terça-feira, 8 de setembro de 2009
Encalços e percalços, parte dois
Mas, seja qual for o novo empreendimento, uma simples mudança no jardim pode proporcionar uma experiência de integração com a natureza e com a dinâmica do cosmos (ou o contrário - o afastamento, dependendo do empreendimento). Temos a oportunidade de observar e vivenciar “forças maiores” regendo a orquestra dos acontecimentos, colocando pessoas e criando situações que se encaixam como peças num quebra-cabeça. Seja “encurtando” o caminho e facilitando as coisas, ou mesmo aquelas situações aparentemente “negativas”,mas que surgem por uma razão maior, seja para desafiar nossa persistência ou pôr em provas nossa paciência. Acho que sempre o objetivo primeiro de toda empreitada é o aprendizado que se adquire durante o caminho, então, dentro dessa compreensão, “tudo é divino e maravilhoso”, como dizia Gal.
Falamos dos partos dos documentos, do dinheiro, mas não falamos DO parto, literal e propriamente dito. Tivemos um parto mesmo, de criança nascida, em meio a essa montoeira de funções administrativas, de repartições públicas, filas, protocolos, carimbos e assinaturas. Nosso menininho já nasceu com a mala feita e a passagem comprada. Aliás, é interessante falar do processo de compra dessa passagem.
Quando decidimos ir, o primeiro passo que demos foi tentar achar as passagens o mais barato possível. Pesquisa noite adentro na internet, rota e empresa mais viável (financeiramente, é claro), achamos! Primeira participação do cosmos, pois era inacreditável o preço comparando com o que já tínhamos encontrado. A reserva era mantida por apenas dois dias, hahahahha que engraçado! Como arrumar o dinheiro em dois dias? Não podíamos perder aquela oportunidade que poderia ser única. Pronto, sucumbimos na primeira dificuldade.
Que nada! Ritual de arrumação e limpeza do carro velho durante todo o dia e madrugada afora. Um verdadeiro desmanche: desmonta a porta, arruma a maçaneta, tira o banco e só aí é uma experiência arqueológica. Várias estórias reveladas embaixo daquele banco. O brinquedinho dos primeiros meses de Tatá, pedras carregadas de qualquer mato, restos de comida, as mil canetas perdidas e várias moedas para ajudar na causa. Finalização com direito a incenso e oração, para que a pessoa que adquirisse o carrinho mesmo que velhinho pudesse desfrutar de boas experiências dentro dele, como nós tivemos.
Dia seguinte na feira: doce inocência acreditar que alguém abordaria dois barbudos e cabeludos, vestidos apropriadamente para uma festa hippie dos anos 60. Ninguém! Um dia inteiro e nenhuma curiosidade para perguntar quanto custava o nosso idoso. No final do dia, derrotados é claro.
Não mesmo. Hora de ativar o plano B. Quem seria a pessoa escolhida pela nossa Fênix renascida das cinzas? É claro que só a mãe para pegar o rabo, ops, ou melhor, o “touro pelo rabo”!
Minha sogra tinha um carrinho, também velhinho, porém mais fácil e rápido de vender no mercado. Aceitou a demanda e, no dia seguinte, trocamos os “enguiços” e peregrinamos pelas tantas concessionárias de Belo Horizonte “À Procura de um Milagre”! E eis que a água se transformou em vinho.
Com o dinheiro na mão, o próximo impasse era a escolha do nome do neném. Com essa não contávamos! Tínhamos que comprar a passagem já com seu nominho, mas estávamos com apenas 3 meses de gravidez, não sabíamos o sexo, quer dizer, oficialmente pelas vias ultrasonográficas, porque intuitivamente já o chamávamos de menino. Mas, e se a intuição tivesse mal sintonizada? A nossa menininha ia chamar Ravi?
Como correr riscos já vem registrado nos “samskaras” dessa família, esse seria só mais um para incluir na nossa “cota de karmas”. Compramos as passagens e aí começa outra estória.
Cris
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
"Encalços e percalços"
Mas, voltando à bendita força, precisamos cavá-la muitas vezes nessa viagem. Situações complicadas, nas quais os ânimos deveriam se manter sob controle para tomarmos as decisões certas, para aguentarmos as turbulências das longas trajetórias, os saculejos sobre as pedras do caminho (rsrsrss... literalmente falando).
Para começar, Bombain. Quem conhece que não te compre. Portal de chegada. Mamãe urso e mais três pequeninos indefesos da prole. O mais confiante e seguro era o Ravi, o neném de três meses que não tinha idéia da metade da missa que estavam lhe enfiando goela
Voltando às nossas pelejas, estas começaram mesmo muito antes de botarmos os nossos pezinhos em Bombain. Sabe a mulher quando fica grávida pela primeira vez e se tivesse noção da dor do parto, talvez por medo teria evitado engravidar? Pois é, quando decidimos viajar, não tínhamos idéia da dor do parto, ou melhor, dos partos, pois foram mais de um.
