sábado, 10 de outubro de 2009

Descobri o caminho da salvação

Sempre fui fanático por cinema, e ao longo da vida posso dizer que apreciei variadas formas dessa arte , de maneira livre e democrática e sem muitos preconceitos. Já chorei de rir e de emoção com o cinema italiano antigo e moderno, curti sem companhia – pois é difícil arrumar interessados - os filmes da nouvelle vague francesa, tive meu deslumbramento com o cinema novo, e claro, nutri-me com os fimes contraculturais, os surrealistas de Buñuel e com o cinema marginal “udigrúdi” (underground brasileiro) dos anos setenta.

Nunca tive um gosto “purista” ou “elitista”, pois creio que sempre dá para tirar alguma coisa dos filmes, salvo exceções. E sendo assim, também me diverti com a “tosqueira” do cinema espanhol - com filmes barangos, dramáticos, passionais e viscerais de diretores como Bigas Luna e Almodóvar – com algumas pornochanchadas cômicas nacionais realmente engraçadas (de tão bizarras) e com comédias americanas que fariam os intelectualóides ficarem de cabelo em pé. Singrei os "sete mares"em busca de milhares de filmes, de Hitchcock à Herzog, de Kurosawa ao Woody Allen, de Bertolucci e Tornatore passando por Milos Forman, Fellini, Truffaut e Polanski. Impossível é desfilar aqui toda a galeria dos meus heróis, já que tive fases de fascinação por “trocentos” diretores diferentes, onde adorava estudar as mentes loucas, criativas e geniais de cada um. Certamente passei muito mais tempo vendo filmes e documentários – apesar de abominar e não ter canais de tv – do que meditando, praticando ou estudando. De forma que nesse “balaio” já passaram fimes de todos os tipos, do drama e romance à comédia e suspense, da ficção inteligente ao terror psicológico. Dos épicos aos filmes de guerra com caráter humano e educativo. Só não suporto os filmes ridículos americanóides de explosão e tiros, todos aqueles com títulos terminados em “al” como “fatal”, “final”, “total”. Tenho como regra não assistir filmes que tenham essas palavras no título. Ficções com a estética de filmes como Apolo 13, Indepedence day ou mesmo o aclamado Matrix me dão urticárias, não assisto nem se for para ganhar dinheiro. Mas sem implicâncias passeei por todas as formas, neo-realismo italiano, expressionismo alemão, filmes holandeses, cinema sueco (ingmar bergman e outros, não vi pornô sueco), cinema mexicano, cinema do oriente médio – especialmente o iraniano. Acho fantástico o novo cinema brasileiro e novo asiático: tailandês, japonês, vietnamita, coreano, chinês – o melhor do continente – outro dia vi um filme do Quirguistão e um do Butão maravilhosos. Como vêem, vejo todo tipo, mas a essa altura os leitores devem estar se perguntando: e o cinema indiano? Alguns devem pensar que o autor do texto esqueceu de mencionar o país que tem a maior produção cinematográfica do mundo, superando os Eua, e que é também a fonte inspiradora desse virtual diário informal de viagens. Não, não esqueci, pois é sobre isso mesmo que resolvi escrever. Citando de forma exaustiva as minhas aventuras cinematográficas, para que ninguém achasse que minha opinião era preconceituosa, ou fruto de uma mente fechada para novas formas de cinema ou expressões culturais diferentes.

Propositadamente não citei o cinema indiano no meio dessas listas, pois não considero os filmes indianos como uma forma de cinema, tal qual as outras, mas como um autêntico caminho de libertação espiritual. Isso mesmo, AUTÊNTICO INSTRUMENTO DE MOKSHA. Mas somente para os heróis ou loucos que conseguirem assistir mais de vinte minutos de um “clássico” de Bollywood – a "hollywood" indiana de Bombaim - sem sofrer danos cerebrais irreversíveis.

Os filmes indianos são como um curto circuito nos sentidos, no bom gosto, no bom senso e no bom humor. São capazes de provocar um estrago na mente de uma pessoa sensata, tal qual um desastroso e despreparado despertar de kundalini, a energia primal, numa pessoa que ainda não está pronta. Já entendi porque a Índia tem tantos iluminados: colocando as massas em peso para assistir ao cinema! Grande parte não resiste ao impacto e sai das salas de cinema como se tivesse passado por uma lobotomia – por isso o indiano parece ser tão abobado (quem pensava que a causa era a desnutrição crônica errou, isso é causado pelos filmes) – e a diminuta parte que conscientemente consegue assistir até o fim do filme com paciência, determinação, boa -vontade e ainda assim resistir até o final da exibição, preservando a lucidez, atinge o prêmio máximo, que pelas bandas de lá é chamada por muitos nomes:nirvana, samadhi, moksha, ananda, kaivalya ou o paraíso, se preferir. Pois cá para nós, haja peito e capacidade para aturar algo tão ruim como aqueles filmes, haja resignação.

Creio fielmente que o cinema é a única das artes que não está em franca decadência, e que continua evoluindo positivamente, e isso acontece desde os movimentos em países com poucos recursos financeiros, até o cinema “blockbuster” dos Eua. De forma geral e ampla, acho que o cinema de todos os lados do mundo só faz melhorar e evoluir. O cinema indiano é a máxima exceção da regra, pois é abominável. Eu poderia passar o resto do texto citando adjetivos pejorativos, mas vamos direto ao ponto, às características mais marcantes: cafona e debilóide! Isso define toda, ou quase toda a produção daquele país.

Reflitam por alguns instantes, fechem os olhos, respirem fundo e pensem numa coisa bem brega, mas bem brega mesmo, pensem na coisa mais cafona e de mau gosto que você já viu na vida – Falcão e latino, os cantores? Roberto Carlos? Reginaldo Rossi? Wando, o obsceno? Não adianta, isso que você pensou, seja lá o que for, já perdeu feio dos filmes indianos em qualquer escala de comparação. Alguns vão pensar em baranguices típicas como “bolerões acougueiros”, duplas sertanejas, literatura barata de romance vendida em bancas - tipo Sabrina ou Júlia – ou então vão lembrar da secretária doméstica suspirando ao ouvir aquele embalo quente no radinho de pilha, lembrando do amado na gafieira do domingo. (Falando nisso tem ainda) Domingão do Faustão, Gugu liberato, Sílvio Santos, novelas mexicanas, decoração de casa de avó. Podem ainda lembrar da breguice da juventude: Menudos, Dominó, Polegar, New kids on the block e agora ainda tem um tal de KLB,mas mesmo assim,de nada vai adiantar, por mais que você pense, por mais que se esforce, nunca vai conseguir imaginar algo mais barango do que os filmes indianos.

Se você vê a cara dos galãs destes filmes, principalmente no momento em que lançam aquele inconfundível olhar para as mocinhas e começam aquelas danças insuportáveis, juro que vão me entender. Só de pensar nas danças ARRGHH! - pausa para um ataque de fúria – chego a perder o controle. E o pior você não acredita, pois aparentemente todo o enredo (se assim pudermos chamar) se desenrola como um pretexto para essas danças. A luta entre o bem e o mal, mocinho e vilão, o romance entre galã e mocinha, tudo acaba em dança, onde todos com jeito de zumbis-robôs e cara de retardados se entregam ao ritmo daquelas dancinhas saltitantes e cheias de mãozinhas, sorrisos e olhares. Um pastiche surrupiado dos mudras e drishtis das riquíssimas danças tradicionais indianas.

As histórias ( se assim pudermos chamar ) são sempre as mesmas, simplórias, sem nexo, onde um imbecil bonzinho luta com outro imbecil mauzinho por uma moça abobada (parece o desenho do Popeye).

O homem que é considerado o maior ator de todos os tempos na Índia – não me recordo o nome – é o maior canastrão que já vi, uma mistura de Tarcísio Meira, Francisco Cuoco e Toni Ramos – SOCORRO! E ele é uma espécie de Deus por lá, uma unanimidade. É incrível como todo o país em massa, todas as classes assistem cinema, e talvez seja essa lavagem cerebral a culpada de todos os problemas da Índia, ao invés da superpopulação ou de séculos de exploração imperialista. Onde houverem jovens juntos, pode esperar, vai haver um maldito celular – ainda bem que não são aqueles aparelhos de som enormes e insuportavelmente alto dos barangos daqui – tocando os hits dos filmes e vários rapazes dançando alegremente, se exibindo como numa competição, para todo mundo ver, mesmo quem não queira. E dá-lhe Michael Jackson de Mumbai, e dá-lhe Rick Martin de Kolkata, e dá-lhe Sidney magal de Rishikesh. Se você for a Índia, inevitavelmente vai ver pelos próprios olhos.

Sendo assim, você que tem aspirações espirituais e pensa em ir para Índia em busca de um guru, ou de retiro espiritual, esqueça essa idéia, ao invés disso faça uma excursão pelos estúdios de Bollywood e depois se interne numa mostra de filmes deste tipo de cinema. Se você resistir aos filmes e conseguir sair ileso, o mundo ocidental vai ganhar mais um mestre iluminado.

