitas vezes nessa viagem. Situações complicadas, nas quais os ânimos deveriam se manter sob controle para tomarmos as decisões certas, para aguentarmos as turbulências das longas trajetórias, os saculejos sobre as pedras do caminho (rsrsrss... literalmente falando).

Para começar, Bombain. Quem conhece que não te compre. Portal de chegada. Mamãe urso e mais três pequeninos indefesos da prole. O mais confiante e seguro era o Ravi, o neném de três meses que não tinha idéia da metade da missa que estavam lhe enfiando goela abaixo. Na verdade, Ravi curtiu demais tudo. Talvez quem mais curtiu, pois não passou diretamente por nenhum perrengue. Só passeando na "cacunda" do papai e da mamãe, nosso caracolzinho em sua casinha ambulante. Admirando as árvores ("arvrrr"...) que adora, com seus olhinhos gigantes e brilhantes percorrendo diversas paisagens e rostos diferentes.
E, ao falar nesses rostos diferentes, lembrei de um perrengue pelo qual o Ravi esporadicamente passava. A forma como os indianos e nepaleses pegam as crianças no colo e jogam elas para cima é de congelar o nosso coração! No início, passava por essa adrenalina constantemente. Eles adoram as crianças, acham que são verdadeiros deuses e por isso querem sempre tocá-las, como se recebessem bençãos fazendo isso. Após algum tempo de experiência, fui ficando mais esperta e sabia dar um jeitinho de despistar e poupar o Ravi dos arremessos sem ofender os brios de ninguém. Bom, esse foi o drama pessoal do Ravi durante a viagem, seu bom combate. Na verdade digo isso, mas quem ficava com os olhos arregalados, as pernas bambas e o coração acelerado eram os pais que tinham um certo discernimento. O danadinho morria de rir da situação.

Voltando às nossas pelejas, estas começaram mesmo muito antes de botarmos os nossos pezinhos em Bombain. Sabe a mulher quando fica grávida pela primeira vez e se tivesse noção da dor do parto, talvez por medo teria evitado engravidar? Pois é, quando decidimos viajar, não tínhamos idéia da dor do parto, ou melhor, dos partos, pois foram mais de um.

Primeiro parto: documentos! Os meninos (aqui me refiro ao Rodrigo e ao Damião, seu irmão) eram indigentes. Simplesmente não existiam nos arquivos do sistema. O Rodrigo ainda tinha carteira de motorista, pelo menos. Mas só isso. Tive que promover o renascimento deles na sociedade. Falo de mim porquê fui eu mesmo que tive que administrar isso, pois como haveria de cobrar isso deles? Era como soltar dois neandertais na Avenida Paulista. Dois marmanjos sem documento e sem "identidade" própria ( isso seria uma ironia se não fosse verdade nesse caso, pois eles não tinham identidade mesmo, a famosa C.I. que até indigente tem. A Flora com 11 já tinha.)


Sabe o filme "Família Buscapé"? Lembrava sempre dele nos compromissos burocráticos, quando íamos requisitar nossos "papéis" na Receita Federal, Justiça eleitoral, e por aí vai. Era muito engraçado quando observava sob a perspectiva de quem está de fora vendo nossa família toda, pois saíamos em comboio, esperando nas filas do Estado. A família busca pé - de- chinelo. Sem combinar, éramos todos os "com chinelos de dedo" em meio aos "com ternos e gravatas". Isso por si só já nos garantia muitas risadas.


Outro parto: dinheiro. Quem dera fosse fácil assim: resolvemos ir, tiramos o dinheiro da nossa rica poupança e pagamos as passagens. Ou ainda: nossos pais "bem -de-vida", resolveram acreditar na próspera carreira dos "malucos", e bancar nossa "pós-graduação" no exterior.

Bom, imprudência, maluquice, irresponsabilidade ou seja lá qual for o diagnóstico de nossa conduta, fato é que a resolução de irmos veio antes dos meios necessários para conseguirmos. Isso significa dizer que não tínhamos dinheiro suficiente nem para comprar as passagens, na verdade, nem para pagar toda a papelada que precisava, muito menos para nos manter lá por um período.

Tínhamos um carro velho e guerreiro, ou melhor seria dizer, uma carroça ( já famosa pelos mil enguiços) e muita vontade, quase uma certeza, insensata, baseada em coisa nenhuma palpável, a não ser no nosso próprio "achismo" de que deveríamos ir.

Se estava no nosso destino, escrito nas estrelas, ou qualquer coisa parecida que normalmente se diz quando falam de sonhos, não sei dizer. Mas com certeza o universo conspirou bastante para realizarmos. A favor e contra também!

Mas, o desenrolar dessa dinâmica de conspiração contra e a favor do universo vou deixar para contar depois pois esta postagem já está muito grande. Aliás, acabamos de resolver que vamos iniciar uma série de postagens só sobre os perrengues. Lembramos de vários que, como todo drama, possuem um alto potencial para ser engraçado... Agora, depois que já passou!

domingo, 23 de agosto de 2009

The nepali monk(ey)

"Fulano tem macaquinhos no sótão!" Acho que todo mundo já ouviu essa famosa expressão. Os macacos são popularmente relacionados aos miolos desaparafusados, à confusão e baderna mental. A sabedoria popular e as escrituras indianas se referem à mente (citta) como uma macaca agitada, pulando de galho em galho freneticamente.


Macacos nunca poderiam nos passar a imagem da equanimidade ou quietude, mas encontrei uma exceção no Swayambhunath temple, no nepal, curiosamente conhecido também como templo dos macacos. E como "o hábito faz o monge", acho que o macaco aprendeu a meditar, pois estava sentado e parado nessa posição durante muito tempo, como congelado. Ouso dizer que poucas pessoas podem ficar tão quietas num asana como este macaco, lembrando aqueles macacos brancos japoneses que ficam horas relaxando na água quente das termas naturais. Mas o macaco desta história não estava em nenhum ofurô natural para estar tão bem. Repare na profundidade de sua expressão, impassível como uma montanha.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O macaco galanteador

Um dia estávamos na trilha voltando para nossa casinha em Rishikesh quando resolvi sentar numa "mureta" de pedra para observar um macaco grande que vinha andando de longe sobre ela, num passo tranquilo e solitário. Foi quando após alguns minutos, sentada observando, reparei que o macaco estava vindo em minha direção. Pensei em sair antes que se aproximasse pois, afinal, tratava-se de um macaco de cara vermelha, que tinha fama de ser agressivo e nada amigável. Mas, ao invés de ceder ao primeiro impulso, acabei permanecendo, mesmo porque o macaco já estava perto demais para fazer qualquer coisa.
















E não é que o dito cujo sentou bem do meu lado, agarradinho no meu corpo, e lá ficou??? Não pude acreditar no que presenciava, sentia uma mescla de medo com satisfação, na expectativa de qualquer desfecho, trágico, cômico ou até mesmo romântico, nas perspectivas do macaco. E não poderia ter sido mais engraçado. O macaco "safado" (como disse o Rô), em uma atitude completamente inesperada, surpreendeu a todos, principalmente a mim, quando colocou seu braço sobre a minha perna e sua mão sobre a minha. Queria muito morrer de rir naquela hora, mas permaneci estática, paralisada, sem saber qual poderia ser o próximo passo dele. Não podia sair, porque ele poderia se sentir rejeitado, sei lá, e ficar zangado e querer me atacar. Também não podia corresponder ou ficar muito receptiva ao toque pois ele poderia querer me beijar, imagina isso?





Fiquei somente quieta, experienciando aquele momento. O que poderia estar passando pela cabeça daquele macaco naquela hora? Cheguei a especular isso enquanto estava sob "seu comando". Estava sendo aquilo uma espécie de encontro ou algo parecido? Eu era a macaca escolhida, ou somente sentou porque estava cansado e encontrou companhia de alguém que estava em seu caminho? Nunca vou saber.


Depois de algum tempo, não sei quanto, pois foi daqueles momentos em que perdemos a noção, ele simplesmente se levantou e saiu andando com seu passo tranquilo. E eu, sã e salva, pude rir demais daquela situação. Acariciada por um macaco indiano! E acho até que posso me sentir lisonjeada, pois não se tratava de um macaco qualquer, daqueles magrelos e arruaceiros que estávamos acostumados a encontrar. Era um macacão forte, robusto, com um ar sereno e uma postura de macaco vivido, experiente, caminhando sozinho, desprendido da vida do bando. Certamente um bom partido para as macaquinhas de Rishikesh.