Primeiro parto: documentos! Os meninos (aqui me refiro ao Rodrigo e ao Damião, seu irmão) eram indigentes. Simplesmente não existiam nos arquivos do sistema. O Rodrigo ainda tinha carteira de motorista, pelo menos. Mas só isso. Tive que promover o renascimento deles na sociedade. Falo de mim porquê fui eu mesmo que tive que administrar isso, pois como haveria de cobrar isso deles? Era como soltar dois neandertais na Avenida Paulista. Dois marmanjos sem documento e sem "identidade" própria ( isso seria uma ironia se não fosse verdade nesse caso, pois eles não tinham identidade mesmo, a famosa C.I. que até indigente tem. A Flora com 11 já tinha.)
Outro parto: dinheiro. Quem dera fosse fácil assim: resolvemos ir, tiramos o dinheiro da nossa rica poupança e pagamos as passagens. Ou ainda: nossos pais "bem -de-vida", resolveram acreditar na próspera carreira dos "malucos", e bancar nossa "pós-graduação" no exterior.
Bom, imprudência, maluquice, irresponsabilidade ou seja lá qual for o diagnóstico de nossa conduta, fato é que a resolução de irmos veio antes dos meios necessários para conseguirmos. Isso significa dizer que não tínhamos dinheiro suficiente nem para comprar as passagens, na verdade, nem para pagar toda a papelada que precisava, muito menos para nos manter lá por um período.
Tínhamos um carro velho e guerreiro, ou melhor seria dizer, uma carroça ( já famosa pelos mil enguiços) e muita vontade, quase uma certeza, insensata, baseada em coisa nenhuma palpável, a não ser no nosso próprio "achismo" de que deveríamos ir.
Se estava no nosso destino, escrito nas estrelas, ou qualquer coisa parecida que normalmente se diz quando falam de sonhos, não sei dizer. Mas com certeza o universo conspirou bastante para realizarmos. A favor e contra também!
Mas, o desenrolar dessa dinâmica de conspiração contra e a favor do universo vou deixar para contar depois pois esta postagem já está muito grande. Aliás, acabamos de resolver que vamos iniciar uma série de postagens só sobre os perrengues. Lembramos de vários que, como todo drama, possuem um alto potencial para ser engraçado... Agora, depois que já passou!
domingo, 23 de agosto de 2009
The nepali monk(ey)
"Fulano tem macaquinhos no sótão!" Acho que todo mundo já ouviu essa famosa expressão. Os macacos são popularmente relacionados aos miolos desaparafusados, à confusão e baderna mental. A sabedoria popular e as escrituras indianas se referem à mente (citta) como uma macaca agitada, pulando de galho em galho freneticamente.
Macacos nunca poderiam nos passar a imagem da equanimidade ou quietude, mas encontrei uma exceção no Swayambhunath temple, no nepal, curiosamente conhecido também como templo dos macacos. E como "o hábito faz o monge", acho que o macaco aprendeu a meditar, pois estava sentado e parado nessa posição durante muito tempo, como congelado. Ouso dizer que poucas pessoas podem ficar tão quietas num asana como este macaco, lembrando aqueles macacos brancos japoneses que ficam horas relaxando na água quente das termas naturais. Mas o macaco desta história não estava em nenhum ofurô natural para estar tão bem. Repare na profundidade de sua expressão, impassível como uma montanha.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
O macaco galanteador
E não é que o dito cujo sentou bem do meu lado, agarradinho no meu corpo, e lá ficou??? Não pude acreditar no que presenciava, sentia uma mescla de medo com satisfação, na expectativa de qualquer desfecho, trágico, cômico ou até mesmo romântico, nas perspectivas do macaco. E não poderia ter sido mais engraçado. O macaco "safado" (como disse o Rô), em uma atitude completamente inesperada, surpreendeu a todos, principalmente a mim, quando colocou seu braço sobre a minha perna e sua mão sobre a minha. Queria muito morrer de rir naquela hora, mas permaneci estática, paralisada, sem saber qual poderia ser o próximo passo dele. Não podia sair, porque ele poderia se sentir rejeitado, sei lá, e ficar zangado e querer me atacar. Também não podia corresponder ou ficar muito receptiva ao toque pois ele poderia querer me beijar, imagina isso?
Fiquei somente quieta, experienciando aquele momento. O que poderia estar passando pela cabeça daquele macaco naquela hora? Cheguei a especular isso enquanto estava sob "seu comando". Estava sendo aquilo uma espécie de encontro ou algo parecido? Eu era a macaca escolhida, ou somente sentou porque estava cansado e encontrou companhia de alguém que estava em seu caminho? Nunca vou saber.
Depois de algum tempo, não sei quanto, pois foi daqueles momentos em que perdemos a noção, ele simplesmente se levantou e saiu andando com seu passo tranquilo. E eu, sã e salva, pude rir demais daquela situação. Acariciada por um macaco indiano! E acho até que posso me sentir lisonjeada, pois não se tratava de um macaco qualquer, daqueles magrelos e arruaceiros que estávamos acostumados a encontrar. Era um macacão forte, robusto, com um ar sereno e uma postura de macaco vivido, experiente, caminhando sozinho, desprendido da vida do bando. Certamente um bom partido para as macaquinhas de Rishikesh.