Agora deixa eu parar de escrever e lembrar, antes que eu tenha um acidente cerebral vascular.
O panteão dos Deuses de Bollywood

PS1: Não tentei e não consegui assistir mais que dez minutos, mas uma vez tive que ver umas cenas constrangido por estar na casa de pessoas indianas. O pior, é que por mais que os filmes pareçam uma comédia pastelão non-sense caricata de quinta categoria, você não pode rir, mesmo que a família inteira esteja hipnotizada e balançando a cabeça sem poderem se controlar.

P.S2: É desesperador pensar que são gastos milhões – muitos mesmo - de dólares com esses filmes num país que é miserável, sendo que em países ao redor – como o Irã e Afeganistão por exemplo – conseguem produzir filmes sensíveis, belos e criativos com míseros dólares. E olha que a Índia é uma terra de artistas natos, de gente talentosa, onde a dança e a expressão teatral é milenar e uma arte bela e rica. Mas é uma questão de total falta de noção mesmo, os filmes do mundo inteiro chegam por lá, mas eles são ufanistas em relação à isso e preferem sempre o produto da casa.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Um elefante acomoda muita gente


Visitamos um parque nacional no Nepal, onde era possível fazer um passeio de elefante. O maior mamífero que até então tínhamos tido oportunidade de contato tão próximo eram as vaquinhas da Índia.

Logo quando chegamos à cidadezinha, a primeira visão de um elefante andando na estrada bem ao lado do nosso veículo foi incrível. Depois virou uma cena comum de se ver, mas não menos empolgante.

Confesso que a idéia desse passeio gerou em mim um desconforto interno diante da hipótese de estar coadunando ou incentivando a exploração do trabalho do bicho, ao poder “alugar” e me apropriar de seu lombo por algumas horas.
Acho que não devemos ser tendenciosos ao julgar situações, buscando nelas álibis que nos confortem ou confirmem nossas pré-concepções. Nem devemos ser rígidos em convicções que comprometam a percepção e análise de cada caso em separado.

No nosso caso, sem querer advogar em prol dos elefantes ou a favor do nosso passeio, o que pude presenciar em poucos dias de permanência naquela cidadezinha, foi uma relação aparentemente amistosa e harmônica entre os homens e os elefantes, a natureza e o "progresso". Talvez pelo fato deste último, o progresso, estar vinculado à utilização da natureza, seria então inteligente manter a preservação como atrativo do turismo.

Os elefantes são a principal fonte de renda da cidade, estão por toda a parte e, posso estar enganada, mas no pouco que pude observar, eles não me pareciam tristes. Além de usufruírem de certa liberdade (menor que nas selvas, óbvio), pareciam receber bons tratos pelos humanos. Todos os dias, ao entardecer, eram levados ao rio onde eram banhados e acariciados com esfregões por seus “donos”. Esse é um momento ímpar de se ver e participar, pois os turistas que estiverem por perto são convidados a participar do banho, com direito a nadar com os elefantes e receber jatos de água na cara, direto de sua tromba. Eles são muito brincalhões e uma de suas travessuras é sacudir o corpo de um lado para outro até conseguirem nos derrubar na água.






Essa experiência de tomar banho com os elefantes foi certamente inesquecível, para mim e para as crianças. E mais legal do que o passeio pela “floresta” em cima deles (e ainda foi de graça!). Primeiro que floresta mesmo, não havia. Uma vegetação bem pobre, menos verde do que o quintal aqui do sítio ( a vegetação chamada sal forest parece uma savana, só que mais verde). E olha que tivemos a “sorte” de um condutor audacioso que saia da rota comum dos demais elefantes, adentrando em vias com vegetação mais densa e “fechada”. Falamos com a Tatá que ele era o primo do Mógli, pois lembrava-o na “intimidade” que demonstrava no trato com a natureza. Em nenhum momento ele utilizou de violência com o elefante, ao contrário, manteve sempre uma postura de respeito e carinho para com ele, inclusive permitindo que permanecesse parado por alguns instantes para se alimentar. Ao contrário de outro condutor, um senhor de idade, que parecia ter só a experiência mesmo, oca de aprendizado, pois chegou a nos irritar a quantidade de açoites que direcionou ao bichinho. Deveria engolir o orgulho e aprender o ofício com seu colega mais jovem...




Mas, voltando ao passeio, fomos com as expectativas adquiridas das experiências de amigos que já tinham feito a travessia e todos com “sorte” de avistar rinocerontes aos montes (mamãe e filhote!), grupos de veados e bandos de pavões. Nós, no entanto, tivemos que nos contentar com um rinocerontezinho solitário descansando na lama, um pavãozinho distante e uma “passada” de veados tão rápida que quase só percebemos pelo rastro das folhas balançando. O engraçado é que já tínhamos presenciado veados e pavões circulando soltos pelas matas ao redor de Rishikesh. E mais engraçado foi quando o nosso guia gritou :”monkey”, apontando para um macaquinho lá longe, camuflado entre as folhas de uma árvore. Claro que não devemos nunca perder a habilidade de enxergar o valor e a beleza de cada visão, ainda que seja uma visão "cotidiana". Mas foi engraçada a perspectiva de ficar excitado com a visão de um macaquinho diante de tantos contatos com os primatas na Índia. Mas, no fim das contas, estávamos ali mais pela cavalgada nos elefantes. Esse era o motivo principal e todos os animais que víssemos eram apenas um adicional. Desfrutar a experiência de contato com os gigantes mamíferos, pele a pele, que por sinal é muito áspera; vivenciar a perspectiva de sua visão e poder enxergar o mundo da sua altura; conhecer um pouco do seu “ritmo”, balançando de um lado para o outro por duas horas.... E claro, a oportunidade de possibilitar essa vivência para as crianças. Poder contar para o pequeno Ravi que ele já mamou e dormiu no “colo” de um elefante. E ver os seus olhinhos brilhantes e seu sorriso apaixonado, registrando tudo aquilo....



...isso por si só já fez valer toda a história.


Cris

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Encalços e Percalços, terceira parte


Desmistificando os medos, "desmedificando" a vida
Levar um bebezinho de três meses para um país desconhecido, mais precário economicamente, cheio de idiossincrasias culturais “estranhas” e mil problemas sociais, já era motivo suficiente para sentir insegurança, ser taxada de louca, irresponsável, negligente, imprudente, e todos os “(pré) conceitos” possíveis de se chegar por meio de um raciocínio até lógico e coerente, levando em consideração o padrão “comum” de pensamentos das pessoas.

E o que dizer sobre levar um bebê que nasceu com um “probleminha” no intestino grosso e que por isso passou por uma cirurgia nos primeiros dias de nascido?

Não quero louros por isso, e nem acho que é motivo para tal. Muito menos me importo com as críticas, senão não me exporia. O único motivo pelo qual abro mão de nossa privacidade, contando esse fato, é porque acho que uma experiência bem vivida por uns, pode ser bem aproveitada por outros. “Eu não sou besta pra tirar onda de herói”, não busco esse papel e nem me afinizo com esses personagens. Como disse Arnaud Rodrigues: “O herói é o cabra que não teve tempo de correr”.

Simples assim: sou uma mãe que passou por dificuldades comuns a muitas outras e com certeza muito menos que muitas outras, mas suficientes para algumas lágrimas, tensão e medo e, principalmente, muito conhecimento. Um verdadeiro “empurrão” em direção a Deus. Uma compreensão da realidade até então não explorada ou vivenciada. Um estreitamento na relação com o divino ou pelo menos no que acredito ser divino.

E foi no embalo dessa sintonia, confiando nesse vínculo que tomamos decisões e direcionamentos que tantas vezes contrariaram as expectativas de todo um “mundo” a nossa volta. E como os frutos foram positivos, só posso dizer que foram acertadas as escolhas, apesar de muitos preferirem chamar de “sorte”. Ainda hoje escutamos a frase: “Tiveram sorte, mas e se...” Não! Os tantos “ses” que escutamos não aconteceram. E não acredito que somos pessoas que têm “sorte” a mais que qualquer outra. Apenas não baseamos nossas decisões no “bom senso” comum, com seus milhões de “ses” e “poréns” empreguinados de medo ou comodismo.

“Não vai”, “não faz”, “não deve”, “não pode”! “Está muito frio”, “muito quente”, “é perigoso”, “não tem jeito”...

Quantas vezes escutamos “recomendações” desse tipo, algumas por mero zelo de pessoas que nos prezam, outras por pessoas que, muitas vezes sem querer e sem saber, tentam nos acorrentar em suas próprias “prisões”.

São tantos os momentos em que recebemos os famosos “baldes de água fria”, que já consigo com um mínimo de atenção prever os “arremessos” antes de acontecerem, às vezes até a tempo de abrir o guarda-chuva e evitar ficar encharcado daquela energia que já me é muito familiar: a energia contagiosa do medo.

Não estou falando sobre esta viagem especificamente ou destes ouvintes que ora vos falam, mas de todos os “viajantes” que em momentos da vida resolvem mudar a rota, investir no seu próprio jeito de fazer, criar uma nova forma.