Macacos


Macacos de poeira já voaram
Macacos de poeira já voaram
Macacomanusacuma sacomanunsaco
Macacos de poeira já voaram
Macacos de poeira já voaram
Macacomanusacuma sacomanunsaco
Macacos de poeira já voaram
Macacos de poeira já voaram
( musica Macaco "corpo" de Naná Vasconcelos)

Os amarelos safados e ladrõezinhos


Para quem não sabe, além das vacas e ratos que rodam pelas ruas imundas da índia, há também os espertos macacos que vivem em todos os lugares a espreita esperando um bobo passar com comida para eles CREU! Darem o bote. Pelo menos em Rishikesh, aonde fiquei, a maior concentração dos macacos amarelos e híper inteligentes se localiza na ponte laxmanjula. Lá é aonde todas as pessoas passam correndo para não serem roubadas. Quantas milhões de vezes não ouvimos: " muito cuidado ao andar na ponte, esconda as sacolas e não passe andando com comida" ou então " não se preocupe com os macacos brancos e sim com os amarelos de cara vermelha, eles são agressivos e podem te machucar". Para falar a verdade, nunca vi eles machucando ninguém, mas não descarto esta possibilidade, pois eram bem agressivos mesmo.



Os doces langurs


Para compensar os irmãos amarelos, os langurs eram as criaturas mais calmas e doces que já vi. Sua coloração era branca e sua cara era preta, além de simpático ainda era um lindo animal. Os langurs, diferentemente dos outros macacos, ainda viviam (a maior parte deles) no resto de mata que havia nas montanhas que rodeavam a pequena cidade de Rishikesh e, por experiência própria, digo que é muito legal presenciar a bagunça e a barulhada que fazem na floresta, apesar de muito calmos e serenos na cidade. Como são muito agradáveis, eles nem precisam roubar, pois ganham tudo de graça! hahahahahahahaha. Mas não vou deixar esta imagem ruim dos pobres macaquinhos amarelos, afinal, é da natureza deles serem bagunceiros e também, eles não tem comida né? Rsrsrs. Os macacos amarelos também eram muito divertidos.


Tatá e suas macacadas

Parte um: Vó maria e tatá (minha irmãzinha de três anos) estavam assistindo um programa na TV no qual os macacos na Índia faziam cocô na cabeça dos convidaos de um casamento. Vó Maria(minha bisavó), sabendo que iríamos pra lá, logo falou:-viu tatá, lá na Índia os macacos fazem cocô na cabeça das pessoas! E a tatá ficou com isto na cabeça...


Parte dois: Depois disso, todos que perguntavam a Tatá se ela ia para a Índia, ela dizia:- eu não! Os macacos vão fazer cocô na minha cabeça! E a pessoa ria até não aguentar mais.Tatá ficou com o pensamento fixo de que não iria pra Índia porque os macacos fariam cocô em sua cabeça, chegou até a chorar porque não queria ir.

Parte três: Quando Tatá chegou na India ficou adimirada com os macacos , só com um pouquinho de medo dos cocôs. Mas com o tempo foi se acostumando com eles e passando a achá-los legais e divertidos, até aquela quinta feira de tarde...


Um belo dia, (a tal quinta feira) Tatá comprou um pirulito, foi andando com ele até a ponte e, quando estava atravessando, um macaco foi lá "destrai-la" e em um segundo por traz arrancou o pirulito das mãos de Tatá. Tatá, viciada em pirulito, ficou chorando uma hora porque o macaco tinha roubado seu pirulito e uma nova birra com os macacos se formou no coração de Tatá. Mas graças a deus esta birra acabou em poucos instantes, pois logo ela comprou outro e falou: " eu fiz uma idéia: eu dou o meu pirulito pro macaco e pego o dele!", kkkkkkkkk! Uma peça rara, não?


Flora

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Nada no Lago



Não sei dizer o porquê, mas essa viagem à Índia e Nepal me remete a muitos sonhos de infância e princípios de juventude. Parece que muitas imagens já estavam programadas para acontecer. É como se a idéia estivesse escondida lá no fundo dos quintais da mente, e quando as cenas se desenrolam por aqui, é familiar como se eu estivesse vendo um filme embaçado. Mas não estou me referindo à lembranças de vidas passadas, que é um "lugar comum" nos relatos de experiências das pessoas que se interessam ou que vão à Índia. Na verdade, estou cansado desse papo de "acho que já vivi na Índia no passado", ou "já tive alguma encarnação na Índia". Esse tipo de especulação já é tão "batida" e repetida que às vezes dá até uma certa preguiça de conversar com as pessoas "místicas" que se interessam por Yoga e cultura indiana. Afinal, quem é que não reencarnou na Índia? A esmagadora maioria das pessoas que transitam no "mundo" do Yoga já. Eu mesmo conheço milhares de "Yoguis reencarnados".

Quando falo de imagens familiares, estou falando de algo que faz sentido para minha vida, e de minha família. Talvez sejam familiares porque na Índia e no Nepal, mais do que nunca, temos liberdade absoluta para sermos nós mesmos. Estando sem trabalho e sem obrigações que não sejam os deveres a que nos propomos, estamos livres de regras impostas pelos outros ou pelas situações e, sendo assim, ninguém nos coloca obrigações sem nossa vontade ou permissão.

Teve dias em que realmente me recusei a ser submetido a qualquer tipo de ordem ou regra, enquadrar-me em qualquer tipo de compromisso ou ficar preso em qualquer armadilha de horário ou tempo. Dia de subir montanha, dia de ficar no Ganga, de ficar com as crianças na praia de areia branca. E um desses inesquecíveis compromissos comigo ou conosco mesmo eram os maravilhosos entardeceres do lago Phewa no Nepal.


Quando pegávamos o bote, passávamos toda a tarde no barco, após o almoço até o anoitecer. Às vezes almoçávamos no próprio barco, levando lanche para um pic nic. Dias de ócio criativo, de ficar deitado olhando o formato das nuvens que às vezes aparecem nessa época como lençóis, que vão tingindo-se de cores à medida em que o sol vai mudando sua posição no céu. Dias de observar a revoada dos pássaros aquáticos. De ficar no meio do lago a deriva, já que o lago quase não tinha corrente e o seu ritmo também era preguiçoso.

Ravi sempre dormia entre as mantas e xales que levávamos pois, apesar do sol, ainda era bem frio e ficava gelado no final da tarde. Estávamos em pleno inverno do Nepal. E Damião virou o remador de todas as horas, pois pegou logo o jeito dos difíceis remos do bote nepalês, tão diferente das canoas e caiaques nacionais, ou pelo menos aos que estávamos acostumados a usar nas baías de Angra.




Uma vez aportamos no lado selvagem do lago e vimos uma manada de bois e búfalos, como também currais de pesca bem primitivos próximos à margem. Em outra oportunidade, a viola e a cantoria também fizeram parte da embarcação. Mas, basicamente, o melhor era mesmo ficar à toa, olhando para as nuvens.



O lago era o local onde digeríamos as experiências da viagem, onde conversávamos a respeito do povo, das diferenças culturais, do estrago que a vida moderna faz no mundo das pessoas e nas vilas. Mas, principalmente, era na placidez do lago que podíamos planejar com tranquilidade os próximos "saltos" e "vôos" e definir para onde iríamos a partir dali, já que sempre voltávamos para Pokhara após viajar para alguma vila ou cidade. Lá era nosso pouso, o porto seguro onde podíamos nos preparar e descansar antes de pegar novamente a estrada. E era no lago que decidíamos e calculávamos os prós e contras de cada aventura, os riscos e valores de cada loucura. Era lá que, renovados, sentíamos que poderíamos ir para qualquer lugar, pois nada nos limitava. Muito ímpeto para viajar e conhecer, crianças fortes que aguentavam o "tranco", e principalmente a união do grupo, onde todo mundo falava a mesma língua.

