segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Nada no Lago



Não sei dizer o porquê, mas essa viagem à Índia e Nepal me remete a muitos sonhos de infância e princípios de juventude. Parece que muitas imagens já estavam programadas para acontecer. É como se a idéia estivesse escondida lá no fundo dos quintais da mente, e quando as cenas se desenrolam por aqui, é familiar como se eu estivesse vendo um filme embaçado. Mas não estou me referindo à lembranças de vidas passadas, que é um "lugar comum" nos relatos de experiências das pessoas que se interessam ou que vão à Índia. Na verdade, estou cansado desse papo de "acho que já vivi na Índia no passado", ou "já tive alguma encarnação na Índia". Esse tipo de especulação já é tão "batida" e repetida que às vezes dá até uma certa preguiça de conversar com as pessoas "místicas" que se interessam por Yoga e cultura indiana. Afinal, quem é que não reencarnou na Índia? A esmagadora maioria das pessoas que transitam no "mundo" do Yoga já. Eu mesmo conheço milhares de "Yoguis reencarnados".

Quando falo de imagens familiares, estou falando de algo que faz sentido para minha vida, e de minha família. Talvez sejam familiares porque na Índia e no Nepal, mais do que nunca, temos liberdade absoluta para sermos nós mesmos. Estando sem trabalho e sem obrigações que não sejam os deveres a que nos propomos, estamos livres de regras impostas pelos outros ou pelas situações e, sendo assim, ninguém nos coloca obrigações sem nossa vontade ou permissão.

Teve dias em que realmente me recusei a ser submetido a qualquer tipo de ordem ou regra, enquadrar-me em qualquer tipo de compromisso ou ficar preso em qualquer armadilha de horário ou tempo. Dia de subir montanha, dia de ficar no Ganga, de ficar com as crianças na praia de areia branca. E um desses inesquecíveis compromissos comigo ou conosco mesmo eram os maravilhosos entardeceres do lago Phewa no Nepal.


Quando pegávamos o bote, passávamos toda a tarde no barco, após o almoço até o anoitecer. Às vezes almoçávamos no próprio barco, levando lanche para um pic nic. Dias de ócio criativo, de ficar deitado olhando o formato das nuvens que às vezes aparecem nessa época como lençóis, que vão tingindo-se de cores à medida em que o sol vai mudando sua posição no céu. Dias de observar a revoada dos pássaros aquáticos. De ficar no meio do lago a deriva, já que o lago quase não tinha corrente e o seu ritmo também era preguiçoso.

Ravi sempre dormia entre as mantas e xales que levávamos pois, apesar do sol, ainda era bem frio e ficava gelado no final da tarde. Estávamos em pleno inverno do Nepal. E Damião virou o remador de todas as horas, pois pegou logo o jeito dos difíceis remos do bote nepalês, tão diferente das canoas e caiaques nacionais, ou pelo menos aos que estávamos acostumados a usar nas baías de Angra.




Uma vez aportamos no lado selvagem do lago e vimos uma manada de bois e búfalos, como também currais de pesca bem primitivos próximos à margem. Em outra oportunidade, a viola e a cantoria também fizeram parte da embarcação. Mas, basicamente, o melhor era mesmo ficar à toa, olhando para as nuvens.



O lago era o local onde digeríamos as experiências da viagem, onde conversávamos a respeito do povo, das diferenças culturais, do estrago que a vida moderna faz no mundo das pessoas e nas vilas. Mas, principalmente, era na placidez do lago que podíamos planejar com tranquilidade os próximos "saltos" e "vôos" e definir para onde iríamos a partir dali, já que sempre voltávamos para Pokhara após viajar para alguma vila ou cidade. Lá era nosso pouso, o porto seguro onde podíamos nos preparar e descansar antes de pegar novamente a estrada. E era no lago que decidíamos e calculávamos os prós e contras de cada aventura, os riscos e valores de cada loucura. Era lá que, renovados, sentíamos que poderíamos ir para qualquer lugar, pois nada nos limitava. Muito ímpeto para viajar e conhecer, crianças fortes que aguentavam o "tranco", e principalmente a união do grupo, onde todo mundo falava a mesma língua.