Mas, nesta viagem propriamente, teve um episódio que foi um exemplo clássico de como as pessoas podem querer te desanimar com seus próprios temores . Decidimos fazer um treking no Nepal por vias independentes da máfia das agências de turismo. Resolvemos ir para o Mustang Valley, um lugar além dos Himalayas, numa região vizinha ao Tibet. Mas a única informação que conseguíamos obter das pessoas (inclusive nos famosos guias como lonely planet e etc) eram as possibilidades através de caminhada com guias ou por avião até Jomsom, uma vila com alguma infra-estrutura antes da travessia pela “abertura” existente na cadeia de picos. Nenhuma das duas formas era aceitável para nós. Não iríamos nunca de avião perdendo toda a paisagem geográfica e humana, todas as nuanças do caminho. E duas crianças pequenas eram um empecilho concreto na opção de tão longa caminhada (14 dias só para chegar em Jomsom e nossa vontade era de ir mais além).

Não teria outro jeito, não existe um transporte via terra? Não, não, não, eram sincronizadas as respostas e incisivos os funcionários das agências. Mas não era possível aceitar esse diagnóstico fatalista. Como então se deslocavam as pessoas daquele lugar? Deveria haver um transporte. E acabamos descobrindo, depois de muito procurar junto às pessoas locais, que havia sim uma rota via terra, através de um micro-ônibus adaptado e jeeps, por uma estrada mais ou menos recém aberta. Depois fomos descobrir que o conceito de estrada para eles é bem distante do que aqui consideramos uma via acessível por transportes comuns. Amontoados de pedras, estradas muito estreitas à beira de precipícios, horas e horas de poeira e solavancos de desafiar qualquer sistema nervoso.


Uma francesa amiga nossa (que fazia parte do pequeno grupo de amigos que decidiram aderir à audaciosa aventura), em um momento de desespero, se levantou do banco e gritou ao motorista que parasse pois ela iria prosseguir à pé. Imagine um lugar, a kilômetros de qualquer outro lugar, no meio do nada, no meio da noite, um frio insuportável, isso certamente não era uma boa escolha. Nesse caso sim, um balde de água fria era apropriado para esfriar os ânimos e agüentar o tranco.


A respeito da dificuldade da trajetória, nós já tínhamos sido previamente preparados e excessivamente“alarmados”pela funcionária do órgão do governo responsável por emitir as permissões para entrar no santuário dos anapurnas e na região do reino do Mustang. Mais uma vez aquela mesma situação: indo para um lugar desconhecido, munidos apenas de informações escassas que por si só não são garantia de nada. De novo o prenúncio da “chuva”, aquela energia familiar e em seguida a tempestade de nãos. A moça arregalava os olhos e mostrava os dentes, repetindo insistentemente o mesmo refrão de terror: “Não vá com seus filhos!”. A cada quatro palavras que ela dizia, voltava a repetir a frase. Já tínhamos mudado de assunto, pagado as taxas e com as carteirinhas na mão e lá estava ela com o mesmo repertório: “Não Vai! Seus filhos vão adoecer, tem muita poeira na estrada, muito vento!” Verdadeira “assombra- a- ação” esta mulher, que graças a Deus não tinha poder para me impedir de ir, senão com certeza o faria!Essa ganhou o título de “São Pedro do ano”, Bin Laden, terrorista! Mas totalmente compreensível. Se estivesse no lugar dela também colocaria todos os contras, embora sem tanta ênfase e repetição. Mas ela estava certa em todas as informações que nos forneceu.

Cris e Flora tomando uma "cerva" tibetana numa parada no meio do caminho (brincadeira, era um delicioso chá)

Poeira demais, frio demais, vento demais. Para isso usamos casacos, panos úmidos para superar a falta de janelas nos “ônibus” e atenuar a poeira para as crianças, horários limitados para elas saírem dos quartos. Sendo assim, dimensionando e contornando as dificuldades, o que resta é muito maior que qualquer poeira, frio ou vento. É experiência rica demais!

Difícil ou não, vimos que era possível chegar. E como valeu a pena chegar!

E a conclusão a que chego diante de tudo, é a mesma de Caetano:

“É preciso estar atento e forte! Não temos tempo de
temer a morte!...
Atenção! Tudo é perigoso, tudo é divino maravilhoso!”

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Encalços e percalços, parte dois

Estávamos falando do Goethe, um poeta e filósofo alemão, que foi quem disse que “quando desejamos profundamente algo, todo o universo conspira para que possamos realizá-lo”. Pois então, acho muito feliz essa afirmação. É incrível observar a dinâmica dos acontecimentos quando nos propomos a fazer algo novo. Não precisa nem ser algo grande não, como foi essa nossa viagem, por exemplo. Chamo de grande considerando a nossa perspectiva, dentro da nossa realidade. Para outros uma viagem à Índia pode não representar um grande feito ou realização de coisa alguma.

Mas, seja qual for o novo empreendimento, uma simples mudança no jardim pode proporcionar uma experiência de integração com a natureza e com a dinâmica do cosmos (ou o contrário - o afastamento, dependendo do empreendimento). Temos a oportunidade de observar e vivenciar “forças maiores” regendo a orquestra dos acontecimentos, colocando pessoas e criando situações que se encaixam como peças num quebra-cabeça. Seja “encurtando” o caminho e facilitando as coisas, ou mesmo aquelas situações aparentemente “negativas”,mas que surgem por uma razão maior, seja para desafiar nossa persistência ou pôr em provas nossa paciência. Acho que sempre o objetivo primeiro de toda empreitada é o aprendizado que se adquire durante o caminho, então, dentro dessa compreensão, “tudo é divino e maravilhoso”, como dizia Gal.

Falamos dos partos dos documentos, do dinheiro, mas não falamos DO parto, literal e propriamente dito. Tivemos um parto mesmo, de criança nascida, em meio a essa montoeira de funções administrativas, de repartições públicas, filas, protocolos, carimbos e assinaturas. Nosso menininho já nasceu com a mala feita e a passagem comprada. Aliás, é interessante falar do processo de compra dessa passagem.

Quando decidimos ir, o primeiro passo que demos foi tentar achar as passagens o mais barato possível. Pesquisa noite adentro na internet, rota e empresa mais viável (financeiramente, é claro), achamos! Primeira participação do cosmos, pois era inacreditável o preço comparando com o que já tínhamos encontrado. A reserva era mantida por apenas dois dias, hahahahha que engraçado! Como arrumar o dinheiro em dois dias? Não podíamos perder aquela oportunidade que poderia ser única. Pronto, sucumbimos na primeira dificuldade.

Que nada! Ritual de arrumação e limpeza do carro velho durante todo o dia e madrugada afora. Um verdadeiro desmanche: desmonta a porta, arruma a maçaneta, tira o banco e só aí é uma experiência arqueológica. Várias estórias reveladas embaixo daquele banco. O brinquedinho dos primeiros meses de Tatá, pedras carregadas de qualquer mato, restos de comida, as mil canetas perdidas e várias moedas para ajudar na causa. Finalização com direito a incenso e oração, para que a pessoa que adquirisse o carrinho mesmo que velhinho pudesse desfrutar de boas experiências dentro dele, como nós tivemos.

Dia seguinte na feira: doce inocência acreditar que alguém abordaria dois barbudos e cabeludos, vestidos apropriadamente para uma festa hippie dos anos 60. Ninguém! Um dia inteiro e nenhuma curiosidade para perguntar quanto custava o nosso idoso. No final do dia, derrotados é claro.

Não mesmo. Hora de ativar o plano B. Quem seria a pessoa escolhida pela nossa Fênix renascida das cinzas? É claro que só a mãe para pegar o rabo, ops, ou melhor, o “touro pelo rabo”!
Minha sogra tinha um carrinho, também velhinho, porém mais fácil e rápido de vender no mercado. Aceitou a demanda e, no dia seguinte, trocamos os “enguiços” e peregrinamos pelas tantas concessionárias de Belo Horizonte “À Procura de um Milagre”! E eis que a água se transformou em vinho.

Com o dinheiro na mão, o próximo impasse era a escolha do nome do neném. Com essa não contávamos! Tínhamos que comprar a passagem já com seu nominho, mas estávamos com apenas 3 meses de gravidez, não sabíamos o sexo, quer dizer, oficialmente pelas vias ultrasonográficas, porque intuitivamente já o chamávamos de menino. Mas, e se a intuição tivesse mal sintonizada? A nossa menininha ia chamar Ravi?

Como correr riscos já vem registrado nos “samskaras” dessa família, esse seria só mais um para incluir na nossa “cota de karmas”. Compramos as passagens e aí começa outra estória.

Cris

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

"Encalços e percalços"

Quando criança me ensinaram que na vida eu precisava ter força. Mas acho que esqueceram de me dizer apropriadamente o que era a referida. Bom, eu tinha um modelo em casa, que talvez seria o natural de se seguir. Mas acontece que o tal modelo, agora que tenho mais informações para poder analisar, não era assim tão adequado à idéia que hoje faço a respeito de força. Sabe autoritarismo? Pois é, acho que tava mais para isso. É íncrivel como as pessoas confundem autoritários com fortes. "Nossa, fulano é tão forte", e o que vemos é uma pessoa toda armada, botando ordens e morrendo de medo de se relacionar de outra forma.