Macacos
Macacos de poeira já voaram
Para quem não sabe, além das vacas e ratos que rodam pelas ruas imundas da índia, há também os espertos macacos que vivem em todos os lugares a espreita esperando um bobo passar com comida para eles CREU! Darem o bote. Pelo menos em Rishikesh, aonde fiquei, a maior concentração dos macacos amarelos e híper inteligentes se localiza na ponte laxmanjula. Lá é aonde todas as pessoas passam correndo para não serem roubadas. Quantas milhões de vezes não ouvimos: " muito cuidado ao andar na ponte, esconda as sacolas e não passe andando com comida" ou então " não se preocupe com os macacos brancos e sim com os amarelos de cara vermelha, eles são agressivos e podem te machucar". Para falar a verdade, nunca vi eles machucando ninguém, mas não descarto esta possibilidade, pois eram bem agressivos mesmo.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Nada no Lago

Não sei dizer o porquê, mas essa viagem à Índia e Nepal me remete a muitos sonhos de infância e princípios de juventude. Parece que muitas imagens já estavam programadas para acontecer. É como se a idéia estivesse escondida lá no fundo dos quintais da mente, e quando as cenas se desenrolam por aqui, é familiar como se eu estivesse vendo um filme embaçado. Mas não estou me referindo à lembranças de vidas passadas, que é um "lugar comum" nos relatos de experiências das pessoas que se interessam ou que vão à Índia. Na verdade, estou cansado desse papo de "acho que já vivi na Índia no passado", ou "já tive alguma encarnação na Índia". Esse tipo de especulação já é tão "batida" e repetida que às vezes dá até uma certa preguiça de conversar com as pessoas "místicas" que se interessam por Yoga e cultura indiana. Afinal, quem é que não reencarnou na Índia? A esmagadora maioria das pessoas que transitam no "mundo" do Yoga já. Eu mesmo conheço milhares de "Yoguis reencarnados".
Quando falo de imagens familiares, estou falando de algo que faz sentido para minha vida, e de minha família. Talvez sejam familiares porque na Índia e no Nepal, mais do que nunca, temos liberdade absoluta para sermos nós mesmos. Estando sem trabalho e sem obrigações que não sejam os deveres a que nos propomos, estamos livres de regras impostas pelos outros ou pelas situações e, sendo assim, ninguém nos coloca obrigações sem nossa vontade ou permissão.
Teve dias em que realmente me recusei a ser submetido a qualquer tipo de ordem ou regra, enquadrar-me em qualquer tipo de compromisso ou ficar preso em qualquer armadilha de horário ou tempo. Dia de subir montanha, dia de ficar no Ganga, de ficar com as crianças na praia de areia branca. E um desses inesquecíveis compromissos comigo ou conosco mesmo eram os maravilhosos entardeceres do lago Phewa no Nepal.
Quando pegávamos o bote, passávamos toda a tarde no barco, após o almoço até o anoitecer. Às vezes almoçávamos no próprio barco, levando lanche para um pic nic. Dias de ócio criativo, de ficar deitado olhando o formato das nuvens que às vezes aparecem nessa época como lençóis, que vão tingindo-se de cores à medida em que o sol vai mudando sua posição no céu. Dias de observar a revoada dos pássaros aquáticos. De ficar no meio do lago a deriva, já que o lago quase não tinha corrente e o seu ritmo também era preguiçoso.
Ravi sempre dormia entre as mantas e xales que levávamos pois, apesar do sol, ainda era bem frio e ficava gelado no final da tarde. Estávamos em pleno inverno do Nepal. E Damião virou o remador de todas as horas, pois pegou logo o jeito dos difíceis remos do bote nepalês, tão diferente das canoas e caiaques nacionais, ou pelo menos aos que estávamos acostumados a usar nas baías de Angra.
Uma vez aportamos no lado selvagem do lago e vimos uma manada de bois e búfalos, como também currais de pesca bem primitivos próximos à margem. Em outra oportunidade, a viola e a cantoria também fizeram parte da embarcação. Mas, basicamente, o melhor era mesmo ficar à toa, olhando para as nuvens.
O lago era o local onde digeríamos as experiências da viagem, onde conversávamos a respeito do povo, das diferenças culturais, do estrago que a vida moderna faz no mundo das pessoas e nas vilas. Mas, principalmente, era na placidez do lago que podíamos planejar com tranquilidade os próximos "saltos" e "vôos" e definir para onde iríamos a partir dali, já que sempre voltávamos para Pokhara após viajar para alguma vila ou cidade. Lá era nosso pouso, o porto seguro onde podíamos nos preparar e descansar antes de pegar novamente a estrada. E era no lago que decidíamos e calculávamos os prós e contras de cada aventura, os riscos e valores de cada loucura. Era lá que, renovados, sentíamos que poderíamos ir para qualquer lugar, pois nada nos limitava. Muito ímpeto para viajar e conhecer, crianças fortes que aguentavam o "tranco", e principalmente a união do grupo, onde todo mundo falava a mesma língua.
Dentro do barco, viajávamos em nossas especulações. Se iríamos para uma vila devotada à Deusa Kali, ou se íamos para um parque andar de elefantes e ver vida selvagem. Conhecer templos ou ir para as montanhas; peregrinar pelas rotas sagradas ou alugar uma casa nas vilas e passar um tempo vivendo como os aldeões. Lá escolhíamos qual seria a rota que poderia proporcionar mais conhecimentos e experiências para os adultos e crianças da trupe.