Dentro do barco, viajávamos em nossas especulações. Se iríamos para uma vila devotada à Deusa Kali, ou se íamos para um parque andar de elefantes e ver vida selvagem. Conhecer templos ou ir para as montanhas; peregrinar pelas rotas sagradas ou alugar uma casa nas vilas e passar um tempo vivendo como os aldeões. Lá escolhíamos qual seria a rota que poderia proporcionar mais conhecimentos e experiências para os adultos e crianças da trupe.

Mas o lago não era só um local de decisões e conversas. A natureza ao redor é maravilhosa, pois é cercado por montanhas cobertas de verde, e grande parte é quase selvagem e ainda não habitada pelos homens. A partir de dois longos canais ele é ligado a dois outros lagos menores, ainda mais selvagens. A margem que é circundanda pela cidade também é linda, pois o nepalês, bem mais esperto que o indiano, cuida para manter os jardins públicos ao redor limpos e bem bonitos.



Nunca posso esquecer que foi no lago que vimos os himalaias pela primeira vez de forma satisfatória. Na Índia e Nepal, durante o inverno, impera uma bruma constante no ar e, dependendo do horário, muitas vezes fica bem difícil de enxergar em maiores distâncias ou ter uma visão clara das montanhas. Quando estivemos pela primeira vez no meio do lago, tivemos a visão dos himalaias alaranjados pelo pôr do sol, atrás das montanhas verdes, e essa foi a primeira vez que tivemos um vislumbre decente pois, até então, só víamos a ponta do pico Machapucchare e pedaços insignificantes dos outros picos da cadeia. Depois até tivemos a oportunidade de visões magníficas das cadeias montanhosas, mas aquela imagem foi a primeira e, por isso, marcante na viagem.

O desejo de conhecer o lago Phewa foi certamente uma das maiores motivações para interromper os estudos na Índia e ir para o Nepal e também um dos motivos principais pelo qual preferi o Nepal à Índia, apesar de no Nepal não ter desfrutado de estudos formais.

Apesar de nosso carinho e veneração especial pelo rio Ganga, o Phewa Tal, antigo lago sagrado para os povos que viviam na região de Pokhara no passado, acabou assumindo ares de sacralidade para nós também , sobretudo o sagrado compromisso com a mente livre, leve e solta.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

"Deixa cair velho"

Relacionar-se com as pessoas é sempre um desafio. Digo com as pessoas, porque lidar com os bichos, com as árvores, com as montanhas, como fazem os ermitões, me parece algo menos complexo. O maior desafio nesse caso seria o de enfrentar o silêncio e a harmonia da natureza em contraste com os nossos desarranjos e tagarelices mentais.

Mas quando o assunto é em relação aos seres humanos, no que subentende-se que a "racionalidade" está presente, estamos falando do intercâmbio de neuroses, fobias, caprichos e esquisitices dos mais variados níveis de criatividade e especificidade. A individualidade humana é um arcabouço de surpresas, uma verdadeira caixa de pandora.

Para quem está em busca de crescimento espiritual - e hoje em dia com esse modismo quem não está ? - a meu ver não há oportunidade melhor do que a convivência diária. O mau humor do marido, o adolescer do filho, a insatisfação do vizinho por "não sei o quê", que o faz descontar em tudo que é verde, nas pobrezinhas das árvores (não sobrou nenhuma!) e nos milhares de passarinhos que enjaula e ainda temos que escutar, calados (política da boa vizinhança), que adora os tais bichos.

Retiro espiritual para encontrar o Ser? Fala sério! Nesse sentido a Índia é um lugar fertilíssimo para uma "retirada espiritual". Talvez nenhum local da Terra tenha tantas oportunidades de investigação do comportamento humano. Uma simples encomenda de algum produto ou serviço pode se transformar em uma grande experiência psicológica e revelar inúmeras possibilidades do raciocínio humano em sua formas mais exóticas e inusitadas.