Dentro do barco, viajávamos em nossas especulações. Se iríamos para uma vila devotada à Deusa Kali, ou se íamos para um parque andar de elefantes e ver vida selvagem. Conhecer templos ou ir para as montanhas; peregrinar pelas rotas sagradas ou alugar uma casa nas vilas e passar um tempo vivendo como os aldeões. Lá escolhíamos qual seria a rota que poderia proporcionar mais conhecimentos e experiências para os adultos e crianças da trupe.

Mas o lago não era só um local de decisões e conversas. A natureza ao redor é maravilhosa, pois é cercado por montanhas cobertas de verde, e grande parte é quase selvagem e ainda não habitada pelos homens. A partir de dois longos canais ele é ligado a dois outros lagos menores, ainda mais selvagens. A margem que é circundanda pela cidade também é linda, pois o nepalês, bem mais esperto que o indiano, cuida para manter os jardins públicos ao redor limpos e bem bonitos.



Nunca posso esquecer que foi no lago que vimos os himalaias pela primeira vez de forma satisfatória. Na Índia e Nepal, durante o inverno, impera uma bruma constante no ar e, dependendo do horário, muitas vezes fica bem difícil de enxergar em maiores distâncias ou ter uma visão clara das montanhas. Quando estivemos pela primeira vez no meio do lago, tivemos a visão dos himalaias alaranjados pelo pôr do sol, atrás das montanhas verdes, e essa foi a primeira vez que tivemos um vislumbre decente pois, até então, só víamos a ponta do pico Machapucchare e pedaços insignificantes dos outros picos da cadeia. Depois até tivemos a oportunidade de visões magníficas das cadeias montanhosas, mas aquela imagem foi a primeira e, por isso, marcante na viagem.

O desejo de conhecer o lago Phewa foi certamente uma das maiores motivações para interromper os estudos na Índia e ir para o Nepal e também um dos motivos principais pelo qual preferi o Nepal à Índia, apesar de no Nepal não ter desfrutado de estudos formais.

Apesar de nosso carinho e veneração especial pelo rio Ganga, o Phewa Tal, antigo lago sagrado para os povos que viviam na região de Pokhara no passado, acabou assumindo ares de sacralidade para nós também , sobretudo o sagrado compromisso com a mente livre, leve e solta.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

"Deixa cair velho"

Relacionar-se com as pessoas é sempre um desafio. Digo com as pessoas, porque lidar com os bichos, com as árvores, com as montanhas, como fazem os ermitões, me parece algo menos complexo. O maior desafio nesse caso seria o de enfrentar o silêncio e a harmonia da natureza em contraste com os nossos desarranjos e tagarelices mentais.

Mas quando o assunto é em relação aos seres humanos, no que subentende-se que a "racionalidade" está presente, estamos falando do intercâmbio de neuroses, fobias, caprichos e esquisitices dos mais variados níveis de criatividade e especificidade. A individualidade humana é um arcabouço de surpresas, uma verdadeira caixa de pandora.

Para quem está em busca de crescimento espiritual - e hoje em dia com esse modismo quem não está ? - a meu ver não há oportunidade melhor do que a convivência diária. O mau humor do marido, o adolescer do filho, a insatisfação do vizinho por "não sei o quê", que o faz descontar em tudo que é verde, nas pobrezinhas das árvores (não sobrou nenhuma!) e nos milhares de passarinhos que enjaula e ainda temos que escutar, calados (política da boa vizinhança), que adora os tais bichos.

Retiro espiritual para encontrar o Ser? Fala sério! Nesse sentido a Índia é um lugar fertilíssimo para uma "retirada espiritual". Talvez nenhum local da Terra tenha tantas oportunidades de investigação do comportamento humano. Uma simples encomenda de algum produto ou serviço pode se transformar em uma grande experiência psicológica e revelar inúmeras possibilidades do raciocínio humano em sua formas mais exóticas e inusitadas.

As relações comerciais na Índia são sempre ricas fontes de observação da atuação humana, principalmente no que ela tem de mais confusa, complexa e extravagante . Nunca sabemos até onde o indiano irá exercer sua "criatividade", e nem o que esperar de nossa reação. Qualquer coisa bizarra pode acontecer: você encomenda um pavão e eles te trazem um elefante, como se fosse a mesma coisa. Falam um preço e segundos depois o aumentam, e você pergunta o por quê, eles te respondem com um sorriso amarelo e uma balançadinha de cabeça (a tal balançadinha que em tese quer dizer sim, mas que pode ter qualquer ou nenhum significado: sim, não, não sei, talvez, não falo inglês ...) De repente, um funcionário da estação de trem cisma que seu visto não tem uma tarja dourada, e lhe impede de comprar o ticket, sem se dar conta do quanto sua implicância injustificada poderá complicar seus planos e compromissos.

Como realmente QUALQUER COISA pode acontecer em se tratando do "modus operandi" da mente do indiano, podemos nessa hora nos defrontar com os mais recônditos e obscuros escaninhos de nossa personalidade, revelando nossas faces mais sombrias ou ainda desenvolvendo habilidades especiais - até então desconhecidas ou simplesmente não utilizadas devido à falta de situações oportunas - tipo anular totalmente as expectativas e aceitar qualquer resultado; paciência e tolerância em grau máximo; persistência quase heróica para não "chutar o pau da barraca" de vez.

Bom, acho que não há dúvidas de que as relações inter-pessoais são ricas fontes de conhecimento, sobretudo o auto-conhecimento. Muito mais eficaz que muitos "workshops" que estão à disposição por aí. E ainda é gratuito, ou melhor, depende da atenção do praticante, o que infelizmente não é pouca coisa em se tratando de uma sociedade altamente automatizada como a nossa. O tal "botão" do piloto automático está sempre acionado (veja o filme Click).

Estamos ainda nos pródomos de um convívio humano mais sofisticado em termos de sentimento. Paradoxalmente, quando digo sofisticado, estou falando de simplicidade, ao contrário do que podem pensar muitos. Relações mais verdadeiras e profundas implicam em reduzir as complicações, os subterfúgios que nos afastam daquilo que é real... ("A verdade está na caspa e não no shampoo..." como diz uma canção); destruir os muros altos das convenções, abrir mão das máscaras, hoje ainda mais reforçadas na era da eletrônica, pois agora temos as máscaras "cybernéticas" ("A eletrônica está substituindo o coração" - Baianos e os Novos Caetanos); quebrar as regras e extinguir os rótulos de etiqueta social e "espiritual", para ser apenas um alguém relacionando-se com outro alguém.

Fato é que até o Vedanta - filosofia que estudo, admiro e com a qual afinizo, diga-se de passagem, está sendo utilizada como subterfúgio espiritualmente aceito e louvado para "fugir da luta", do "bom combate". Confesso que quando encontro aquele olhar vazio, do tipo "não sou mais deste mundo", aquele tom forçosamente equânime na voz, e uma atitude blazê de quem pensa estar se relacionando através do "Ser", como Ser e com o Ser - mas que na verdade não compreendeu bulhufas a respeito de ser nada - nestas horas fica difícil não apertar o botãozinho do piloto automático a ter que escutar as pérolas do vedanta sendo porcamente "parafraseadas".

Voltando aos relacionamentos, quero dizer que mesmo com todas as dificuldades e percalços, são preciosos e inesquecíveis os momentos em que relaxamos e deixamos cair as armaduras. Quando nos dispomos a ser sinceros com nossos sentimentos, inclusive com o nosso medo, sem tentar camuflá-lo com recursos de linguagem ou fugir pela tangente. Quando experimentamos botar o coração na cavalaria de frente e desvendar o tal do "sofrimento", que muitas vezes vem com o próprio medo de sofrer. ("O medo do sofrimento é o próprio sofrimento").

Deixamos de ficar confinados às nossas formas e "fôrmas" de concreto mentais, abrindo mão do próprio conforto em prol da experiência real da vida, pois, dentro dessa prisão de segurança, seguimos "morrendo" ao não aproveitar as oportunidades de melhores encontros, de momentos vivos, de carne, osso, coração, e do Ser também, por que não?

Se pudéssemos por vezes agir nos relacionamentos, tal qual as crianças, que brincam juntas sem perguntar nomes, sobrenomes, títulos e graduações, pois nada disso é útil e importa à brincadeira. Se déssemos mais valor aos momentos divertidos como elas dão, e menos ao que chamamos de "responsabilidades".... se pudéssemos ser menos "prudentes" e mais autênticos... menos sisudos e mais relaxados... se conseguíssemos expôr nossas "pirraças", ao invés de guardá-las... se fôssemos menos preocupados com nossa imagem e pudéssemos dançar quando sentíssemos vontade, ou usar livremente a espontaneidade sem especulações sobre a opinião alheia.