Mas o lago não era só um local de decisões e conversas. A natureza ao redor é maravilhosa, pois é cercado por montanhas cobertas de verde, e grande parte é quase selvagem e ainda não habitada pelos homens. A partir de dois longos canais ele é ligado a dois outros lagos menores, ainda mais selvagens. A margem que é circundanda pela cidade também é linda, pois o nepalês, bem mais esperto que o indiano, cuida para manter os jardins públicos ao redor limpos e bem bonitos.
Nunca posso esquecer que foi no lago que vimos os himalaias pela primeira vez de forma satisfatória. Na Índia e Nepal, durante o inverno, impera uma bruma constante no ar e, dependendo do horário, muitas vezes fica bem difícil de enxergar em maiores distâncias ou ter uma visão clara das montanhas. Quando estivemos pela primeira vez no meio do lago, tivemos a visão dos himalaias alaranjados pelo pôr do sol, atrás das montanhas verdes, e essa foi a primeira vez que tivemos um vislumbre decente pois, até então, só víamos a ponta do pico Machapucchare e pedaços insignificantes dos outros picos da cadeia. Depois até tivemos a oportunidade de visões magníficas das cadeias montanhosas, mas aquela imagem foi a primeira e, por isso, marcante na viagem.
O desejo de conhecer o lago Phewa foi certamente uma das maiores motivações para interromper os estudos na Índia e ir para o Nepal e também um dos motivos principais pelo qual preferi o Nepal à Índia, apesar de no Nepal não ter desfrutado de estudos formais.
Apesar de nosso carinho e veneração especial pelo rio Ganga, o Phewa Tal, antigo lago sagrado para os povos que viviam na região de Pokhara no passado, acabou assumindo ares de sacralidade para nós também , sobretudo o sagrado compromisso com a mente livre, leve e solta.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
"Deixa cair velho"
Mas quando o assunto é em relação aos seres humanos, no que subentende-se que a "racionalidade" está presente, estamos falando do intercâmbio de neuroses, fobias, caprichos e esquisitices dos mais variados níveis de criatividade e especificidade. A individualidade humana é um arcabouço de surpresas, uma verdadeira caixa de pandora.
Para quem está em busca de crescimento espiritual - e hoje em dia com esse modismo quem não está ? - a meu ver não há oportunidade melhor do que a convivência diária. O mau humor do marido, o adolescer do filho, a insatisfação do vizinho por "não sei o quê", que o faz descontar em tudo que é verde, nas pobrezinhas das árvores (não sobrou nenhuma!) e nos milhares de passarinhos que enjaula e ainda temos que escutar, calados (política da boa vizinhança), que adora os tais bichos.
Retiro espiritual para encontrar o Ser? Fala sério! Nesse sentido a Índia é um lugar fertilíssimo para uma "retirada espiritual". Talvez nenhum local da Terra tenha tantas oportunidades de investigação do comportamento humano. Uma simples encomenda de algum produto ou serviço pode se transformar em uma grande experiência psicológica e revelar inúmeras possibilidades do raciocínio humano em sua formas mais exóticas e inusitadas.
As relações comerciais na Índia são sempre ricas fontes de observação da atuação humana, principalmente no que ela tem de mais confusa, complexa e extravagante . Nunca sabemos até onde o indiano irá exercer sua "criatividade", e nem o que esperar de nossa reação. Qualquer coisa bizarra pode acontecer: você encomenda um pavão e eles te trazem um elefante, como se fosse a mesma coisa. Falam um preço e segundos depois o aumentam, e você pergunta o por quê, eles te respondem com um sorriso amarelo e uma balançadinha de cabeça (a tal balançadinha que em tese quer dizer sim, mas que pode ter qualquer ou nenhum significado: sim, não, não sei, talvez, não falo inglês ...) De repente, um funcionário da estação de trem cisma que seu visto não tem uma tarja dourada, e lhe impede de comprar o ticket, sem se dar conta do quanto sua implicância injustificada poderá complicar seus planos e compromissos.
Como realmente QUALQUER COISA pode acontecer em se tratando do "modus operandi" da mente do indiano, podemos nessa hora nos defrontar com os mais recônditos e obscuros escaninhos de nossa personalidade, revelando nossas faces mais sombrias ou ainda desenvolvendo habilidades especiais - até então desconhecidas ou simplesmente não utilizadas devido à falta de situações oportunas - tipo anular totalmente as expectativas e aceitar qualquer resultado; paciência e tolerância em grau máximo; persistência quase heróica para não "chutar o pau da barraca" de vez.
Bom, acho que não há dúvidas de que as relações inter-pessoais são ricas fontes de conhecimento, sobretudo o auto-conhecimento. Muito mais eficaz que muitos "workshops" que estão à disposição por aí. E ainda é gratuito, ou melhor, depende da atenção do praticante, o que infelizmente não é pouca coisa em se tratando de uma sociedade altamente automatizada como a nossa. O tal "botão" do piloto automático está sempre acionado (veja o filme Click).