As relações comerciais na Índia são sempre ricas fontes de observação da atuação humana, principalmente no que ela tem de mais confusa, complexa e extravagante . Nunca sabemos até onde o indiano irá exercer sua "criatividade", e nem o que esperar de nossa reação. Qualquer coisa bizarra pode acontecer: você encomenda um pavão e eles te trazem um elefante, como se fosse a mesma coisa. Falam um preço e segundos depois o aumentam, e você pergunta o por quê, eles te respondem com um sorriso amarelo e uma balançadinha de cabeça (a tal balançadinha que em tese quer dizer sim, mas que pode ter qualquer ou nenhum significado: sim, não, não sei, talvez, não falo inglês ...) De repente, um funcionário da estação de trem cisma que seu visto não tem uma tarja dourada, e lhe impede de comprar o ticket, sem se dar conta do quanto sua implicância injustificada poderá complicar seus planos e compromissos.

Como realmente QUALQUER COISA pode acontecer em se tratando do "modus operandi" da mente do indiano, podemos nessa hora nos defrontar com os mais recônditos e obscuros escaninhos de nossa personalidade, revelando nossas faces mais sombrias ou ainda desenvolvendo habilidades especiais - até então desconhecidas ou simplesmente não utilizadas devido à falta de situações oportunas - tipo anular totalmente as expectativas e aceitar qualquer resultado; paciência e tolerância em grau máximo; persistência quase heróica para não "chutar o pau da barraca" de vez.

Bom, acho que não há dúvidas de que as relações inter-pessoais são ricas fontes de conhecimento, sobretudo o auto-conhecimento. Muito mais eficaz que muitos "workshops" que estão à disposição por aí. E ainda é gratuito, ou melhor, depende da atenção do praticante, o que infelizmente não é pouca coisa em se tratando de uma sociedade altamente automatizada como a nossa. O tal "botão" do piloto automático está sempre acionado (veja o filme Click).

Estamos ainda nos pródomos de um convívio humano mais sofisticado em termos de sentimento. Paradoxalmente, quando digo sofisticado, estou falando de simplicidade, ao contrário do que podem pensar muitos. Relações mais verdadeiras e profundas implicam em reduzir as complicações, os subterfúgios que nos afastam daquilo que é real... ("A verdade está na caspa e não no shampoo..." como diz uma canção); destruir os muros altos das convenções, abrir mão das máscaras, hoje ainda mais reforçadas na era da eletrônica, pois agora temos as máscaras "cybernéticas" ("A eletrônica está substituindo o coração" - Baianos e os Novos Caetanos); quebrar as regras e extinguir os rótulos de etiqueta social e "espiritual", para ser apenas um alguém relacionando-se com outro alguém.

Fato é que até o Vedanta - filosofia que estudo, admiro e com a qual afinizo, diga-se de passagem, está sendo utilizada como subterfúgio espiritualmente aceito e louvado para "fugir da luta", do "bom combate". Confesso que quando encontro aquele olhar vazio, do tipo "não sou mais deste mundo", aquele tom forçosamente equânime na voz, e uma atitude blazê de quem pensa estar se relacionando através do "Ser", como Ser e com o Ser - mas que na verdade não compreendeu bulhufas a respeito de ser nada - nestas horas fica difícil não apertar o botãozinho do piloto automático a ter que escutar as pérolas do vedanta sendo porcamente "parafraseadas".

Voltando aos relacionamentos, quero dizer que mesmo com todas as dificuldades e percalços, são preciosos e inesquecíveis os momentos em que relaxamos e deixamos cair as armaduras. Quando nos dispomos a ser sinceros com nossos sentimentos, inclusive com o nosso medo, sem tentar camuflá-lo com recursos de linguagem ou fugir pela tangente. Quando experimentamos botar o coração na cavalaria de frente e desvendar o tal do "sofrimento", que muitas vezes vem com o próprio medo de sofrer. ("O medo do sofrimento é o próprio sofrimento").