Conseguiríamos transformar momentos “corriqueiros” em momentos especiais. E assim "simplificar" o enfoque dos olhos para enxergar em "pequenas" coisas, oportunidades de uma vida feliz.

"A morte... a falta de sorte. Eu tô vivo, Paulinho. Vivo sem norte, vivo sem sorte, eu vivo. Aí a gente encontra um cabra na rua e pergunta: tudo bem? E ele diz, tudo bem. Não é um barato Paulinho? É um barato." ( os mesmos Baianos e Novos Caetanos)

Cris

P.S: Apesar do título ser uma expressão usada nos anos 60, aqui me refiro a uma fala do desenho animado Mógli de Walt Disney, quando Rei Louie, o líder dos macacos arruaceiros, solta a frase para o urso Balu, um personagem desencanado que, pela sua filosofia de vida, tornou-se um dos nossos ídolos. Em uma de suas cenas geniais, ele se descontrola com o balanço da música do "inimigo" e, ao invés de lutar, ele dança com o rei dos macacos.

sábado, 18 de julho de 2009

A evolução dos bichos, o retrocesso do homem


Aqui estou vendo coisas muito estranhas: Outro dia uma vaca rosnou para mim, os cachorros saltam para lugares onde um homem nao consegue saltar, os macacos só faltam juntar as mãos e falar namastê quando passamos. E os homens, não vou nem falar. Eu acho que um ser, quando chega no cúmulo da iluminacãoo, comeca a voltar. As vacas estão virando cachorro, os cachorros virando macacos e os macacos, virando homens. Mas o homem aqui na Índia com a questão do lixo, nem vaca é mais. É um corvo ou um pombo...Aqui, em qualquer lugar independemde de como seja, tem rios e atpe mares de lixo espalhado para todos os lados, lixo de todas as formas e lixo que as vacas, os cachorros e até os macacos ingerem e morrem. É o país deles que tambem está morrendo. Até agora só vi um indiano que liga para isto, eles não fazem por maldade ou sacanagem, eles fazem por total costume, as pessoas mais cultas comem algo e jogam o plástico ou seja o que for no chão. Mas voltando ao assunto, só vi um indiano que liga para isto, o dono da casa aonde estamos ficando, ele faz catagem de lixo, põe cartaz pela cidade e muito mais. Mas não pensem que a india e só aquela confusão de vacas, motos, carrinho, carros, macacos e tudo mais, que se vê nas imagens exibidas na TV e no PC. Isto é só em Delhi(capital) e em outras cidades maiores. Aqui em Rishkesh e em outros lugares da Índia é mais tranquilo. E até engracado, pois aqui muitos gringos recolhem o lixo. A ironia da história: Os estrageiros limpando o país e os nativos sujando tudo de novo! hehe! Bom, mas o lixo não se compara com a quantidade de coisas boas que tem aqui, quer dizer se compara em quantidade, mas nao em importância...


Flora


P.S: Esta postagem foi retirada do blog da Flora, www.blogbordo.blogspot.com

terça-feira, 14 de julho de 2009

New indian way of life



Quando pensamos na Índia, imediatamente nossa mente remete à imagens de templos e da religiosidade do povo. Pensamos em saris e roupas multicoloridas, comidas exóticas, cheiro de incenso e animais como elefantes, najas e pavões. Quase sempre o lugar comum, ou pensamentos mais frequentes são as imagem dos ghats à margem do Ganges, das múltiplas manifestações religiosas e dos pujas.

Mas as pessoas, mesmo algumas que já moraram na Índia , muitas vezes não refletem à respeito de como está hoje em dia o desenvolvimento da espiritualidade indiana.





Sim, ainda existe uma tradição religiosa na Índia. Aglutinada nos Ashrams -me refiro aos verdadeiros e não às "pousadas" que mantém esta denominação para garantir seu quinhão do governo ou ganhar mais uns tostões dos turistas - demonstrada nos rituais, pujas, aratis e em outras tantas manifestações, que às vezes mais me parecem culturais do que essencialmente "espirituais". Se são meramente "mecânicas" ou imbuídas de um sentimento verdadeiro de religiosidade, não posso precipitar-me em dizer - fato é que já vi um brâmane interrompendo um puja que estava conduzindo para atender ao celular! Mas isto é apenas um fato, não suficiente para criar uma teoria.


Tive a oportunidade de adentrar e me misturar com o povo indiano, o que tento sempre fazer quando viajo para algum lugar. Perceber como vivem, participar do seu cotidiano, perguntar, tentar entender a forma como pensam as pessoas daquele lugar. Acho isso o mais interessante e importante para a minha experiência e crescimento.



E nessa viagem, o que pude constatar foi que a nova Índia está mais com os olhos voltados para o "American way of life" do que para a sua tradição espiritual. O diálogo entre os jovens, ou dentro das famílias, sempre manifestando uma grande preocupação com o "development", o desenvolvimento econômico da Índia. Exaltam seus estudos, o grau escolar das crianças, a qualidade do seu "inglês", as pomposas roupas ocidentais que vestem. As conversas geralmente orbitam em torno dessas questões.

Money, money, money, como a mola condutora dos hábitos e propulsora do crescimento. E é dentro dessa base de valores que as crianças indianas estão crescendo. A relação que algumas destas possuem com os estrangeiros pelo menos, assemelha-se à dos pais, que muitas vezes nos "limitam" à notas ambulantes de dólares. E quando o enfoque é primordialmente esse, fica muito difícil afinizar-se e estabelecer amizades e relacionamentos sob bases mais verdadeiras e profundas. Quando menos esperávamos, lá vinha uma abordagem sobre o dinheiro.

Como em todos os lugares do mundo, o lado negro também está presente na Índia. Não são só flores, aratis, yoga e gente espiritualizada que se encontra por lá, como se iludem muitos ainda. Ao contrário, permito-me dizer que a "Índia espiritual" está morrendo. Desonestidade, mentiras, descompromisso com a palavra, foram atitudes que me chocaram ao encontrar em proporções tão elevadas. Aspirações monetárias disfarçadas em sorrisos, "namastês" e "hari oms" aos montes.

Pelo pouco que pude observar nos hábitos do povo indiano contemporâneo, as conclusões que tiro são que as perspectivas de futuro na Índia são as piores possíveis, em se tratando de valores espirituais. E é com essa mancha no coração que voltei para o Brasil, ao ver uma cultura tão rica e valiosa que, por ironia do "destino", agora está cada vez mais crescendo e ganhando espaço no Ocidente mas que lá, está escorrendo pelo esgoto que esse mesmo Ocidente deixa por lá. (Era de Kali, o que fazer não é ?)

Se ainda amo a Índia? Ainda amo muito a Índia e volto lá sempre que for possível. Amo sua cultura antiga, suas filosofias milenares, os aratis, os cantos, sua arte, e até seu povo, mesmo com todas as indiossicrasias e "desvios". Seu sorriso no rosto mesmo quando disputando - ou melhor seria dizer em se tratando dos indianos - compartilhando o escasso espaço dentro do ônibus ou carregando toneladas de peso nas costas sob o sol quente. Amo o bom humor indiano (aqui descosiderando os funcionários ferroviários), às vezes até excessivo e descabido. Amo sua pacificidade (às vezes camuflada), sua gentileza real, o carinho e receptividade com nossas crianças.


Amo a Índia como uma mãe ama um filho (ou pelo menos deveria amar): INCONDICIONALMENTE. E deixo a Índia como uma mãe que deixa um filho em más companhias. Com o coração chorando e as mãos limitadas.

Ou amo como mais uma filha dessa grande Mãe Índia.

E volto para meu "outro" país com a saudade apertando no coração. Mas com os olhos abertos à sua decadência e regresso espiritual. O avanço econômico é importante e necessário, óbviamente e principalmente considerando a situação de miséria na Índia. Mas não esquecer nunca de cuidar dos assuntos "do céu". Se não, é como cuidar do corpo e negligenciar a alma.