Mas, voltando à bendita força, precisamos cavá-la muitas vezes nessa viagem. Situações complicadas, nas quais os ânimos deveriam se manter sob controle para tomarmos as decisões certas, para aguentarmos as turbulências das longas trajetórias, os saculejos sobre as pedras do caminho (rsrsrss... literalmente falando).

Para começar, Bombain. Quem conhece que não te compre. Portal de chegada. Mamãe urso e mais três pequeninos indefesos da prole. O mais confiante e seguro era o Ravi, o neném de três meses que não tinha idéia da metade da missa que estavam lhe enfiando goela abaixo. Na verdade, Ravi curtiu demais tudo. Talvez quem mais curtiu, pois não passou diretamente por nenhum perrengue. Só passeando na "cacunda" do papai e da mamãe, nosso caracolzinho em sua casinha ambulante. Admirando as árvores ("arvrrr"...) que adora, com seus olhinhos gigantes e brilhantes percorrendo diversas paisagens e rostos diferentes.
E, ao falar nesses rostos diferentes, lembrei de um perrengue pelo qual o Ravi esporadicamente passava. A forma como os indianos e nepaleses pegam as crianças no colo e jogam elas para cima é de congelar o nosso coração! No início, passava por essa adrenalina constantemente. Eles adoram as crianças, acham que são verdadeiros deuses e por isso querem sempre tocá-las, como se recebessem bençãos fazendo isso. Após algum tempo de experiência, fui ficando mais esperta e sabia dar um jeitinho de despistar e poupar o Ravi dos arremessos sem ofender os brios de ninguém. Bom, esse foi o drama pessoal do Ravi durante a viagem, seu bom combate. Na verdade digo isso, mas quem ficava com os olhos arregalados, as pernas bambas e o coração acelerado eram os pais que tinham um certo discernimento. O danadinho morria de rir da situação.

Voltando às nossas pelejas, estas começaram mesmo muito antes de botarmos os nossos pezinhos em Bombain. Sabe a mulher quando fica grávida pela primeira vez e se tivesse noção da dor do parto, talvez por medo teria evitado engravidar? Pois é, quando decidimos viajar, não tínhamos idéia da dor do parto, ou melhor, dos partos, pois foram mais de um.

Primeiro parto: documentos! Os meninos (aqui me refiro ao Rodrigo e ao Damião, seu irmão) eram indigentes. Simplesmente não existiam nos arquivos do sistema. O Rodrigo ainda tinha carteira de motorista, pelo menos. Mas só isso. Tive que promover o renascimento deles na sociedade. Falo de mim porquê fui eu mesmo que tive que administrar isso, pois como haveria de cobrar isso deles? Era como soltar dois neandertais na Avenida Paulista. Dois marmanjos sem documento e sem "identidade" própria ( isso seria uma ironia se não fosse verdade nesse caso, pois eles não tinham identidade mesmo, a famosa C.I. que até indigente tem. A Flora com 11 já tinha.)


Sabe o filme "Família Buscapé"? Lembrava sempre dele nos compromissos burocráticos, quando íamos requisitar nossos "papéis" na Receita Federal, Justiça eleitoral, e por aí vai. Era muito engraçado quando observava sob a perspectiva de quem está de fora vendo nossa família toda, pois saíamos em comboio, esperando nas filas do Estado. A família busca pé - de- chinelo. Sem combinar, éramos todos os "com chinelos de dedo" em meio aos "com ternos e gravatas". Isso por si só já nos garantia muitas risadas.


Outro parto: dinheiro. Quem dera fosse fácil assim: resolvemos ir, tiramos o dinheiro da nossa rica poupança e pagamos as passagens. Ou ainda: nossos pais "bem -de-vida", resolveram acreditar na próspera carreira dos "malucos", e bancar nossa "pós-graduação" no exterior.

Bom, imprudência, maluquice, irresponsabilidade ou seja lá qual for o diagnóstico de nossa conduta, fato é que a resolução de irmos veio antes dos meios necessários para conseguirmos. Isso significa dizer que não tínhamos dinheiro suficiente nem para comprar as passagens, na verdade, nem para pagar toda a papelada que precisava, muito menos para nos manter lá por um período.

Tínhamos um carro velho e guerreiro, ou melhor seria dizer, uma carroça ( já famosa pelos mil enguiços) e muita vontade, quase uma certeza, insensata, baseada em coisa nenhuma palpável, a não ser no nosso próprio "achismo" de que deveríamos ir.

Se estava no nosso destino, escrito nas estrelas, ou qualquer coisa parecida que normalmente se diz quando falam de sonhos, não sei dizer. Mas com certeza o universo conspirou bastante para realizarmos. A favor e contra também!

Mas, o desenrolar dessa dinâmica de conspiração contra e a favor do universo vou deixar para contar depois pois esta postagem já está muito grande. Aliás, acabamos de resolver que vamos iniciar uma série de postagens só sobre os perrengues. Lembramos de vários que, como todo drama, possuem um alto potencial para ser engraçado... Agora, depois que já passou!

domingo, 23 de agosto de 2009

The nepali monk(ey)

"Fulano tem macaquinhos no sótão!" Acho que todo mundo já ouviu essa famosa expressão. Os macacos são popularmente relacionados aos miolos desaparafusados, à confusão e baderna mental. A sabedoria popular e as escrituras indianas se referem à mente (citta) como uma macaca agitada, pulando de galho em galho freneticamente.


Macacos nunca poderiam nos passar a imagem da equanimidade ou quietude, mas encontrei uma exceção no Swayambhunath temple, no nepal, curiosamente conhecido também como templo dos macacos. E como "o hábito faz o monge", acho que o macaco aprendeu a meditar, pois estava sentado e parado nessa posição durante muito tempo, como congelado. Ouso dizer que poucas pessoas podem ficar tão quietas num asana como este macaco, lembrando aqueles macacos brancos japoneses que ficam horas relaxando na água quente das termas naturais. Mas o macaco desta história não estava em nenhum ofurô natural para estar tão bem. Repare na profundidade de sua expressão, impassível como uma montanha.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O macaco galanteador

Um dia estávamos na trilha voltando para nossa casinha em Rishikesh quando resolvi sentar numa "mureta" de pedra para observar um macaco grande que vinha andando de longe sobre ela, num passo tranquilo e solitário. Foi quando após alguns minutos, sentada observando, reparei que o macaco estava vindo em minha direção. Pensei em sair antes que se aproximasse pois, afinal, tratava-se de um macaco de cara vermelha, que tinha fama de ser agressivo e nada amigável. Mas, ao invés de ceder ao primeiro impulso, acabei permanecendo, mesmo porque o macaco já estava perto demais para fazer qualquer coisa.
















E não é que o dito cujo sentou bem do meu lado, agarradinho no meu corpo, e lá ficou??? Não pude acreditar no que presenciava, sentia uma mescla de medo com satisfação, na expectativa de qualquer desfecho, trágico, cômico ou até mesmo romântico, nas perspectivas do macaco. E não poderia ter sido mais engraçado. O macaco "safado" (como disse o Rô), em uma atitude completamente inesperada, surpreendeu a todos, principalmente a mim, quando colocou seu braço sobre a minha perna e sua mão sobre a minha. Queria muito morrer de rir naquela hora, mas permaneci estática, paralisada, sem saber qual poderia ser o próximo passo dele. Não podia sair, porque ele poderia se sentir rejeitado, sei lá, e ficar zangado e querer me atacar. Também não podia corresponder ou ficar muito receptiva ao toque pois ele poderia querer me beijar, imagina isso?





Fiquei somente quieta, experienciando aquele momento. O que poderia estar passando pela cabeça daquele macaco naquela hora? Cheguei a especular isso enquanto estava sob "seu comando". Estava sendo aquilo uma espécie de encontro ou algo parecido? Eu era a macaca escolhida, ou somente sentou porque estava cansado e encontrou companhia de alguém que estava em seu caminho? Nunca vou saber.


Depois de algum tempo, não sei quanto, pois foi daqueles momentos em que perdemos a noção, ele simplesmente se levantou e saiu andando com seu passo tranquilo. E eu, sã e salva, pude rir demais daquela situação. Acariciada por um macaco indiano! E acho até que posso me sentir lisonjeada, pois não se tratava de um macaco qualquer, daqueles magrelos e arruaceiros que estávamos acostumados a encontrar. Era um macacão forte, robusto, com um ar sereno e uma postura de macaco vivido, experiente, caminhando sozinho, desprendido da vida do bando. Certamente um bom partido para as macaquinhas de Rishikesh.