Deixamos de ficar confinados às nossas formas e "fôrmas" de concreto mentais, abrindo mão do próprio conforto em prol da experiência real da vida, pois, dentro dessa prisão de segurança, seguimos "morrendo" ao não aproveitar as oportunidades de melhores encontros, de momentos vivos, de carne, osso, coração, e do Ser também, por que não?

Se pudéssemos por vezes agir nos relacionamentos, tal qual as crianças, que brincam juntas sem perguntar nomes, sobrenomes, títulos e graduações, pois nada disso é útil e importa à brincadeira. Se déssemos mais valor aos momentos divertidos como elas dão, e menos ao que chamamos de "responsabilidades".... se pudéssemos ser menos "prudentes" e mais autênticos... menos sisudos e mais relaxados... se conseguíssemos expôr nossas "pirraças", ao invés de guardá-las... se fôssemos menos preocupados com nossa imagem e pudéssemos dançar quando sentíssemos vontade, ou usar livremente a espontaneidade sem especulações sobre a opinião alheia.

Conseguiríamos transformar momentos “corriqueiros” em momentos especiais. E assim "simplificar" o enfoque dos olhos para enxergar em "pequenas" coisas, oportunidades de uma vida feliz.

"A morte... a falta de sorte. Eu tô vivo, Paulinho. Vivo sem norte, vivo sem sorte, eu vivo. Aí a gente encontra um cabra na rua e pergunta: tudo bem? E ele diz, tudo bem. Não é um barato Paulinho? É um barato." ( os mesmos Baianos e Novos Caetanos)

Cris

P.S: Apesar do título ser uma expressão usada nos anos 60, aqui me refiro a uma fala do desenho animado Mógli de Walt Disney, quando Rei Louie, o líder dos macacos arruaceiros, solta a frase para o urso Balu, um personagem desencanado que, pela sua filosofia de vida, tornou-se um dos nossos ídolos. Em uma de suas cenas geniais, ele se descontrola com o balanço da música do "inimigo" e, ao invés de lutar, ele dança com o rei dos macacos.

sábado, 18 de julho de 2009

A evolução dos bichos, o retrocesso do homem


Aqui estou vendo coisas muito estranhas: Outro dia uma vaca rosnou para mim, os cachorros saltam para lugares onde um homem nao consegue saltar, os macacos só faltam juntar as mãos e falar namastê quando passamos. E os homens, não vou nem falar. Eu acho que um ser, quando chega no cúmulo da iluminacãoo, comeca a voltar. As vacas estão virando cachorro, os cachorros virando macacos e os macacos, virando homens. Mas o homem aqui na Índia com a questão do lixo, nem vaca é mais. É um corvo ou um pombo...Aqui, em qualquer lugar independemde de como seja, tem rios e atpe mares de lixo espalhado para todos os lados, lixo de todas as formas e lixo que as vacas, os cachorros e até os macacos ingerem e morrem. É o país deles que tambem está morrendo. Até agora só vi um indiano que liga para isto, eles não fazem por maldade ou sacanagem, eles fazem por total costume, as pessoas mais cultas comem algo e jogam o plástico ou seja o que for no chão. Mas voltando ao assunto, só vi um indiano que liga para isto, o dono da casa aonde estamos ficando, ele faz catagem de lixo, põe cartaz pela cidade e muito mais. Mas não pensem que a india e só aquela confusão de vacas, motos, carrinho, carros, macacos e tudo mais, que se vê nas imagens exibidas na TV e no PC. Isto é só em Delhi(capital) e em outras cidades maiores. Aqui em Rishkesh e em outros lugares da Índia é mais tranquilo. E até engracado, pois aqui muitos gringos recolhem o lixo. A ironia da história: Os estrageiros limpando o país e os nativos sujando tudo de novo! hehe! Bom, mas o lixo não se compara com a quantidade de coisas boas que tem aqui, quer dizer se compara em quantidade, mas nao em importância...


Flora


P.S: Esta postagem foi retirada do blog da Flora, www.blogbordo.blogspot.com

terça-feira, 14 de julho de 2009

New indian way of life



Quando pensamos na Índia, imediatamente nossa mente remete à imagens de templos e da religiosidade do povo. Pensamos em saris e roupas multicoloridas, comidas exóticas, cheiro de incenso e animais como elefantes, najas e pavões. Quase sempre o lugar comum, ou pensamentos mais frequentes são as imagem dos ghats à margem do Ganges, das múltiplas manifestações religiosas e dos pujas.