Estamos ainda nos pródomos de um convívio humano mais sofisticado em termos de sentimento. Paradoxalmente, quando digo sofisticado, estou falando de simplicidade, ao contrário do que podem pensar muitos. Relações mais verdadeiras e profundas implicam em reduzir as complicações, os subterfúgios que nos afastam daquilo que é real... ("A verdade está na caspa e não no shampoo..." como diz uma canção); destruir os muros altos das convenções, abrir mão das máscaras, hoje ainda mais reforçadas na era da eletrônica, pois agora temos as máscaras "cybernéticas" ("A eletrônica está substituindo o coração" - Baianos e os Novos Caetanos); quebrar as regras e extinguir os rótulos de etiqueta social e "espiritual", para ser apenas um alguém relacionando-se com outro alguém.
Fato é que até o Vedanta - filosofia que estudo, admiro e com a qual afinizo, diga-se de passagem, está sendo utilizada como subterfúgio espiritualmente aceito e louvado para "fugir da luta", do "bom combate". Confesso que quando encontro aquele olhar vazio, do tipo "não sou mais deste mundo", aquele tom forçosamente equânime na voz, e uma atitude blazê de quem pensa estar se relacionando através do "Ser", como Ser e com o Ser - mas que na verdade não compreendeu bulhufas a respeito de ser nada - nestas horas fica difícil não apertar o botãozinho do piloto automático a ter que escutar as pérolas do vedanta sendo porcamente "parafraseadas".
Voltando aos relacionamentos, quero dizer que mesmo com todas as dificuldades e percalços, são preciosos e inesquecíveis os momentos em que relaxamos e deixamos cair as armaduras. Quando nos dispomos a ser sinceros com nossos sentimentos, inclusive com o nosso medo, sem tentar camuflá-lo com recursos de linguagem ou fugir pela tangente. Quando experimentamos botar o coração na cavalaria de frente e desvendar o tal do "sofrimento", que muitas vezes vem com o próprio medo de sofrer. ("O medo do sofrimento é o próprio sofrimento").
Deixamos de ficar confinados às nossas formas e "fôrmas" de concreto mentais, abrindo mão do próprio conforto em prol da experiência real da vida, pois, dentro dessa prisão de segurança, seguimos "morrendo" ao não aproveitar as oportunidades de melhores encontros, de momentos vivos, de carne, osso, coração, e do Ser também, por que não?
Se pudéssemos por vezes agir nos relacionamentos, tal qual as crianças, que brincam juntas sem perguntar nomes, sobrenomes, títulos e graduações, pois nada disso é útil e importa à brincadeira. Se déssemos mais valor aos momentos divertidos como elas dão, e menos ao que chamamos de "responsabilidades".... se pudéssemos ser menos "prudentes" e mais autênticos... menos sisudos e mais relaxados... se conseguíssemos expôr nossas "pirraças", ao invés de guardá-las... se fôssemos menos preocupados com nossa imagem e pudéssemos dançar quando sentíssemos vontade, ou usar livremente a espontaneidade sem especulações sobre a opinião alheia.
Conseguiríamos transformar momentos “corriqueiros” em momentos especiais. E assim "simplificar" o enfoque dos olhos para enxergar em "pequenas" coisas, oportunidades de uma vida feliz.
"A morte... a falta de sorte. Eu tô vivo, Paulinho. Vivo sem norte, vivo sem sorte, eu vivo. Aí a gente encontra um cabra na rua e pergunta: tudo bem? E ele diz, tudo bem. Não é um barato Paulinho? É um barato." ( os mesmos Baianos e Novos Caetanos)
Cris
P.S: Apesar do título ser uma expressão usada nos anos 60, aqui me refiro a uma fala do desenho animado Mógli de Walt Disney, quando Rei Louie, o líder dos macacos arruaceiros, solta a frase para o urso Balu, um personagem desencanado que, pela sua filosofia de vida, tornou-se um dos nossos ídolos. Em uma de suas cenas geniais, ele se descontrola com o balanço da música do "inimigo" e, ao invés de lutar, ele dança com o rei dos macacos.
sábado, 18 de julho de 2009
A evolução dos bichos, o retrocesso do homem

terça-feira, 14 de julho de 2009
New indian way of life

Mas as pessoas, mesmo algumas que já moraram na Índia , muitas vezes não refletem à respeito de como está hoje em dia o desenvolvimento da espiritualidade indiana.
Sim, ainda existe uma tradição religiosa na Índia. Aglutinada nos Ashrams -me refiro aos verdadeiros e não às "pousadas" que mantém esta denominação para garantir seu quinhão do governo ou ganhar mais uns tostões dos turistas - demonstrada nos rituais, pujas, aratis e em outras tantas manifestações, que às vezes mais me parecem culturais do que essencialmente "espirituais". Se são meramente "mecânicas" ou imbuídas de um sentimento verdadeiro de religiosidade, não posso precipitar-me em dizer - fato é que já vi um brâmane interrompendo um puja que estava conduzindo para atender ao celular! Mas isto é apenas um fato, não suficiente para criar uma teoria.