Macacos


Macacos de poeira já voaram
Macacos de poeira já voaram
Macacomanusacuma sacomanunsaco
Macacos de poeira já voaram
Macacos de poeira já voaram
Macacomanusacuma sacomanunsaco
Macacos de poeira já voaram
Macacos de poeira já voaram
( musica Macaco "corpo" de Naná Vasconcelos)

Os amarelos safados e ladrõezinhos


Para quem não sabe, além das vacas e ratos que rodam pelas ruas imundas da índia, há também os espertos macacos que vivem em todos os lugares a espreita esperando um bobo passar com comida para eles CREU! Darem o bote. Pelo menos em Rishikesh, aonde fiquei, a maior concentração dos macacos amarelos e híper inteligentes se localiza na ponte laxmanjula. Lá é aonde todas as pessoas passam correndo para não serem roubadas. Quantas milhões de vezes não ouvimos: " muito cuidado ao andar na ponte, esconda as sacolas e não passe andando com comida" ou então " não se preocupe com os macacos brancos e sim com os amarelos de cara vermelha, eles são agressivos e podem te machucar". Para falar a verdade, nunca vi eles machucando ninguém, mas não descarto esta possibilidade, pois eram bem agressivos mesmo.



Os doces langurs


Para compensar os irmãos amarelos, os langurs eram as criaturas mais calmas e doces que já vi. Sua coloração era branca e sua cara era preta, além de simpático ainda era um lindo animal. Os langurs, diferentemente dos outros macacos, ainda viviam (a maior parte deles) no resto de mata que havia nas montanhas que rodeavam a pequena cidade de Rishikesh e, por experiência própria, digo que é muito legal presenciar a bagunça e a barulhada que fazem na floresta, apesar de muito calmos e serenos na cidade. Como são muito agradáveis, eles nem precisam roubar, pois ganham tudo de graça! hahahahahahahaha. Mas não vou deixar esta imagem ruim dos pobres macaquinhos amarelos, afinal, é da natureza deles serem bagunceiros e também, eles não tem comida né? Rsrsrs. Os macacos amarelos também eram muito divertidos.


Tatá e suas macacadas

Parte um: Vó maria e tatá (minha irmãzinha de três anos) estavam assistindo um programa na TV no qual os macacos na Índia faziam cocô na cabeça dos convidaos de um casamento. Vó Maria(minha bisavó), sabendo que iríamos pra lá, logo falou:-viu tatá, lá na Índia os macacos fazem cocô na cabeça das pessoas! E a tatá ficou com isto na cabeça...


Parte dois: Depois disso, todos que perguntavam a Tatá se ela ia para a Índia, ela dizia:- eu não! Os macacos vão fazer cocô na minha cabeça! E a pessoa ria até não aguentar mais.Tatá ficou com o pensamento fixo de que não iria pra Índia porque os macacos fariam cocô em sua cabeça, chegou até a chorar porque não queria ir.

Parte três: Quando Tatá chegou na India ficou adimirada com os macacos , só com um pouquinho de medo dos cocôs. Mas com o tempo foi se acostumando com eles e passando a achá-los legais e divertidos, até aquela quinta feira de tarde...


Um belo dia, (a tal quinta feira) Tatá comprou um pirulito, foi andando com ele até a ponte e, quando estava atravessando, um macaco foi lá "destrai-la" e em um segundo por traz arrancou o pirulito das mãos de Tatá. Tatá, viciada em pirulito, ficou chorando uma hora porque o macaco tinha roubado seu pirulito e uma nova birra com os macacos se formou no coração de Tatá. Mas graças a deus esta birra acabou em poucos instantes, pois logo ela comprou outro e falou: " eu fiz uma idéia: eu dou o meu pirulito pro macaco e pego o dele!", kkkkkkkkk! Uma peça rara, não?


Flora

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Nada no Lago



Não sei dizer o porquê, mas essa viagem à Índia e Nepal me remete a muitos sonhos de infância e princípios de juventude. Parece que muitas imagens já estavam programadas para acontecer. É como se a idéia estivesse escondida lá no fundo dos quintais da mente, e quando as cenas se desenrolam por aqui, é familiar como se eu estivesse vendo um filme embaçado. Mas não estou me referindo à lembranças de vidas passadas, que é um "lugar comum" nos relatos de experiências das pessoas que se interessam ou que vão à Índia. Na verdade, estou cansado desse papo de "acho que já vivi na Índia no passado", ou "já tive alguma encarnação na Índia". Esse tipo de especulação já é tão "batida" e repetida que às vezes dá até uma certa preguiça de conversar com as pessoas "místicas" que se interessam por Yoga e cultura indiana. Afinal, quem é que não reencarnou na Índia? A esmagadora maioria das pessoas que transitam no "mundo" do Yoga já. Eu mesmo conheço milhares de "Yoguis reencarnados".

Quando falo de imagens familiares, estou falando de algo que faz sentido para minha vida, e de minha família. Talvez sejam familiares porque na Índia e no Nepal, mais do que nunca, temos liberdade absoluta para sermos nós mesmos. Estando sem trabalho e sem obrigações que não sejam os deveres a que nos propomos, estamos livres de regras impostas pelos outros ou pelas situações e, sendo assim, ninguém nos coloca obrigações sem nossa vontade ou permissão.

Teve dias em que realmente me recusei a ser submetido a qualquer tipo de ordem ou regra, enquadrar-me em qualquer tipo de compromisso ou ficar preso em qualquer armadilha de horário ou tempo. Dia de subir montanha, dia de ficar no Ganga, de ficar com as crianças na praia de areia branca. E um desses inesquecíveis compromissos comigo ou conosco mesmo eram os maravilhosos entardeceres do lago Phewa no Nepal.


Quando pegávamos o bote, passávamos toda a tarde no barco, após o almoço até o anoitecer. Às vezes almoçávamos no próprio barco, levando lanche para um pic nic. Dias de ócio criativo, de ficar deitado olhando o formato das nuvens que às vezes aparecem nessa época como lençóis, que vão tingindo-se de cores à medida em que o sol vai mudando sua posição no céu. Dias de observar a revoada dos pássaros aquáticos. De ficar no meio do lago a deriva, já que o lago quase não tinha corrente e o seu ritmo também era preguiçoso.

Ravi sempre dormia entre as mantas e xales que levávamos pois, apesar do sol, ainda era bem frio e ficava gelado no final da tarde. Estávamos em pleno inverno do Nepal. E Damião virou o remador de todas as horas, pois pegou logo o jeito dos difíceis remos do bote nepalês, tão diferente das canoas e caiaques nacionais, ou pelo menos aos que estávamos acostumados a usar nas baías de Angra.




Uma vez aportamos no lado selvagem do lago e vimos uma manada de bois e búfalos, como também currais de pesca bem primitivos próximos à margem. Em outra oportunidade, a viola e a cantoria também fizeram parte da embarcação. Mas, basicamente, o melhor era mesmo ficar à toa, olhando para as nuvens.



O lago era o local onde digeríamos as experiências da viagem, onde conversávamos a respeito do povo, das diferenças culturais, do estrago que a vida moderna faz no mundo das pessoas e nas vilas. Mas, principalmente, era na placidez do lago que podíamos planejar com tranquilidade os próximos "saltos" e "vôos" e definir para onde iríamos a partir dali, já que sempre voltávamos para Pokhara após viajar para alguma vila ou cidade. Lá era nosso pouso, o porto seguro onde podíamos nos preparar e descansar antes de pegar novamente a estrada. E era no lago que decidíamos e calculávamos os prós e contras de cada aventura, os riscos e valores de cada loucura. Era lá que, renovados, sentíamos que poderíamos ir para qualquer lugar, pois nada nos limitava. Muito ímpeto para viajar e conhecer, crianças fortes que aguentavam o "tranco", e principalmente a união do grupo, onde todo mundo falava a mesma língua.

Dentro do barco, viajávamos em nossas especulações. Se iríamos para uma vila devotada à Deusa Kali, ou se íamos para um parque andar de elefantes e ver vida selvagem. Conhecer templos ou ir para as montanhas; peregrinar pelas rotas sagradas ou alugar uma casa nas vilas e passar um tempo vivendo como os aldeões. Lá escolhíamos qual seria a rota que poderia proporcionar mais conhecimentos e experiências para os adultos e crianças da trupe.

Mas o lago não era só um local de decisões e conversas. A natureza ao redor é maravilhosa, pois é cercado por montanhas cobertas de verde, e grande parte é quase selvagem e ainda não habitada pelos homens. A partir de dois longos canais ele é ligado a dois outros lagos menores, ainda mais selvagens. A margem que é circundanda pela cidade também é linda, pois o nepalês, bem mais esperto que o indiano, cuida para manter os jardins públicos ao redor limpos e bem bonitos.



Nunca posso esquecer que foi no lago que vimos os himalaias pela primeira vez de forma satisfatória. Na Índia e Nepal, durante o inverno, impera uma bruma constante no ar e, dependendo do horário, muitas vezes fica bem difícil de enxergar em maiores distâncias ou ter uma visão clara das montanhas. Quando estivemos pela primeira vez no meio do lago, tivemos a visão dos himalaias alaranjados pelo pôr do sol, atrás das montanhas verdes, e essa foi a primeira vez que tivemos um vislumbre decente pois, até então, só víamos a ponta do pico Machapucchare e pedaços insignificantes dos outros picos da cadeia. Depois até tivemos a oportunidade de visões magníficas das cadeias montanhosas, mas aquela imagem foi a primeira e, por isso, marcante na viagem.