Mas as pessoas, mesmo algumas que já moraram na Índia , muitas vezes não refletem à respeito de como está hoje em dia o desenvolvimento da espiritualidade indiana.





Sim, ainda existe uma tradição religiosa na Índia. Aglutinada nos Ashrams -me refiro aos verdadeiros e não às "pousadas" que mantém esta denominação para garantir seu quinhão do governo ou ganhar mais uns tostões dos turistas - demonstrada nos rituais, pujas, aratis e em outras tantas manifestações, que às vezes mais me parecem culturais do que essencialmente "espirituais". Se são meramente "mecânicas" ou imbuídas de um sentimento verdadeiro de religiosidade, não posso precipitar-me em dizer - fato é que já vi um brâmane interrompendo um puja que estava conduzindo para atender ao celular! Mas isto é apenas um fato, não suficiente para criar uma teoria.


Tive a oportunidade de adentrar e me misturar com o povo indiano, o que tento sempre fazer quando viajo para algum lugar. Perceber como vivem, participar do seu cotidiano, perguntar, tentar entender a forma como pensam as pessoas daquele lugar. Acho isso o mais interessante e importante para a minha experiência e crescimento.



E nessa viagem, o que pude constatar foi que a nova Índia está mais com os olhos voltados para o "American way of life" do que para a sua tradição espiritual. O diálogo entre os jovens, ou dentro das famílias, sempre manifestando uma grande preocupação com o "development", o desenvolvimento econômico da Índia. Exaltam seus estudos, o grau escolar das crianças, a qualidade do seu "inglês", as pomposas roupas ocidentais que vestem. As conversas geralmente orbitam em torno dessas questões.

Money, money, money, como a mola condutora dos hábitos e propulsora do crescimento. E é dentro dessa base de valores que as crianças indianas estão crescendo. A relação que algumas destas possuem com os estrangeiros pelo menos, assemelha-se à dos pais, que muitas vezes nos "limitam" à notas ambulantes de dólares. E quando o enfoque é primordialmente esse, fica muito difícil afinizar-se e estabelecer amizades e relacionamentos sob bases mais verdadeiras e profundas. Quando menos esperávamos, lá vinha uma abordagem sobre o dinheiro.

Como em todos os lugares do mundo, o lado negro também está presente na Índia. Não são só flores, aratis, yoga e gente espiritualizada que se encontra por lá, como se iludem muitos ainda. Ao contrário, permito-me dizer que a "Índia espiritual" está morrendo. Desonestidade, mentiras, descompromisso com a palavra, foram atitudes que me chocaram ao encontrar em proporções tão elevadas. Aspirações monetárias disfarçadas em sorrisos, "namastês" e "hari oms" aos montes.

Pelo pouco que pude observar nos hábitos do povo indiano contemporâneo, as conclusões que tiro são que as perspectivas de futuro na Índia são as piores possíveis, em se tratando de valores espirituais. E é com essa mancha no coração que voltei para o Brasil, ao ver uma cultura tão rica e valiosa que, por ironia do "destino", agora está cada vez mais crescendo e ganhando espaço no Ocidente mas que lá, está escorrendo pelo esgoto que esse mesmo Ocidente deixa por lá. (Era de Kali, o que fazer não é ?)

Se ainda amo a Índia? Ainda amo muito a Índia e volto lá sempre que for possível. Amo sua cultura antiga, suas filosofias milenares, os aratis, os cantos, sua arte, e até seu povo, mesmo com todas as indiossicrasias e "desvios". Seu sorriso no rosto mesmo quando disputando - ou melhor seria dizer em se tratando dos indianos - compartilhando o escasso espaço dentro do ônibus ou carregando toneladas de peso nas costas sob o sol quente. Amo o bom humor indiano (aqui descosiderando os funcionários ferroviários), às vezes até excessivo e descabido. Amo sua pacificidade (às vezes camuflada), sua gentileza real, o carinho e receptividade com nossas crianças.