Cris
domingo, 5 de julho de 2009
Pela janela do trem
Há muito tempo que eu não andava de trem. A paisagem comum na Índia é monótona e não sei dizer muito bem se é porque o tempo parece parar ou por serem quilômetros e mais quilômetros de planícies, pastos e plantações, e por vezes terras áridas como os cerrados e desertos. Quem é ansioso nunca poderia andar de trens comuns por aqui . No Nepal andávamos sempre de ônibus, e lá as estradas são sinuosas com paisagens cheias de montanhas. Além do fato de você poder viajar sobre o teto, o que muda a noção de tempo e a perspectiva de percepção da viagem, já que é bem mais emocionante.
Fico olhando pela janela estes lugares que ninguém quer visitar e sinto constante vontade de descer do trem, caminhar pela paisagem bucólica, descansar debaixo da sombra de alguma árvore.
Poderia ficar dias nesses lugares que não interessam a ninguém. Fazer pic-nic com as crianças, brincar de subir nas poucas árvores, brincar de esconder nas fileiras das plantações.
Dormir ao relento em lugares assim não tem coisa melhor. Nada para perturbar o silêncio que reina de noite e de dia.
Penso que essas "terras de ninguém", são o extremo oposto dos Taj Mahals e "praias douradas de Goa". Sábia decisão a de não ir conhecer esses lugares. Provavelmente tirariam mais a minha paciência, com seu turbilhão humano e futilidades turísticas, do que a monotonia do trem.
Triste pensar que ninguém vê beleza nestes lugares singelos, mas ao mesmo tempo é bom pensar que tenho essa imensidão "só para mim", e se eu quisesse mesmo descer teria esse monte de possibilidades de desfrute para no máximo eu e minha família. Falo isso porque tenho certeza que as raras pessoas que vivem no local também não devem achar graça nenhuma. Mas para mim essa paisagem aparentemente sem graça poderia se transformar numa espécie de éden particular, e eu, Adão com sua Eva e um bando de filhos para povoar o paraíso que só eu acho graça.
terça-feira, 30 de junho de 2009
Sapera, o "encantador" homem das serpentes
Na verdade, o ato de "encantar" serpentes consiste em capturar a atenção da cobra através do movimento. Como o animal é surdo, só pode perceber a vibração do som. Já li em algum lugar, que eles passam urina de rato na ponta das flautas, para atrair o olfato da serpente e mantê-la em alerta.
O fato é que o homem fazia uma "dança" muito louca com o corpo, agachado na posição de cócoras enquanto tocava a flauta.
Quem quase entrou para a família também foi o Damião, que andou se engraçando pela filha mais velha de Sapera. O pior é que surgiu mesmo um clima romântico, aparentemente avalisado pelo próprio pai, que estava a fim de casar a filha logo. Mas acabou que a coisa não foi para a frente, damião não ficou na Índia, não trouxe a moça e tudo ficou por isso mesmo, no plano platônico. Ainda bem, já pensou ter um sogro encantador de serpentes? Se você aprontar alguma, pode acordar com uma serpente na cama...
Infelizmente a profissão de encantador de serpentes é algo que vai se tornando cada vez mais rara, e não faz a cabeça de nenhum jovem indiano. A maldita globalização vai mandar essas figuras para algum museu do esquecimento e no futuro as pessoas só vão saber o que é isso através do google ou documentários.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
E por falar em saudade...

Estamos sempre com saudade de alguma coisa...

quarta-feira, 17 de junho de 2009
I know It´s only rock ´n roll
Que emoção que foi quando avistamos aquela figurinha de meio metro de altura, rebolando mais que o Ney Matogrosso, com trejeitos e bocas do líder secular dos Stones. Descobrimos o Mick Jagger nepalês, em carne e osso. Tio Mick andou aprontando as suas lá pelas bandas do himalaya. Tenho certeza, esse molequinho só pode ser filho dele. Infelizmente, e como sempre, estávamos despreparados para filmar ele dançando e piscando com suas caretas fantásticas, uma pena, pois o negócio mesmo era o movimento, ele era puro movimento. Antes da dança, ele fazia um show de asanas ( tudo bem pessoal, sem mau humor, eu sei que vivo falando mal disso) de deixar qualquer um torto só de ver. Tenho certeza que ele tem sangue de minhoca misturado com o do Mick.
domingo, 7 de junho de 2009
Os mergulhos no Ganga

Uma curiosidade que me assombrava... qual a sensação de um mergulho no Ganga?
Até que chega um dia, depois de muitos mergulhos, o frio ainda existe mas já não é algo relevante, e acontece só nos primeiros instantes . E a partir daí começamos a curtir de verdade, sem esforço, passando a explorar mais sensações... aumentando as experiências na água, arriscando práticas inusitadas.
O vício do Ganga! Todos os dias tínhamos que tomar nossa dose diária de Ganga. Não fazíamos como os hindus, dando os três ou sete mergulhinhos sequenciais, mas como autênticos mineiros nos esbaldando na "praia". Ensaios de natação, travessuras até as "ilhas" de pedras, as chatíssimas mas inevitáveis brincadeiras de empurrar na água, jogar água fria, brincadeiras com a areia e até mesmo "cerimônias religiosas" fizemos, ao nosso jeito, sem "ritualísticas e retorísticas", sem formalidades e convenções...