O desejo de conhecer o lago Phewa foi certamente uma das maiores motivações para interromper os estudos na Índia e ir para o Nepal e também um dos motivos principais pelo qual preferi o Nepal à Índia, apesar de no Nepal não ter desfrutado de estudos formais.

Apesar de nosso carinho e veneração especial pelo rio Ganga, o Phewa Tal, antigo lago sagrado para os povos que viviam na região de Pokhara no passado, acabou assumindo ares de sacralidade para nós também , sobretudo o sagrado compromisso com a mente livre, leve e solta.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

"Deixa cair velho"

Relacionar-se com as pessoas é sempre um desafio. Digo com as pessoas, porque lidar com os bichos, com as árvores, com as montanhas, como fazem os ermitões, me parece algo menos complexo. O maior desafio nesse caso seria o de enfrentar o silêncio e a harmonia da natureza em contraste com os nossos desarranjos e tagarelices mentais.

Mas quando o assunto é em relação aos seres humanos, no que subentende-se que a "racionalidade" está presente, estamos falando do intercâmbio de neuroses, fobias, caprichos e esquisitices dos mais variados níveis de criatividade e especificidade. A individualidade humana é um arcabouço de surpresas, uma verdadeira caixa de pandora.

Para quem está em busca de crescimento espiritual - e hoje em dia com esse modismo quem não está ? - a meu ver não há oportunidade melhor do que a convivência diária. O mau humor do marido, o adolescer do filho, a insatisfação do vizinho por "não sei o quê", que o faz descontar em tudo que é verde, nas pobrezinhas das árvores (não sobrou nenhuma!) e nos milhares de passarinhos que enjaula e ainda temos que escutar, calados (política da boa vizinhança), que adora os tais bichos.

Retiro espiritual para encontrar o Ser? Fala sério! Nesse sentido a Índia é um lugar fertilíssimo para uma "retirada espiritual". Talvez nenhum local da Terra tenha tantas oportunidades de investigação do comportamento humano. Uma simples encomenda de algum produto ou serviço pode se transformar em uma grande experiência psicológica e revelar inúmeras possibilidades do raciocínio humano em sua formas mais exóticas e inusitadas.

As relações comerciais na Índia são sempre ricas fontes de observação da atuação humana, principalmente no que ela tem de mais confusa, complexa e extravagante . Nunca sabemos até onde o indiano irá exercer sua "criatividade", e nem o que esperar de nossa reação. Qualquer coisa bizarra pode acontecer: você encomenda um pavão e eles te trazem um elefante, como se fosse a mesma coisa. Falam um preço e segundos depois o aumentam, e você pergunta o por quê, eles te respondem com um sorriso amarelo e uma balançadinha de cabeça (a tal balançadinha que em tese quer dizer sim, mas que pode ter qualquer ou nenhum significado: sim, não, não sei, talvez, não falo inglês ...) De repente, um funcionário da estação de trem cisma que seu visto não tem uma tarja dourada, e lhe impede de comprar o ticket, sem se dar conta do quanto sua implicância injustificada poderá complicar seus planos e compromissos.

Como realmente QUALQUER COISA pode acontecer em se tratando do "modus operandi" da mente do indiano, podemos nessa hora nos defrontar com os mais recônditos e obscuros escaninhos de nossa personalidade, revelando nossas faces mais sombrias ou ainda desenvolvendo habilidades especiais - até então desconhecidas ou simplesmente não utilizadas devido à falta de situações oportunas - tipo anular totalmente as expectativas e aceitar qualquer resultado; paciência e tolerância em grau máximo; persistência quase heróica para não "chutar o pau da barraca" de vez.

Bom, acho que não há dúvidas de que as relações inter-pessoais são ricas fontes de conhecimento, sobretudo o auto-conhecimento. Muito mais eficaz que muitos "workshops" que estão à disposição por aí. E ainda é gratuito, ou melhor, depende da atenção do praticante, o que infelizmente não é pouca coisa em se tratando de uma sociedade altamente automatizada como a nossa. O tal "botão" do piloto automático está sempre acionado (veja o filme Click).

Estamos ainda nos pródomos de um convívio humano mais sofisticado em termos de sentimento. Paradoxalmente, quando digo sofisticado, estou falando de simplicidade, ao contrário do que podem pensar muitos. Relações mais verdadeiras e profundas implicam em reduzir as complicações, os subterfúgios que nos afastam daquilo que é real... ("A verdade está na caspa e não no shampoo..." como diz uma canção); destruir os muros altos das convenções, abrir mão das máscaras, hoje ainda mais reforçadas na era da eletrônica, pois agora temos as máscaras "cybernéticas" ("A eletrônica está substituindo o coração" - Baianos e os Novos Caetanos); quebrar as regras e extinguir os rótulos de etiqueta social e "espiritual", para ser apenas um alguém relacionando-se com outro alguém.

Fato é que até o Vedanta - filosofia que estudo, admiro e com a qual afinizo, diga-se de passagem, está sendo utilizada como subterfúgio espiritualmente aceito e louvado para "fugir da luta", do "bom combate". Confesso que quando encontro aquele olhar vazio, do tipo "não sou mais deste mundo", aquele tom forçosamente equânime na voz, e uma atitude blazê de quem pensa estar se relacionando através do "Ser", como Ser e com o Ser - mas que na verdade não compreendeu bulhufas a respeito de ser nada - nestas horas fica difícil não apertar o botãozinho do piloto automático a ter que escutar as pérolas do vedanta sendo porcamente "parafraseadas".

Voltando aos relacionamentos, quero dizer que mesmo com todas as dificuldades e percalços, são preciosos e inesquecíveis os momentos em que relaxamos e deixamos cair as armaduras. Quando nos dispomos a ser sinceros com nossos sentimentos, inclusive com o nosso medo, sem tentar camuflá-lo com recursos de linguagem ou fugir pela tangente. Quando experimentamos botar o coração na cavalaria de frente e desvendar o tal do "sofrimento", que muitas vezes vem com o próprio medo de sofrer. ("O medo do sofrimento é o próprio sofrimento").

Deixamos de ficar confinados às nossas formas e "fôrmas" de concreto mentais, abrindo mão do próprio conforto em prol da experiência real da vida, pois, dentro dessa prisão de segurança, seguimos "morrendo" ao não aproveitar as oportunidades de melhores encontros, de momentos vivos, de carne, osso, coração, e do Ser também, por que não?

Se pudéssemos por vezes agir nos relacionamentos, tal qual as crianças, que brincam juntas sem perguntar nomes, sobrenomes, títulos e graduações, pois nada disso é útil e importa à brincadeira. Se déssemos mais valor aos momentos divertidos como elas dão, e menos ao que chamamos de "responsabilidades".... se pudéssemos ser menos "prudentes" e mais autênticos... menos sisudos e mais relaxados... se conseguíssemos expôr nossas "pirraças", ao invés de guardá-las... se fôssemos menos preocupados com nossa imagem e pudéssemos dançar quando sentíssemos vontade, ou usar livremente a espontaneidade sem especulações sobre a opinião alheia.

Conseguiríamos transformar momentos “corriqueiros” em momentos especiais. E assim "simplificar" o enfoque dos olhos para enxergar em "pequenas" coisas, oportunidades de uma vida feliz.

"A morte... a falta de sorte. Eu tô vivo, Paulinho. Vivo sem norte, vivo sem sorte, eu vivo. Aí a gente encontra um cabra na rua e pergunta: tudo bem? E ele diz, tudo bem. Não é um barato Paulinho? É um barato." ( os mesmos Baianos e Novos Caetanos)

Cris

P.S: Apesar do título ser uma expressão usada nos anos 60, aqui me refiro a uma fala do desenho animado Mógli de Walt Disney, quando Rei Louie, o líder dos macacos arruaceiros, solta a frase para o urso Balu, um personagem desencanado que, pela sua filosofia de vida, tornou-se um dos nossos ídolos. Em uma de suas cenas geniais, ele se descontrola com o balanço da música do "inimigo" e, ao invés de lutar, ele dança com o rei dos macacos.

sábado, 18 de julho de 2009

A evolução dos bichos, o retrocesso do homem


Aqui estou vendo coisas muito estranhas: Outro dia uma vaca rosnou para mim, os cachorros saltam para lugares onde um homem nao consegue saltar, os macacos só faltam juntar as mãos e falar namastê quando passamos. E os homens, não vou nem falar. Eu acho que um ser, quando chega no cúmulo da iluminacãoo, comeca a voltar. As vacas estão virando cachorro, os cachorros virando macacos e os macacos, virando homens. Mas o homem aqui na Índia com a questão do lixo, nem vaca é mais. É um corvo ou um pombo...Aqui, em qualquer lugar independemde de como seja, tem rios e atpe mares de lixo espalhado para todos os lados, lixo de todas as formas e lixo que as vacas, os cachorros e até os macacos ingerem e morrem. É o país deles que tambem está morrendo. Até agora só vi um indiano que liga para isto, eles não fazem por maldade ou sacanagem, eles fazem por total costume, as pessoas mais cultas comem algo e jogam o plástico ou seja o que for no chão. Mas voltando ao assunto, só vi um indiano que liga para isto, o dono da casa aonde estamos ficando, ele faz catagem de lixo, põe cartaz pela cidade e muito mais. Mas não pensem que a india e só aquela confusão de vacas, motos, carrinho, carros, macacos e tudo mais, que se vê nas imagens exibidas na TV e no PC. Isto é só em Delhi(capital) e em outras cidades maiores. Aqui em Rishkesh e em outros lugares da Índia é mais tranquilo. E até engracado, pois aqui muitos gringos recolhem o lixo. A ironia da história: Os estrageiros limpando o país e os nativos sujando tudo de novo! hehe! Bom, mas o lixo não se compara com a quantidade de coisas boas que tem aqui, quer dizer se compara em quantidade, mas nao em importância...