Amo a Índia como uma mãe ama um filho (ou pelo menos deveria amar): INCONDICIONALMENTE. E deixo a Índia como uma mãe que deixa um filho em más companhias. Com o coração chorando e as mãos limitadas.

Ou amo como mais uma filha dessa grande Mãe Índia.

E volto para meu "outro" país com a saudade apertando no coração. Mas com os olhos abertos à sua decadência e regresso espiritual. O avanço econômico é importante e necessário, óbviamente e principalmente considerando a situação de miséria na Índia. Mas não esquecer nunca de cuidar dos assuntos "do céu". Se não, é como cuidar do corpo e negligenciar a alma.

Cris

domingo, 5 de julho de 2009

Pela janela do trem

Há muito tempo que eu não andava de trem. A paisagem comum na Índia é monótona e não sei dizer muito bem se é porque o tempo parece parar ou por serem quilômetros e mais quilômetros de planícies, pastos e plantações, e por vezes terras áridas como os cerrados e desertos. Quem é ansioso nunca poderia andar de trens comuns por aqui . No Nepal andávamos sempre de ônibus, e lá as estradas são sinuosas com paisagens cheias de montanhas. Além do fato de você poder viajar sobre o teto, o que muda a noção de tempo e a perspectiva de percepção da viagem, já que é bem mais emocionante.

Fico olhando pela janela estes lugares que ninguém quer visitar e sinto constante vontade de descer do trem, caminhar pela paisagem bucólica, descansar debaixo da sombra de alguma árvore.

Poderia ficar dias nesses lugares que não interessam a ninguém. Fazer pic-nic com as crianças, brincar de subir nas poucas árvores, brincar de esconder nas fileiras das plantações.

Dormir ao relento em lugares assim não tem coisa melhor. Nada para perturbar o silêncio que reina de noite e de dia.

Penso que essas "terras de ninguém", são o extremo oposto dos Taj Mahals e "praias douradas de Goa". Sábia decisão a de não ir conhecer esses lugares. Provavelmente tirariam mais a minha paciência, com seu turbilhão humano e futilidades turísticas, do que a monotonia do trem.

Triste pensar que ninguém vê beleza nestes lugares singelos, mas ao mesmo tempo é bom pensar que tenho essa imensidão "só para mim", e se eu quisesse mesmo descer teria esse monte de possibilidades de desfrute para no máximo eu e minha família. Falo isso porque tenho certeza que as raras pessoas que vivem no local também não devem achar graça nenhuma. Mas para mim essa paisagem aparentemente sem graça poderia se transformar numa espécie de éden particular, e eu, Adão com sua Eva e um bando de filhos para povoar o paraíso que só eu acho graça.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Sapera, o "encantador" homem das serpentes


Desde criança ficava louco toda vez que via em algum filme ou documentário, ou mesmo em livro a figura do encantador de serpentes, com aquela flauta que magicamente fazia com que a cobra ficasse movimentando-se como se estivesse sob um domínio misterioso. Gostava do som, que lembra um pouco o som do shennai, instrumento de sopro indiano que necessita de paleta.

Logo nos nossos primeiros dias de Rishikesh, ouvimos aquele som alucinante vindo de dentro do pátio de um ashram. Assim como os ratos no conto do flautista de Hamelin, fomos seguindo o som daquela flauta até encontrarmos pela primeira vez aquela figura interessante.
De cara gostamos de tudo, das suas roupas, de sua flauta decorada num estilo cigano, o cesto com a cobra e especialmente sua postura humilde. Sapera é incapaz de pedir dinheiro, atitude que te deixa mais a vontade, para se relacionar de forma mais aberta. Não me lembro exatamente em qual encontro o Damião teve a idéia de aprender a fabricar flauta been e tocar ( ele já trabalhou com construções de instrumentos musicais antes ) mas, devido a isso, acabamos por nos aproximar mais dele e da família, pois meu irmão ia com as crianças para a casa do Sapera no final de seu expediente, para tomar as lições de como fazer a flauta e como tocá-la.