Cris

domingo, 5 de julho de 2009

Pela janela do trem

Há muito tempo que eu não andava de trem. A paisagem comum na Índia é monótona e não sei dizer muito bem se é porque o tempo parece parar ou por serem quilômetros e mais quilômetros de planícies, pastos e plantações, e por vezes terras áridas como os cerrados e desertos. Quem é ansioso nunca poderia andar de trens comuns por aqui . No Nepal andávamos sempre de ônibus, e lá as estradas são sinuosas com paisagens cheias de montanhas. Além do fato de você poder viajar sobre o teto, o que muda a noção de tempo e a perspectiva de percepção da viagem, já que é bem mais emocionante.

Fico olhando pela janela estes lugares que ninguém quer visitar e sinto constante vontade de descer do trem, caminhar pela paisagem bucólica, descansar debaixo da sombra de alguma árvore.

Poderia ficar dias nesses lugares que não interessam a ninguém. Fazer pic-nic com as crianças, brincar de subir nas poucas árvores, brincar de esconder nas fileiras das plantações.

Dormir ao relento em lugares assim não tem coisa melhor. Nada para perturbar o silêncio que reina de noite e de dia.

Penso que essas "terras de ninguém", são o extremo oposto dos Taj Mahals e "praias douradas de Goa". Sábia decisão a de não ir conhecer esses lugares. Provavelmente tirariam mais a minha paciência, com seu turbilhão humano e futilidades turísticas, do que a monotonia do trem.

Triste pensar que ninguém vê beleza nestes lugares singelos, mas ao mesmo tempo é bom pensar que tenho essa imensidão "só para mim", e se eu quisesse mesmo descer teria esse monte de possibilidades de desfrute para no máximo eu e minha família. Falo isso porque tenho certeza que as raras pessoas que vivem no local também não devem achar graça nenhuma. Mas para mim essa paisagem aparentemente sem graça poderia se transformar numa espécie de éden particular, e eu, Adão com sua Eva e um bando de filhos para povoar o paraíso que só eu acho graça.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Sapera, o "encantador" homem das serpentes


Desde criança ficava louco toda vez que via em algum filme ou documentário, ou mesmo em livro a figura do encantador de serpentes, com aquela flauta que magicamente fazia com que a cobra ficasse movimentando-se como se estivesse sob um domínio misterioso. Gostava do som, que lembra um pouco o som do shennai, instrumento de sopro indiano que necessita de paleta.

Logo nos nossos primeiros dias de Rishikesh, ouvimos aquele som alucinante vindo de dentro do pátio de um ashram. Assim como os ratos no conto do flautista de Hamelin, fomos seguindo o som daquela flauta até encontrarmos pela primeira vez aquela figura interessante.
De cara gostamos de tudo, das suas roupas, de sua flauta decorada num estilo cigano, o cesto com a cobra e especialmente sua postura humilde. Sapera é incapaz de pedir dinheiro, atitude que te deixa mais a vontade, para se relacionar de forma mais aberta. Não me lembro exatamente em qual encontro o Damião teve a idéia de aprender a fabricar flauta been e tocar ( ele já trabalhou com construções de instrumentos musicais antes ) mas, devido a isso, acabamos por nos aproximar mais dele e da família, pois meu irmão ia com as crianças para a casa do Sapera no final de seu expediente, para tomar as lições de como fazer a flauta e como tocá-la.

Pode parecer estranho falar de expediente quando o trabalho de uma pessoa se trata de encantar serpentes, mas pasmem, descobri que ele tem carteira de encantador de serpentes e tudo, com autorização do governo indiano. Nunca imaginei que pudesse existir esse tipo de licença, só na Índia mesmo. Esse tipo de coisa, ajuda a evitar que surjam falsos encantadores.
Por tradição, essa arte passa de pai para filho, e só os homens podem aprender. Se o encantador for sério, vai ser também um curandeiro, ou pelo menos saber tratar ou curar picadas de cobra. Eles tem uma pedra especial para extrair o veneno da serpente que acreditam ser mágica, herdada de pai para filho, e, junto dela, utilizam ervas para tratar os ferimentos e combater a peçonha.

Na verdade, o ato de "encantar" serpentes consiste em capturar a atenção da cobra através do movimento. Como o animal é surdo, só pode perceber a vibração do som. Já li em algum lugar, que eles passam urina de rato na ponta das flautas, para atrair o olfato da serpente e mantê-la em alerta.

O fato é que o homem fazia uma "dança" muito louca com o corpo, agachado na posição de cócoras enquanto tocava a flauta.
Outro detalhe importante é que o sujeito pode ser encantador de serpentes e ser péssimo músico, o que não era o caso do Sapera, que pelo pouco que entendo e pude perceber, conhece de ragas, as peças clássicas musicais indianas, e de mantras.


Sapera morava numa casa feita de pedaços de pau e lona de plástico, uma construção precária como vemos nas favelas do Brasil. Como ele é de família cigana do Rajastão, esse tipo de construção é fácil de desmontar e montar em qualquer lugar. Dentro de sua casa fomos muito bem recebidos por sua família, mulher, filhas e duas cobras, que dormem num cesto em cima da cama com eles. As cobras fazem parte da família.

Quem quase entrou para a família também foi o Damião, que andou se engraçando pela filha mais velha de Sapera. O pior é que surgiu mesmo um clima romântico, aparentemente avalisado pelo próprio pai, que estava a fim de casar a filha logo. Mas acabou que a coisa não foi para a frente, damião não ficou na Índia, não trouxe a moça e tudo ficou por isso mesmo, no plano platônico. Ainda bem, já pensou ter um sogro encantador de serpentes? Se você aprontar alguma, pode acordar com uma serpente na cama...

Infelizmente a profissão de encantador de serpentes é algo que vai se tornando cada vez mais rara, e não faz a cabeça de nenhum jovem indiano. A maldita globalização vai mandar essas figuras para algum museu do esquecimento e no futuro as pessoas só vão saber o que é isso através do google ou documentários.





quinta-feira, 18 de junho de 2009

E por falar em saudade...




Estamos sempre com saudade de alguma coisa...
Um momento, uma pessoa, uma comida...
Acho que tudo bem, se estivermos satisfeitos com a vida atual ...
Saudade é sinal de bons momentos, bons encontros, bom passado...
Lembrar do passado é bom para realizar um bom presente.

Diferente da atitude daquelas pessoas nostálgicas e melancólicas, que nunca estão felizes com o agora.




"Bons tempos eram aqueles..."

quarta-feira, 17 de junho de 2009

I know It´s only rock ´n roll


Que emoção que foi quando avistamos aquela figurinha de meio metro de altura, rebolando mais que o Ney Matogrosso, com trejeitos e bocas do líder secular dos Stones. Descobrimos o Mick Jagger nepalês, em carne e osso. Tio Mick andou aprontando as suas lá pelas bandas do himalaya. Tenho certeza, esse molequinho só pode ser filho dele. Infelizmente, e como sempre, estávamos despreparados para filmar ele dançando e piscando com suas caretas fantásticas, uma pena, pois o negócio mesmo era o movimento, ele era puro movimento. Antes da dança, ele fazia um show de asanas ( tudo bem pessoal, sem mau humor, eu sei que vivo falando mal disso) de deixar qualquer um torto só de ver. Tenho certeza que ele tem sangue de minhoca misturado com o do Mick.



Infelizmente, devido aquele típico mau humor de muitos gringos, bancado por um discurso vazio de base marxista, ninguém dá grana nenhuma para ele. Apesar do show fantástico, as pessoas se recusam a dar dinheiro para qualquer um nas ruas, muitas vezes deixando de analisar as situações separadamente. Mas é isso aí, dinheiro para um mini-artista de rua é "financiar a miséria", mas deixar os cofres dos inúmeros gurus e mestres picaretas que tem aqui pela Ásia abarrotados, isso pode. A iluminação tem um preço, mas esse assunto dá muito "pano prá manga", então deixo vocês com o sensacional "gingado sacana" do pequeno Jagger nepalês.

domingo, 7 de junho de 2009

Os mergulhos no Ganga




Uma curiosidade que me assombrava... qual a sensação de um mergulho no Ganga?


Sempre perguntava isso para as pessoas que passaram por esta experiência mas ninguém conseguia me explicar... só comentários obscuros, tipo "Nossa!..."; "Mágico"... "Espiritual"...