Flora


P.S: Esta postagem foi retirada do blog da Flora, www.blogbordo.blogspot.com

terça-feira, 14 de julho de 2009

New indian way of life



Quando pensamos na Índia, imediatamente nossa mente remete à imagens de templos e da religiosidade do povo. Pensamos em saris e roupas multicoloridas, comidas exóticas, cheiro de incenso e animais como elefantes, najas e pavões. Quase sempre o lugar comum, ou pensamentos mais frequentes são as imagem dos ghats à margem do Ganges, das múltiplas manifestações religiosas e dos pujas.

Mas as pessoas, mesmo algumas que já moraram na Índia , muitas vezes não refletem à respeito de como está hoje em dia o desenvolvimento da espiritualidade indiana.





Sim, ainda existe uma tradição religiosa na Índia. Aglutinada nos Ashrams -me refiro aos verdadeiros e não às "pousadas" que mantém esta denominação para garantir seu quinhão do governo ou ganhar mais uns tostões dos turistas - demonstrada nos rituais, pujas, aratis e em outras tantas manifestações, que às vezes mais me parecem culturais do que essencialmente "espirituais". Se são meramente "mecânicas" ou imbuídas de um sentimento verdadeiro de religiosidade, não posso precipitar-me em dizer - fato é que já vi um brâmane interrompendo um puja que estava conduzindo para atender ao celular! Mas isto é apenas um fato, não suficiente para criar uma teoria.


Tive a oportunidade de adentrar e me misturar com o povo indiano, o que tento sempre fazer quando viajo para algum lugar. Perceber como vivem, participar do seu cotidiano, perguntar, tentar entender a forma como pensam as pessoas daquele lugar. Acho isso o mais interessante e importante para a minha experiência e crescimento.



E nessa viagem, o que pude constatar foi que a nova Índia está mais com os olhos voltados para o "American way of life" do que para a sua tradição espiritual. O diálogo entre os jovens, ou dentro das famílias, sempre manifestando uma grande preocupação com o "development", o desenvolvimento econômico da Índia. Exaltam seus estudos, o grau escolar das crianças, a qualidade do seu "inglês", as pomposas roupas ocidentais que vestem. As conversas geralmente orbitam em torno dessas questões.

Money, money, money, como a mola condutora dos hábitos e propulsora do crescimento. E é dentro dessa base de valores que as crianças indianas estão crescendo. A relação que algumas destas possuem com os estrangeiros pelo menos, assemelha-se à dos pais, que muitas vezes nos "limitam" à notas ambulantes de dólares. E quando o enfoque é primordialmente esse, fica muito difícil afinizar-se e estabelecer amizades e relacionamentos sob bases mais verdadeiras e profundas. Quando menos esperávamos, lá vinha uma abordagem sobre o dinheiro.

Como em todos os lugares do mundo, o lado negro também está presente na Índia. Não são só flores, aratis, yoga e gente espiritualizada que se encontra por lá, como se iludem muitos ainda. Ao contrário, permito-me dizer que a "Índia espiritual" está morrendo. Desonestidade, mentiras, descompromisso com a palavra, foram atitudes que me chocaram ao encontrar em proporções tão elevadas. Aspirações monetárias disfarçadas em sorrisos, "namastês" e "hari oms" aos montes.

Pelo pouco que pude observar nos hábitos do povo indiano contemporâneo, as conclusões que tiro são que as perspectivas de futuro na Índia são as piores possíveis, em se tratando de valores espirituais. E é com essa mancha no coração que voltei para o Brasil, ao ver uma cultura tão rica e valiosa que, por ironia do "destino", agora está cada vez mais crescendo e ganhando espaço no Ocidente mas que lá, está escorrendo pelo esgoto que esse mesmo Ocidente deixa por lá. (Era de Kali, o que fazer não é ?)

Se ainda amo a Índia? Ainda amo muito a Índia e volto lá sempre que for possível. Amo sua cultura antiga, suas filosofias milenares, os aratis, os cantos, sua arte, e até seu povo, mesmo com todas as indiossicrasias e "desvios". Seu sorriso no rosto mesmo quando disputando - ou melhor seria dizer em se tratando dos indianos - compartilhando o escasso espaço dentro do ônibus ou carregando toneladas de peso nas costas sob o sol quente. Amo o bom humor indiano (aqui descosiderando os funcionários ferroviários), às vezes até excessivo e descabido. Amo sua pacificidade (às vezes camuflada), sua gentileza real, o carinho e receptividade com nossas crianças.


Amo a Índia como uma mãe ama um filho (ou pelo menos deveria amar): INCONDICIONALMENTE. E deixo a Índia como uma mãe que deixa um filho em más companhias. Com o coração chorando e as mãos limitadas.

Ou amo como mais uma filha dessa grande Mãe Índia.

E volto para meu "outro" país com a saudade apertando no coração. Mas com os olhos abertos à sua decadência e regresso espiritual. O avanço econômico é importante e necessário, óbviamente e principalmente considerando a situação de miséria na Índia. Mas não esquecer nunca de cuidar dos assuntos "do céu". Se não, é como cuidar do corpo e negligenciar a alma.

Cris

domingo, 5 de julho de 2009

Pela janela do trem

Há muito tempo que eu não andava de trem. A paisagem comum na Índia é monótona e não sei dizer muito bem se é porque o tempo parece parar ou por serem quilômetros e mais quilômetros de planícies, pastos e plantações, e por vezes terras áridas como os cerrados e desertos. Quem é ansioso nunca poderia andar de trens comuns por aqui . No Nepal andávamos sempre de ônibus, e lá as estradas são sinuosas com paisagens cheias de montanhas. Além do fato de você poder viajar sobre o teto, o que muda a noção de tempo e a perspectiva de percepção da viagem, já que é bem mais emocionante.

Fico olhando pela janela estes lugares que ninguém quer visitar e sinto constante vontade de descer do trem, caminhar pela paisagem bucólica, descansar debaixo da sombra de alguma árvore.

Poderia ficar dias nesses lugares que não interessam a ninguém. Fazer pic-nic com as crianças, brincar de subir nas poucas árvores, brincar de esconder nas fileiras das plantações.

Dormir ao relento em lugares assim não tem coisa melhor. Nada para perturbar o silêncio que reina de noite e de dia.

Penso que essas "terras de ninguém", são o extremo oposto dos Taj Mahals e "praias douradas de Goa". Sábia decisão a de não ir conhecer esses lugares. Provavelmente tirariam mais a minha paciência, com seu turbilhão humano e futilidades turísticas, do que a monotonia do trem.

Triste pensar que ninguém vê beleza nestes lugares singelos, mas ao mesmo tempo é bom pensar que tenho essa imensidão "só para mim", e se eu quisesse mesmo descer teria esse monte de possibilidades de desfrute para no máximo eu e minha família. Falo isso porque tenho certeza que as raras pessoas que vivem no local também não devem achar graça nenhuma. Mas para mim essa paisagem aparentemente sem graça poderia se transformar numa espécie de éden particular, e eu, Adão com sua Eva e um bando de filhos para povoar o paraíso que só eu acho graça.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Sapera, o "encantador" homem das serpentes


Desde criança ficava louco toda vez que via em algum filme ou documentário, ou mesmo em livro a figura do encantador de serpentes, com aquela flauta que magicamente fazia com que a cobra ficasse movimentando-se como se estivesse sob um domínio misterioso. Gostava do som, que lembra um pouco o som do shennai, instrumento de sopro indiano que necessita de paleta.

Logo nos nossos primeiros dias de Rishikesh, ouvimos aquele som alucinante vindo de dentro do pátio de um ashram. Assim como os ratos no conto do flautista de Hamelin, fomos seguindo o som daquela flauta até encontrarmos pela primeira vez aquela figura interessante.
De cara gostamos de tudo, das suas roupas, de sua flauta decorada num estilo cigano, o cesto com a cobra e especialmente sua postura humilde. Sapera é incapaz de pedir dinheiro, atitude que te deixa mais a vontade, para se relacionar de forma mais aberta. Não me lembro exatamente em qual encontro o Damião teve a idéia de aprender a fabricar flauta been e tocar ( ele já trabalhou com construções de instrumentos musicais antes ) mas, devido a isso, acabamos por nos aproximar mais dele e da família, pois meu irmão ia com as crianças para a casa do Sapera no final de seu expediente, para tomar as lições de como fazer a flauta e como tocá-la.