O "batismo" do pequeno Ravi no colo de "Padim Damião", com uma oração curta, simples e sincera... o "casamento" de Tarzan e Jane (depois falo porquê Tarzan), orando e celebrando nossa união em mergulhos de limpeza e fé... até a cerimônia de jogar o dentinho de leite da Florinha com pedidos e tudo, fizemos no Ganga, além de outras vivências pagãs...
"Nossa", "mágico", "espiritual"... o mergulho no Ganga é tudo isso mesmo e muito mais.
Infelizmente está cada vez mais sujo, e não sei até quando ele vai sobreviver...
O fato é que essa "moça", mesmo sendo muito fria, deixou um calor eterno em nossos corações, na forma de muitas recordações.
Cris
O Ganga
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Dom Quixote contra os moinhos de vento

Algumas dificuldades são realmente difíceis de transpor, como dobrar os ossos, atravessar paredes e vencer a gravidade. Mas até mesmo isso pode-se dar um jeitinho.
Outras situações nos parecem difíceis. Algumas distâncias nos parecem grandes, algumas montanhas parecem inalcançáveis, alguns objetivos impossíveis. Até o primeiro passo...
A partir dele, se desistimos nos primeiros obstáculos, se não levantamos nos primeiros tropeços, temos a ilusão de que nossos receios se concretizaram. “Eu sabia que isso ia dar errado”, “ Bem que me avisaram”.
É preciso ter pulso firme para não sucumbir aos primeiros fracassos e não encontrar mil e uma justificativas “prudentes” para desistir e não ceder a tentação de se entregar a um cômodo “entreguismo” e literalmente entregar o ouro para o bandido, sem uma luta das boas. Tendemos a sempre fugir das batalhas necessárias. Assim como Arjuna quis fazer fugindo à guerra que iria restabelecer a justiça. Todas as justificativas que ele encontrou eram válidas, “reais”, “justas”. Mas negavam o seu dever maior.
“ É preciso estar atento e forte” para não temer ou não deixar que o medo paralise os nervos, a ação, o pensamento e a intenção.
Mas creio que não existe satisfação mais poderosa do que a vitória após a persistência.
Cris e Rô
"It's all in your mind" *
Reais até o primeiro passo.
A partir daí percebemos que é tudo uma questão de ponto de vista....
De percepção.
Às vezes a distância me parece grande....
Cris
* George Harrison no desenho Yellow submarine
domingo, 31 de maio de 2009
Ironias da vida - Trocando de papéis
A mãe certa hora perguntou o nome do meu filho e se surpreendeu quando eu disse: Ravi Chandra: " Indian name?" Como dizem sempre os indianos ao fazer a mesma pergunta. Quando perguntei os nomes das crianças, achei graça quando ela me disse : "Lucky and Happy!" American name?", eu disse..
sexta-feira, 29 de maio de 2009
O portal de entrada no Nepal
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Lua cheia em Rishikesh
Amanhecer no Ganga, visto das montanhas
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Incredible India

terça-feira, 26 de maio de 2009
" O que seria dos Himalayas sem o sol?"
E o que seria dos dois sem a nossa presença os percebendo e admirando?
Em uma ousada passagem de Gitanjali, o canto de oferenda, o poeta Tagore diz: "Ó Senhor, o que seria de ti sem o meu amor". Assim como o criador necessita do amor da criatura e de sua admiração e fidelidade, o criador e a criatura necessitam da experiência da consciência.
Necessitam do observador, "daquele que vê", o "vidente" - no sentido de alguém que vê.
Necessita de uma consciência que testemunha (sakshi) ou quer dizer, a existência que tem consciência (Sat-chita) de si mesmo, que se compreende como sendo o Ser, e não os "objetos" que o circundam com seu "brilho" próprio.
Quando digo objetos, me refiro ao sentido que Patanjali dá ao termo vishva, que significa mundo, ou universo e tudo que nele está contido, e que na concepção do Yoga clássico é referente a tudo aquilo que não é este Ser, essa "centelha de consciência" que somos.
Quando escrevo "brilho", quero me referir à fascinação, ao colorido, ao efeito que estes exercem sobre nós. Até mesmo a mente e os pensamentos fariam parte desse "mundo" que nos cerca, mas que verdadeiramente, "cerca" o Ser. Ou melhor seria dizer que "encobre", "superimpõe", como propõe o vedanta.
O ser seria um viajante carregando uma enorme quantidade de coisas. Alguns viajam levando o estritamente necessário, outros carregam uma enorme quantidade de tralha, coisas desnecessárias e supérfluas. Alguns levam sua existencia de forma simples, seu corpo, mente, sua expressão energética e vão anulando karmas, livrando-se de resultados indesejáveis de ações errôneas pregressas. Outros vão acumulando uma bagulhada lascada, carros, casas, terras, móveis, riquezas, posses e muita carga, seus karmas que nada mais são que suas ações e respectivos resultados e principalmente mágoas, rancores, manias, neuroses e traumas. Preocupações, problemas e irritações, uma carga muito pesada para se carregar ao longo da vida, geralmente disfarçada sob o nome de responsabilidade. E como é pesada a tal mala da responsabilidade. Como colocamos tralha nas costas para carregar.