O que só aumentava ainda mais meu preconceito em relação à veracidade dessa "transcendental experiência". É claro que se você já vai com mil idéias pré-concebidas de que é especial, será especial, óbvio! A não ser que uma fatalidade ocorra, tipo um afogamento, como aconteceram algumas vezes, inclusive enquanto estávamos lá.


Mas uma situação inusitada dessas dificilmente vai ocorrer se você não é ambicioso em querer cruzar o Ganga de ponta a ponta, e se contenta com alguns simples mergulhos . Alguns mergulhos são mais complexos que outros, dependendo da criatividade e da excentricidade do mergulhador (não se esqueça que estamos falando de um rio na India... tudo é possível), já vimos cada mergulho exótico, alguns parecendo sessão de descarrego ou espetáculos teatrais.


Mas o esperado por todos é que"seja algo especial"! O contrário vai contra todas as expectativas, até mesmo daqueles que se dizem céticos, pois mesmo não aceitando já estão envolvidos pelo inconsciente coletivo, e mesmo negando também já possuem alguma pré-concepção.


Enfim, qual é a sensação de mergulhar no Ganga?

Primeiro mergulho: tentei me destituir de idéias tendenciosas, opniões e preconceitos e entrar com a mente o mais aberta possível. Qual a primeira impressão? GELADO!!! MUITO GELADO!!! Não dá para pensar em nada mais que isso! Mau humor, "bad vibration", realmente nada resiste a um choque térmico desses... A sensação de leveza após o choque é indiscutível. Muito boa. A ponto de, mesmo com o trauma do frio, você querer enfrentá-lo de novo... e de novo... e de novo.

Até que chega um dia, depois de muitos mergulhos, o frio ainda existe mas já não é algo relevante, e acontece só nos primeiros instantes . E a partir daí começamos a curtir de verdade, sem esforço, passando a explorar mais sensações... aumentando as experiências na água, arriscando práticas inusitadas.

O vício do Ganga! Todos os dias tínhamos que tomar nossa dose diária de Ganga. Não fazíamos como os hindus, dando os três ou sete mergulhinhos sequenciais, mas como autênticos mineiros nos esbaldando na "praia". Ensaios de natação, travessuras até as "ilhas" de pedras, as chatíssimas mas inevitáveis brincadeiras de empurrar na água, jogar água fria, brincadeiras com a areia e até mesmo "cerimônias religiosas" fizemos, ao nosso jeito, sem "ritualísticas e retorísticas", sem formalidades e convenções...

O "batismo" do pequeno Ravi no colo de "Padim Damião", com uma oração curta, simples e sincera... o "casamento" de Tarzan e Jane (depois falo porquê Tarzan), orando e celebrando nossa união em mergulhos de limpeza e fé... até a cerimônia de jogar o dentinho de leite da Florinha com pedidos e tudo, fizemos no Ganga, além de outras vivências pagãs...

"Nossa", "mágico", "espiritual"... o mergulho no Ganga é tudo isso mesmo e muito mais.

Infelizmente está cada vez mais sujo, e não sei até quando ele vai sobreviver...

O fato é que essa "moça", mesmo sendo muito fria, deixou um calor eterno em nossos corações, na forma de muitas recordações.


Cris


O Ganga


Muitas postagens merece esse companheiro especial de viagem...
Amigo marcante..
Palco de muitos momentos especiais, mergulhos inesquecíveis...
Realmente o Ganga tem um algo mais de sacralidade!
Não é para menos... um bilhão de pessoas enviando-lhe emissões mentais, exaltando sua divindade e cultuando-o como Deus, com certeza lhe imprime algo de especial.
Não acredito que o Ganga seja Deus, mas é algo que Ele fez quando estava com muita inspiração!
É difícil não lembrar do Criador na presença dessa grande obra.
Penso que certas obras Deus fez por vaidade, para a gente ter certeza da sua existência e se lembrar dela... Uma dessa obras com certeza é o Ganga.
Outra é o Himalaya... (mas isso é assunto demais para agora)
Cris



segunda-feira, 1 de junho de 2009

Dom Quixote contra os moinhos de vento


Quando se corre atrás de um sonho deve-se avaliar quais são os limites reais e aqueles criados pela mente. Avaliar com sinceridade, pois a mente encontra “razões que até a própria razão desconhece” para nos impedir de prosseguir adiante em nossos ideais.

Algumas dificuldades são realmente difíceis de transpor, como dobrar os ossos, atravessar paredes e vencer a gravidade. Mas até mesmo isso pode-se dar um jeitinho.

Outras situações nos parecem difíceis. Algumas distâncias nos parecem grandes, algumas montanhas parecem inalcançáveis, alguns objetivos impossíveis. Até o primeiro passo...

A partir dele, se desistimos nos primeiros obstáculos, se não levantamos nos primeiros tropeços, temos a ilusão de que nossos receios se concretizaram. “Eu sabia que isso ia dar errado”, “ Bem que me avisaram”.

É preciso ter pulso firme para não sucumbir aos primeiros fracassos e não encontrar mil e uma justificativas “prudentes” para desistir e não ceder a tentação de se entregar a um cômodo “entreguismo” e literalmente entregar o ouro para o bandido, sem uma luta das boas. Tendemos a sempre fugir das batalhas necessárias. Assim como Arjuna quis fazer fugindo à guerra que iria restabelecer a justiça. Todas as justificativas que ele encontrou eram válidas, “reais”, “justas”. Mas negavam o seu dever maior.

“ É preciso estar atento e forte” para não temer ou não deixar que o medo paralise os nervos, a ação, o pensamento e a intenção.

Mas creio que não existe satisfação mais poderosa do que a vitória após a persistência.

Cris e Rô

"It's all in your mind" *

Nossos limites são transponíveis.

Reais até o primeiro passo.

A partir daí percebemos que é tudo uma questão de ponto de vista....

De percepção.

Às vezes a distância me parece grande....




Cris

* George Harrison no desenho Yellow submarine

domingo, 31 de maio de 2009

Ironias da vida - Trocando de papéis


No trem de ida para Jaipur, uma mãe com duas crianças indianas ocuparam o assento à minha frente. Como a maioria das crianças indianas de hoje em dia, vestiam roupas tipicamente ocidentais, calças jeans, jacketa e boné.
A mãe certa hora perguntou o nome do meu filho e se surpreendeu quando eu disse: Ravi Chandra: " Indian name?" Como dizem sempre os indianos ao fazer a mesma pergunta. Quando perguntei os nomes das crianças, achei graça quando ela me disse : "Lucky and Happy!" American name?", eu disse..

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O portal de entrada no Nepal


Vale a pena falar sobre essa entrada no Nepal, o quanto foi mágica e o quanto é linda essa via de acesso por Mahendranagar, a primeira cidade do Nepal saindo por Banbassa (a ultima da Índia). É como sair do inferno e passar por um portal, que é o caminho até chegar na fronteira. Abençoada desonestidade do motorista do rikshaw, que nos fez decidir atravessar a pé e vislumbrar uma cena que desmontou toda minha insegurança de tão inebriante, ou melhor, "ineblinante"! Uma neblina que dava a sensação de estar entrando no céu, ou em um cenário das Brumas de Avalon. Uma paisagem bucólica e alquímica, que enlevou os sentimentos de todos e permitiu que entrássemos no Nepal completos de paz.



Compensa muito conferir essa rota, quem deseja migrar da Índia para o Nepal via terra. Nao é um caminho nada conhecido entre os turistas, que geralmente preferem as vias aéreas ou os fretes de automóveis particulares. Esse é o trajeto comum que fazem os nepaleses que vivem na Índia. E para fazê-lo, é bom estar preparado para encarar o temido "local bus" e enfrentar situações inusitadas, tipo viajar com cabras, cinco pessoas para dois lugares, ônibus gelado sem janelas, inúmeras paradas para longas refeições, dentre outras. Mas é uma rota mais "rápida" (dentro dos padrões indianos) e muito bonita.