Pode parecer estranho falar de expediente quando o trabalho de uma pessoa se trata de encantar serpentes, mas pasmem, descobri que ele tem carteira de encantador de serpentes e tudo, com autorização do governo indiano. Nunca imaginei que pudesse existir esse tipo de licença, só na Índia mesmo. Esse tipo de coisa, ajuda a evitar que surjam falsos encantadores.
Por tradição, essa arte passa de pai para filho, e só os homens podem aprender. Se o encantador for sério, vai ser também um curandeiro, ou pelo menos saber tratar ou curar picadas de cobra. Eles tem uma pedra especial para extrair o veneno da serpente que acreditam ser mágica, herdada de pai para filho, e, junto dela, utilizam ervas para tratar os ferimentos e combater a peçonha.

Na verdade, o ato de "encantar" serpentes consiste em capturar a atenção da cobra através do movimento. Como o animal é surdo, só pode perceber a vibração do som. Já li em algum lugar, que eles passam urina de rato na ponta das flautas, para atrair o olfato da serpente e mantê-la em alerta.

O fato é que o homem fazia uma "dança" muito louca com o corpo, agachado na posição de cócoras enquanto tocava a flauta.
Outro detalhe importante é que o sujeito pode ser encantador de serpentes e ser péssimo músico, o que não era o caso do Sapera, que pelo pouco que entendo e pude perceber, conhece de ragas, as peças clássicas musicais indianas, e de mantras.


Sapera morava numa casa feita de pedaços de pau e lona de plástico, uma construção precária como vemos nas favelas do Brasil. Como ele é de família cigana do Rajastão, esse tipo de construção é fácil de desmontar e montar em qualquer lugar. Dentro de sua casa fomos muito bem recebidos por sua família, mulher, filhas e duas cobras, que dormem num cesto em cima da cama com eles. As cobras fazem parte da família.

Quem quase entrou para a família também foi o Damião, que andou se engraçando pela filha mais velha de Sapera. O pior é que surgiu mesmo um clima romântico, aparentemente avalisado pelo próprio pai, que estava a fim de casar a filha logo. Mas acabou que a coisa não foi para a frente, damião não ficou na Índia, não trouxe a moça e tudo ficou por isso mesmo, no plano platônico. Ainda bem, já pensou ter um sogro encantador de serpentes? Se você aprontar alguma, pode acordar com uma serpente na cama...

Infelizmente a profissão de encantador de serpentes é algo que vai se tornando cada vez mais rara, e não faz a cabeça de nenhum jovem indiano. A maldita globalização vai mandar essas figuras para algum museu do esquecimento e no futuro as pessoas só vão saber o que é isso através do google ou documentários.





quinta-feira, 18 de junho de 2009

E por falar em saudade...




Estamos sempre com saudade de alguma coisa...
Um momento, uma pessoa, uma comida...
Acho que tudo bem, se estivermos satisfeitos com a vida atual ...
Saudade é sinal de bons momentos, bons encontros, bom passado...
Lembrar do passado é bom para realizar um bom presente.

Diferente da atitude daquelas pessoas nostálgicas e melancólicas, que nunca estão felizes com o agora.




"Bons tempos eram aqueles..."

quarta-feira, 17 de junho de 2009

I know It´s only rock ´n roll


Que emoção que foi quando avistamos aquela figurinha de meio metro de altura, rebolando mais que o Ney Matogrosso, com trejeitos e bocas do líder secular dos Stones. Descobrimos o Mick Jagger nepalês, em carne e osso. Tio Mick andou aprontando as suas lá pelas bandas do himalaya. Tenho certeza, esse molequinho só pode ser filho dele. Infelizmente, e como sempre, estávamos despreparados para filmar ele dançando e piscando com suas caretas fantásticas, uma pena, pois o negócio mesmo era o movimento, ele era puro movimento. Antes da dança, ele fazia um show de asanas ( tudo bem pessoal, sem mau humor, eu sei que vivo falando mal disso) de deixar qualquer um torto só de ver. Tenho certeza que ele tem sangue de minhoca misturado com o do Mick.