O nome disso tudo em sânscrito é upadhi, e "superimposição" seria uma das possíveis e prováveis traduções. Tal qual um caracol, colocamos "nossa casa", nossa bagagem nas costas e saímos carregando pelo mundo. Um dia, todos nós teremos que ir nos livrando de tudo que pesa, de tudo que carregamos, para aos poucos ir nos transformando novamente naquele Ser simples, e ao mesmo tempo completo, ou seja, a nossa essência. É nossa escolha optar por ter que se livrar um dia de uma carga muito pesada, estando exaustos pela jornada, ou simplesmente tirar das costas uma bagagem mais simples e simplesmente ser feliz.
" As asas de ouro e o sentimento de papelão"
Você se engana
É tão difícil ver na frente
com seu medo.
Durante o dia,
se você deita...
a cama feita
o inimigo espreita.
Você estremece...
mas fica mudo de horror
e treme de pavor..
Durante a noite é diferente
tá tudo escuro.
Se você pensa no futuro,
cai no sono.
E nos seus sonhos, subtamente,
a cama feita, o inimigo espreita.
Você estremece...
mas fica mudo de horror
e treme, de pavor.
No outro dia o mesmo medo
a mesma hora.
A solidão vem desde cedo
lhe devora
Não adianta, ela não passa
Qualquer que seja a reza que você faça
Porque no fundo
você não pode suportar
a hora de arriscar!"
" Eu tenho asas, posso voar
posso voar bem perto, bem lá no céu
posso no ar morar
a voar, a voar."
*Obs: Quando a Flora chegou na Índia, teve uma crise de pânico e desespero e não queria nem descer do avião. Depois quando chegou em Rishikesh não queria voltar para o Brasil de jeito nenhum. As duas músicas que ela escolheu explicitam bem o antes e o depois, as duas situações na cabeça de uma menina senível de 11 anos. Ela colocou primeiramente a letra da música "Corra o risco" do primeiro lp da Olivia Biyngton de 1978, antes dela virar mais uma cantora de mpb chata e sem sal e a outra música é do genial Marcos Valle, na fase que ele já tinha rompido com a turma da bossa nova, em 1974. Duas músicas que não saiam do walk-man dela. Quem curtir música antiga pode procurar nos blogs da vida.
Cris
A serpente de ouro
"O crepúsculo é a fresta entre os dois mundos", disse certa vez o velho brujo Don Juan, o índio Yaqui que ensinou Castañeda. Lembrei-me disso quando atrás de mim já crescia a noite e à frente, o poderoso astro-rei ia mergulhando na terra, atravessando a densa bruma, cedendo lugar à lua cheia e prateada que vinha atrás. Sol e Lua, Shiva e Shakti, consciência e força-energia.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
"Pe em Deus e fe na tabua"
De novo estamos de pe na estrada, deixando o nosso porto seguro em Rishikesh, para nos defrontar com o desconhecido, himalayas, trilhas com neve, gente e habitos diferentes, onibus com motoristas loucos, viemos para o Nepal para descansar dos estudos na India. Buscar novas aquisicoes, sair um pouco do Yoga hindu e buscar o Yoga budista, a cultura tibetana e das montanhas. Um sonho antigo tal qual a viagem para a India, mas como todo sonho, sentimos aquele medo antes da concretizacao, aquele medo de morrer no mar quando ja estamos vendo a praia. Refiz as malas da aflicao horas antes de seguir viagem, o que nos esperava? Atravessar fronteiras de um pais por terra e sempre complexo. Ja estavamos acostumados e instalados na India, com uma rotina organizada, saudavel para as criancas e "segura" para os meus padroes. O Nepal era uma incognita. Portanto, nova confrontacao comigo mesma para superar ansiedades, medos e expectativas. Quando era sozinha, viajava sem problema, me jogava nas situacoes ate imprudentemente, sem medo dos maus resultados... mas agora, tres criancas e tudo que isso implica, alimentacao, saude, agua potavel, educacao, diversao, exemplos para se dar...muda tudo quando nossas acoes nao trazem resultados apenas para nos. Mas, what to do? Se e necessario prosseguir, " Fe em Deus e pe na tabua". E estamos aqui no Nepal, ainda bem...
Cris
Vai com Deus
Muitas pessoas acham que estao com Deus, mas na verdade estao com seus medos, suas angustias, suas acomodacoes, seus condicionamentos. Quem esta com Deus se reconhece no olhar curioso, questionador, desejoso de conhecer e desbravar os mais reconditos lugares... especialmente em si mesmo. E, nessa aventura, reconhecer o si mesmo nas pedras que habitam o rio que corre do outro lado do planeta.. no sorriso e nas lagrimas das pessoas que se banham e rezam juntas neste rio. Estar com Deus `e perceber nossas barreiras e desmistifica-las. ("A fe que remove montanhas"...) O viajante muitas vezes ainda sente medo... mas ele nao deixa de seguir em frente. Quando percebe em si a impotencia, reconhece em Deus, a onipresenca... e prossegue com Ele.
Cris