Entrada triunfal no Nepal


quinta-feira, 28 de maio de 2009

Lua cheia em Rishikesh

Primeira lua cheia nas montanhas próximas ao Himalaya, pelo menos o mais próximo que já chegamos dessa grande cadeia montanhosa. Pode parecer que é simplesmente uma lua cheia numa serra de montanhas bem altas, como poderíamos ver na serra dos órgãos, penedo ou itaiaia. Mas, obviamente, percebemos que é bem diferente. O rio Ganges, o Ganga Nadi, faz toda a diferença quando visto do alto das montanhas. O ar é diferente. Frio, seco, e o vento vem com o sopro dos ascetas, dos santuários de sábios e yogis que ficam nos limites dessa gigantesca serra que precede a cadeia de picos nevados.




Amanhecer no Ganga, visto das montanhas

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Incredible India


Estávamos em uma lanhouse em Rishkesh, onde trabalha o Ravi, um amigo nosso, quando passou um ratinho minúsculo, passeando entre os pés das pessoas que usavam os computadores. O dono do espaço apontou para o rato e, ao contrário do que se espera de um proprietário de loja no Ocidente, que ficaria no mínimo constrangido com a situação e provavelmente tentaria assassinar o infeliz, ocorreu o contrário, o senhor apontou para o rato e celebrou a sua presença em alto e bom tom:

- Ganesha!, disse ele com um sorriso nos lábios como se aquilo fosse sinal de boa sorte. ( Os hindus acreditam que o Deus Ganesha tem como vahana, que é o veículo pessoal de cada Deus, um rato)

Ravi, compartilhando da satisfação do chefe, voltou-se para seu xará, o nosso Ravi, e disse:

- He is your brother! He is like you!

Em um momento o ratinho parou bem ao lado do pé do Rodrigo. Fiquei receosa dele entrar em sua roupa, como presenciamos acontecer com um amigo no Nepal. Achei que o Ravi nosso amigo estava coadunando com a mesma preocupação quando gritou ao Rodrigo: "cuidado!" (be careful!), mas Ravi estava com medo do ratinho ser pisoteado e só relaxou quando o ratinho se escondeu em um cano dentro da loja. "Uf....Safe now" Ele disse.

Alguns minutos depois, foi engraçado, pois o ratinho ameaçou sair da loja, e o Ravi começou a gritar : No, no, no! "Come back ! The street is very dangerous to you."
Que nobreza de sentimentos.

terça-feira, 26 de maio de 2009

" O que seria dos Himalayas sem o sol?"


E o que seria do sol sem os Himalayas para colorir?


E o que seria dos dois sem a nossa presença os percebendo e admirando?

Em uma ousada passagem de Gitanjali, o canto de oferenda, o poeta Tagore diz: "Ó Senhor, o que seria de ti sem o meu amor". Assim como o criador necessita do amor da criatura e de sua admiração e fidelidade, o criador e a criatura necessitam da experiência da consciência.

Necessitam do observador, "daquele que vê", o "vidente" - no sentido de alguém que vê.

Necessita de uma consciência que testemunha (sakshi) ou quer dizer, a existência que tem consciência (Sat-chita) de si mesmo, que se compreende como sendo o Ser, e não os "objetos" que o circundam com seu "brilho" próprio.

Quando digo objetos, me refiro ao sentido que Patanjali dá ao termo vishva, que significa mundo, ou universo e tudo que nele está contido, e que na concepção do Yoga clássico é referente a tudo aquilo que não é este Ser, essa "centelha de consciência" que somos.

Quando escrevo "brilho", quero me referir à fascinação, ao colorido, ao efeito que estes exercem sobre nós. Até mesmo a mente e os pensamentos fariam parte desse "mundo" que nos cerca, mas que verdadeiramente, "cerca" o Ser. Ou melhor seria dizer que "encobre", "superimpõe", como propõe o vedanta.

O ser seria um viajante carregando uma enorme quantidade de coisas. Alguns viajam levando o estritamente necessário, outros carregam uma enorme quantidade de tralha, coisas desnecessárias e supérfluas. Alguns levam sua existencia de forma simples, seu corpo, mente, sua expressão energética e vão anulando karmas, livrando-se de resultados indesejáveis de ações errôneas pregressas. Outros vão acumulando uma bagulhada lascada, carros, casas, terras, móveis, riquezas, posses e muita carga, seus karmas que nada mais são que suas ações e respectivos resultados e principalmente mágoas, rancores, manias, neuroses e traumas. Preocupações, problemas e irritações, uma carga muito pesada para se carregar ao longo da vida, geralmente disfarçada sob o nome de responsabilidade. E como é pesada a tal mala da responsabilidade. Como colocamos tralha nas costas para carregar.

O nome disso tudo em sânscrito é upadhi, e "superimposição" seria uma das possíveis e prováveis traduções. Tal qual um caracol, colocamos "nossa casa", nossa bagagem nas costas e saímos carregando pelo mundo. Um dia, todos nós teremos que ir nos livrando de tudo que pesa, de tudo que carregamos, para aos poucos ir nos transformando novamente naquele Ser simples, e ao mesmo tempo completo, ou seja, a nossa essência. É nossa escolha optar por ter que se livrar um dia de uma carga muito pesada, estando exaustos pela jornada, ou simplesmente tirar das costas uma bagagem mais simples e simplesmente ser feliz.

" As asas de ouro e o sentimento de papelão"



Quando eu era pequena, todos os dias sonhava que flutuava baixinho, a mais ou menos um palmo do chão. E andava flutuando... Eu sonhava tanto com aquilo, que para mim parecia uma realidade. Até o dia em que percebi que não sonhava mais e que aquilo era só um sonho ou seja, eu não podia voar! Fiquei desesperada quando descobri isso, mas logo isso se acalmou e eu esqueci. Um dia antes de vir para a Índia, na casa do Tio Paulo, tudo aquilo teve um sentido, pois eu pensei: " naqueles sonhos, eu voava baixo, amanhã voarei alto..."




Mas quando vim para a Índia...



*"Ouvi dos lábios da cigana
Você se engana
É tão difícil ver na frente
com seu medo.
Durante o dia,
se você deita...
a cama feita
o inimigo espreita.
Você estremece...
mas fica mudo de horror
e treme de pavor..
Durante a noite é diferente
tá tudo escuro.
Se você pensa no futuro,
cai no sono.
E nos seus sonhos, subtamente,
a cama feita, o inimigo espreita.
Você estremece...
mas fica mudo de horror
e treme, de pavor.
No outro dia o mesmo medo
a mesma hora.
A solidão vem desde cedo
lhe devora
Não adianta, ela não passa
Qualquer que seja a reza que você faça
Porque no fundo
você não pode suportar
a hora de arriscar!"



MAS ISTO PASSOU!


Pois, eu combati o bom combate! O bom combate, segundo Paulo Coelho coloca num livro que estou lendo agora na viagem é:


" Nos tempos de antigamente, as pessoas lutavam por terras a serem conquistadas. Mas hoje as coisas mudaram e as pessoas lutam o bom combate consigo mesmas.


O bom combate é aquele que é combatido não pensando no que passou ou no que passará, e sim no processo e no que está acontecendo, independente se é bom ou ruim."



E AGORA, FINALMENTE E NOVAMENTE....


" Eu tenho asas, posso voar
posso voar bem perto, bem lá no céu
posso no ar morar
a voar, a voar."





Flora

*Obs: Quando a Flora chegou na Índia, teve uma crise de pânico e desespero e não queria nem descer do avião. Depois quando chegou em Rishikesh não queria voltar para o Brasil de jeito nenhum. As duas músicas que ela escolheu explicitam bem o antes e o depois, as duas situações na cabeça de uma menina senível de 11 anos. Ela colocou primeiramente a letra da música "Corra o risco" do primeiro lp da Olivia Biyngton de 1978, antes dela virar mais uma cantora de mpb chata e sem sal e a outra música é do genial Marcos Valle, na fase que ele já tinha rompido com a turma da bossa nova, em 1974. Duas músicas que não saiam do walk-man dela. Quem curtir música antiga pode procurar nos blogs da vida.

Cris


A serpente de ouro

Ontem subimos a montanha mais alta "avistável" na região. Trilha linda, às vezes mata, às vezes vales com florestas, terraços com campos cultivados e casinhas de camponeses nas montanhas ao redor. Um clima de Himalaya, daquilo que vem pela frente ... Vimos um pôr do sol como não via há alguns anos. Esplêndido, colossal... e, no meio do seu caminho para desaparecer na terra, o sol se camuflou na bruma, escondeu seu manto dourado e se transformou numa imensa lua de fogo vermelho. Ficamos contemplando em silêncio, meditando e vislumbrando o Ganges serpenteando entre as montanhas como uma longa serpente de cor dourada. O Ganga roubou o brilho do sol e se transformou num rio de ouro.