Pode parecer estranho falar de expediente quando o trabalho de uma pessoa se trata de encantar serpentes, mas pasmem, descobri que ele tem carteira de encantador de serpentes e tudo, com autorização do governo indiano. Nunca imaginei que pudesse existir esse tipo de licença, só na Índia mesmo. Esse tipo de coisa, ajuda a evitar que surjam falsos encantadores.
Por tradição, essa arte passa de pai para filho, e só os homens podem aprender. Se o encantador for sério, vai ser também um curandeiro, ou pelo menos saber tratar ou curar picadas de cobra. Eles tem uma pedra especial para extrair o veneno da serpente que acreditam ser mágica, herdada de pai para filho, e, junto dela, utilizam ervas para tratar os ferimentos e combater a peçonha.

Na verdade, o ato de "encantar" serpentes consiste em capturar a atenção da cobra através do movimento. Como o animal é surdo, só pode perceber a vibração do som. Já li em algum lugar, que eles passam urina de rato na ponta das flautas, para atrair o olfato da serpente e mantê-la em alerta.

O fato é que o homem fazia uma "dança" muito louca com o corpo, agachado na posição de cócoras enquanto tocava a flauta.
Outro detalhe importante é que o sujeito pode ser encantador de serpentes e ser péssimo músico, o que não era o caso do Sapera, que pelo pouco que entendo e pude perceber, conhece de ragas, as peças clássicas musicais indianas, e de mantras.


Sapera morava numa casa feita de pedaços de pau e lona de plástico, uma construção precária como vemos nas favelas do Brasil. Como ele é de família cigana do Rajastão, esse tipo de construção é fácil de desmontar e montar em qualquer lugar. Dentro de sua casa fomos muito bem recebidos por sua família, mulher, filhas e duas cobras, que dormem num cesto em cima da cama com eles. As cobras fazem parte da família.

Quem quase entrou para a família também foi o Damião, que andou se engraçando pela filha mais velha de Sapera. O pior é que surgiu mesmo um clima romântico, aparentemente avalisado pelo próprio pai, que estava a fim de casar a filha logo. Mas acabou que a coisa não foi para a frente, damião não ficou na Índia, não trouxe a moça e tudo ficou por isso mesmo, no plano platônico. Ainda bem, já pensou ter um sogro encantador de serpentes? Se você aprontar alguma, pode acordar com uma serpente na cama...

Infelizmente a profissão de encantador de serpentes é algo que vai se tornando cada vez mais rara, e não faz a cabeça de nenhum jovem indiano. A maldita globalização vai mandar essas figuras para algum museu do esquecimento e no futuro as pessoas só vão saber o que é isso através do google ou documentários.





quinta-feira, 18 de junho de 2009

E por falar em saudade...




Estamos sempre com saudade de alguma coisa...
Um momento, uma pessoa, uma comida...
Acho que tudo bem, se estivermos satisfeitos com a vida atual ...
Saudade é sinal de bons momentos, bons encontros, bom passado...
Lembrar do passado é bom para realizar um bom presente.

Diferente da atitude daquelas pessoas nostálgicas e melancólicas, que nunca estão felizes com o agora.




"Bons tempos eram aqueles..."

quarta-feira, 17 de junho de 2009

I know It´s only rock ´n roll


Que emoção que foi quando avistamos aquela figurinha de meio metro de altura, rebolando mais que o Ney Matogrosso, com trejeitos e bocas do líder secular dos Stones. Descobrimos o Mick Jagger nepalês, em carne e osso. Tio Mick andou aprontando as suas lá pelas bandas do himalaya. Tenho certeza, esse molequinho só pode ser filho dele. Infelizmente, e como sempre, estávamos despreparados para filmar ele dançando e piscando com suas caretas fantásticas, uma pena, pois o negócio mesmo era o movimento, ele era puro movimento. Antes da dança, ele fazia um show de asanas ( tudo bem pessoal, sem mau humor, eu sei que vivo falando mal disso) de deixar qualquer um torto só de ver. Tenho certeza que ele tem sangue de minhoca misturado com o do Mick.



Infelizmente, devido aquele típico mau humor de muitos gringos, bancado por um discurso vazio de base marxista, ninguém dá grana nenhuma para ele. Apesar do show fantástico, as pessoas se recusam a dar dinheiro para qualquer um nas ruas, muitas vezes deixando de analisar as situações separadamente. Mas é isso aí, dinheiro para um mini-artista de rua é "financiar a miséria", mas deixar os cofres dos inúmeros gurus e mestres picaretas que tem aqui pela Ásia abarrotados, isso pode. A iluminação tem um preço, mas esse assunto dá muito "pano prá manga", então deixo vocês com o sensacional "gingado sacana" do pequeno Jagger nepalês.

domingo, 7 de junho de 2009

Os mergulhos no Ganga




Uma curiosidade que me assombrava... qual a sensação de um mergulho no Ganga?


Sempre perguntava isso para as pessoas que passaram por esta experiência mas ninguém conseguia me explicar... só comentários obscuros, tipo "Nossa!..."; "Mágico"... "Espiritual"...


O que só aumentava ainda mais meu preconceito em relação à veracidade dessa "transcendental experiência". É claro que se você já vai com mil idéias pré-concebidas de que é especial, será especial, óbvio! A não ser que uma fatalidade ocorra, tipo um afogamento, como aconteceram algumas vezes, inclusive enquanto estávamos lá.


Mas uma situação inusitada dessas dificilmente vai ocorrer se você não é ambicioso em querer cruzar o Ganga de ponta a ponta, e se contenta com alguns simples mergulhos . Alguns mergulhos são mais complexos que outros, dependendo da criatividade e da excentricidade do mergulhador (não se esqueça que estamos falando de um rio na India... tudo é possível), já vimos cada mergulho exótico, alguns parecendo sessão de descarrego ou espetáculos teatrais.


Mas o esperado por todos é que"seja algo especial"! O contrário vai contra todas as expectativas, até mesmo daqueles que se dizem céticos, pois mesmo não aceitando já estão envolvidos pelo inconsciente coletivo, e mesmo negando também já possuem alguma pré-concepção.


Enfim, qual é a sensação de mergulhar no Ganga?

Primeiro mergulho: tentei me destituir de idéias tendenciosas, opniões e preconceitos e entrar com a mente o mais aberta possível. Qual a primeira impressão? GELADO!!! MUITO GELADO!!! Não dá para pensar em nada mais que isso! Mau humor, "bad vibration", realmente nada resiste a um choque térmico desses... A sensação de leveza após o choque é indiscutível. Muito boa. A ponto de, mesmo com o trauma do frio, você querer enfrentá-lo de novo... e de novo... e de novo.

Até que chega um dia, depois de muitos mergulhos, o frio ainda existe mas já não é algo relevante, e acontece só nos primeiros instantes . E a partir daí começamos a curtir de verdade, sem esforço, passando a explorar mais sensações... aumentando as experiências na água, arriscando práticas inusitadas.

O vício do Ganga! Todos os dias tínhamos que tomar nossa dose diária de Ganga. Não fazíamos como os hindus, dando os três ou sete mergulhinhos sequenciais, mas como autênticos mineiros nos esbaldando na "praia". Ensaios de natação, travessuras até as "ilhas" de pedras, as chatíssimas mas inevitáveis brincadeiras de empurrar na água, jogar água fria, brincadeiras com a areia e até mesmo "cerimônias religiosas" fizemos, ao nosso jeito, sem "ritualísticas e retorísticas", sem formalidades e convenções...

O "batismo" do pequeno Ravi no colo de "Padim Damião", com uma oração curta, simples e sincera... o "casamento" de Tarzan e Jane (depois falo porquê Tarzan), orando e celebrando nossa união em mergulhos de limpeza e fé... até a cerimônia de jogar o dentinho de leite da Florinha com pedidos e tudo, fizemos no Ganga, além de outras vivências pagãs...

"Nossa", "mágico", "espiritual"... o mergulho no Ganga é tudo isso mesmo e muito mais.

Infelizmente está cada vez mais sujo, e não sei até quando ele vai sobreviver...

O fato é que essa "moça", mesmo sendo muito fria, deixou um calor eterno em nossos corações, na forma de muitas recordações.


Cris


O Ganga


Muitas postagens merece esse companheiro especial de viagem...
Amigo marcante..
Palco de muitos momentos especiais, mergulhos inesquecíveis...
Realmente o Ganga tem um algo mais de sacralidade!
Não é para menos... um bilhão de pessoas enviando-lhe emissões mentais, exaltando sua divindade e cultuando-o como Deus, com certeza lhe imprime algo de especial.
Não acredito que o Ganga seja Deus, mas é algo que Ele fez quando estava com muita inspiração!
É difícil não lembrar do Criador na presença dessa grande obra.
Penso que certas obras Deus fez por vaidade, para a gente ter certeza da sua existência e se lembrar dela... Uma dessa obras com certeza é o Ganga.
Outra é o Himalaya... (mas isso é assunto demais para agora)
Cris