"O crepúsculo é a fresta entre os dois mundos", disse certa vez o velho brujo Don Juan, o índio Yaqui que ensinou Castañeda. Lembrei-me disso quando atrás de mim já crescia a noite e à frente, o poderoso astro-rei ia mergulhando na terra, atravessando a densa bruma, cedendo lugar à lua cheia e prateada que vinha atrás. Sol e Lua, Shiva e Shakti, consciência e força-energia.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O adoravel "fofucho" das neves

Ravi em frente da cadeia dos Annapurnas, vila de Sarangkot


Viemos para o Nepal para procurar o Yeti, o "pe grande", tambem conhecido como " o abominavel homem das neves", mas encontramos mesmo foi o "adoravel fofucho das neves"

"Pe em Deus e fe na tabua"

Saida caotica da India (Cris, Ravi no colo, Tata do lado, Flora de costas e o motorista picareta que deixou a gente no meio do caminho porque nao cumpriu com o combinado e queria cobrar mais dinheiro... história que se repete na India..


De novo estamos de pe na estrada, deixando o nosso porto seguro em Rishikesh, para nos defrontar com o desconhecido, himalayas, trilhas com neve, gente e habitos diferentes, onibus com motoristas loucos, viemos para o Nepal para descansar dos estudos na India. Buscar novas aquisicoes, sair um pouco do Yoga hindu e buscar o Yoga budista, a cultura tibetana e das montanhas. Um sonho antigo tal qual a viagem para a India, mas como todo sonho, sentimos aquele medo antes da concretizacao, aquele medo de morrer no mar quando ja estamos vendo a praia. Refiz as malas da aflicao horas antes de seguir viagem, o que nos esperava? Atravessar fronteiras de um pais por terra e sempre complexo. Ja estavamos acostumados e instalados na India, com uma rotina organizada, saudavel para as criancas e "segura" para os meus padroes. O Nepal era uma incognita. Portanto, nova confrontacao comigo mesma para superar ansiedades, medos e expectativas. Quando era sozinha, viajava sem problema, me jogava nas situacoes ate imprudentemente, sem medo dos maus resultados... mas agora, tres criancas e tudo que isso implica, alimentacao, saude, agua potavel, educacao, diversao, exemplos para se dar...muda tudo quando nossas acoes nao trazem resultados apenas para nos. Mas, what to do? Se e necessario prosseguir, " Fe em Deus e pe na tabua". E estamos aqui no Nepal, ainda bem...

Cris

Vai com Deus


Qual e o verdadeiro significado desta expressao?

Muitas pessoas acham que estao com Deus, mas na verdade estao com seus medos, suas angustias, suas acomodacoes, seus condicionamentos. Quem esta com Deus se reconhece no olhar curioso, questionador, desejoso de conhecer e desbravar os mais reconditos lugares... especialmente em si mesmo. E, nessa aventura, reconhecer o si mesmo nas pedras que habitam o rio que corre do outro lado do planeta.. no sorriso e nas lagrimas das pessoas que se banham e rezam juntas neste rio. Estar com Deus `e perceber nossas barreiras e desmistifica-las. ("A fe que remove montanhas"...) O viajante muitas vezes ainda sente medo... mas ele nao deixa de seguir em frente. Quando percebe em si a impotencia, reconhece em Deus, a onipresenca... e prossegue com Ele.

Cris

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Olhe bem as montanhas

Eu meu pai e meu tio estamos com a obssessao de ver os himalayas que ficam na India e no Nepal. Entao, estamos tentando de todo jeito ver nem que seja uma pontinha de pico nevado. Ja haviamos subido duas vezes em uma pequena montanha, ela era linda, tinha um ficus gigante e super lindo e encontramos ate uma ossada de boi morto (desconfiamos ser um boi morto por um leopardo). Nos vimos la de cima Rishikesh inteira e um pedaco de Haridwar, e as famosas pontes de Rishikesh. Foi uma otima experiencia mas os "cacadores do himalaya" queriam mais...
Um dia que fomos na praia do ganga, procuramos a maior montanha nas redondezas de Rishikesh e resolvemos ir nela no dia seguinte. Na primeira vez o meu pai e meu tio foram sozinhos para procurar um jeito de comecar a subir a montanha, enquanto fiquei em casa para agilizar uma bolsa que estava costurando. Fomos pelo mesmo caminho que eles descobriram e comecamos a subir. Subimos,subimos,subimos,subimos quase sem parar e com apenas um litro de agua e um pacote pequeno de biscoito. Paravamos de meia em meia hora durante 2 minutos, so para beber agua e comer um biscoito, mas fora isto:andar,andar,andar!

Comecamos a ficar altos e ver uma grande parte de Haridwar e do rio ganga serpenteando as montanhas la longe. Vimos varias vilas ao longe no caminho, alem das lindas plantacoes de mostarda e arroz la em baixo. Chegou uma hora que a trilha sumiu e ficamos um tempo para acha-la de volta, mas quando apareceu, tivemos uma visao magica como nunca tive igual, estava o mais alto que ja estive na minha vida e o ganga era como uma serpente de agua ao longe e Rishikesh e Haridwar ja eram tao pequenos que ja nao se via nada nitido la em baixo. Quando vimos o pico, nosso coracao comecou a festejar e nos nos alegramos soltando um sorriso MUITO cansado. Fomos andando em direcao ao pico e quando chegamos la tivemos a pior decepcao de nossas vidas, mais um pico a nossa frente para terminar de subir. Subimos, e quando chegamos, mais um e quando o subimos... Mais um(bua)pequeno, so que este nao tinha jeito de subir.


Comecamos a andar sem subir e aonde achamos que nao podia haver sequer um alma viva, encontramos uma familia de lenhadores (na verdade criancas e mulheres catadoras de lenha), que e claro nao falavam ingles. Subimos em uma rocha e ficamos la vendo a cadeia de montanhas, o rio e as cidades la em baixo. Uma visao magica, acompanhada do canto dos lenhadores cortando madeira perto de nos. Ficamos la mais ou menos duas horas e depois quando iamos embora,os lenhadores nos indicaram o caminho que eles faziam, e fomos com eles e tivemos uma experiencia magica passando no meio das vilas no alto da montanhas vendo bufalos e cabras exoticas em casinhas lindas.

lenhadores no entardecer

Nao vimos os himalayas, mas tivemos talvez uma experiencia muito mais importante do que (como diz a Cricri gozando nossa obsessao)ver "rochas que parecem ter sal em cima!"Mas eu vou ver os himalayas, pois vou para o Nepal, sikkim (uma especie de reino que fazia parte do Tibet) e talvez Butao, pois vou ficar ate final de fevereiro viajando(EBA!)


Flora

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Massagem para a criatividade

Nossa guru de Ayurveda, Dra. Usha

Para quem pensa que estamos de ferias na India, nao imagina a correria que foi para chegar aqui e continua sendo. Desde que estamos aqui, os dias tem sido cada vez mais curtos para tanto conhecimento que esta disponivel neste lugar, sem contar, que estamos no inverno, num vale no meio das montanhas e temos poucas horas de luz solar. Essa historia de que 2008 teve um segundo a mais nao esta valendo para aqui. Os segundos estao faltando no nosso "quadro" de horarios escolar. Aulas pela manha tarde e noite, caminhadas nos intervalos para chegar de uma para a outra.E como nem sempre a praticidade e preponderante para esta familia, conseguimos encontrar uma casinha bem distante do movimento dos turistas, vendedores, rick-shaws (meio de transporte indiano), e proxima do movimento daas arvores ao vento, macacos brincando e pulando entre elas, dos ares que vem do rio Ganga, que passa aqui do lado.
Voltando as aulas, minha energia criativa que estava adormecida parece que despertou depois de uma semana de cobaia de massagens e terapias no curso de Ayurveda meu e da Flora. Tanto esfregao que sacudiu a poeira (e como tinha poeira no corpo, chegava a dar pocinhas escuras de tanta poeira que tem nesse lugar, e olha que tomo banho "quase" todos os dias!

Cris