Infelizmente, devido aquele típico mau humor de muitos gringos, bancado por um discurso vazio de base marxista, ninguém dá grana nenhuma para ele. Apesar do show fantástico, as pessoas se recusam a dar dinheiro para qualquer um nas ruas, muitas vezes deixando de analisar as situações separadamente. Mas é isso aí, dinheiro para um mini-artista de rua é "financiar a miséria", mas deixar os cofres dos inúmeros gurus e mestres picaretas que tem aqui pela Ásia abarrotados, isso pode. A iluminação tem um preço, mas esse assunto dá muito "pano prá manga", então deixo vocês com o sensacional "gingado sacana" do pequeno Jagger nepalês.

domingo, 7 de junho de 2009

Os mergulhos no Ganga




Uma curiosidade que me assombrava... qual a sensação de um mergulho no Ganga?


Sempre perguntava isso para as pessoas que passaram por esta experiência mas ninguém conseguia me explicar... só comentários obscuros, tipo "Nossa!..."; "Mágico"... "Espiritual"...


O que só aumentava ainda mais meu preconceito em relação à veracidade dessa "transcendental experiência". É claro que se você já vai com mil idéias pré-concebidas de que é especial, será especial, óbvio! A não ser que uma fatalidade ocorra, tipo um afogamento, como aconteceram algumas vezes, inclusive enquanto estávamos lá.


Mas uma situação inusitada dessas dificilmente vai ocorrer se você não é ambicioso em querer cruzar o Ganga de ponta a ponta, e se contenta com alguns simples mergulhos . Alguns mergulhos são mais complexos que outros, dependendo da criatividade e da excentricidade do mergulhador (não se esqueça que estamos falando de um rio na India... tudo é possível), já vimos cada mergulho exótico, alguns parecendo sessão de descarrego ou espetáculos teatrais.


Mas o esperado por todos é que"seja algo especial"! O contrário vai contra todas as expectativas, até mesmo daqueles que se dizem céticos, pois mesmo não aceitando já estão envolvidos pelo inconsciente coletivo, e mesmo negando também já possuem alguma pré-concepção.


Enfim, qual é a sensação de mergulhar no Ganga?

Primeiro mergulho: tentei me destituir de idéias tendenciosas, opniões e preconceitos e entrar com a mente o mais aberta possível. Qual a primeira impressão? GELADO!!! MUITO GELADO!!! Não dá para pensar em nada mais que isso! Mau humor, "bad vibration", realmente nada resiste a um choque térmico desses... A sensação de leveza após o choque é indiscutível. Muito boa. A ponto de, mesmo com o trauma do frio, você querer enfrentá-lo de novo... e de novo... e de novo.

Até que chega um dia, depois de muitos mergulhos, o frio ainda existe mas já não é algo relevante, e acontece só nos primeiros instantes . E a partir daí começamos a curtir de verdade, sem esforço, passando a explorar mais sensações... aumentando as experiências na água, arriscando práticas inusitadas.

O vício do Ganga! Todos os dias tínhamos que tomar nossa dose diária de Ganga. Não fazíamos como os hindus, dando os três ou sete mergulhinhos sequenciais, mas como autênticos mineiros nos esbaldando na "praia". Ensaios de natação, travessuras até as "ilhas" de pedras, as chatíssimas mas inevitáveis brincadeiras de empurrar na água, jogar água fria, brincadeiras com a areia e até mesmo "cerimônias religiosas" fizemos, ao nosso jeito, sem "ritualísticas e retorísticas", sem formalidades e convenções...

O "batismo" do pequeno Ravi no colo de "Padim Damião", com uma oração curta, simples e sincera... o "casamento" de Tarzan e Jane (depois falo porquê Tarzan), orando e celebrando nossa união em mergulhos de limpeza e fé... até a cerimônia de jogar o dentinho de leite da Florinha com pedidos e tudo, fizemos no Ganga, além de outras vivências pagãs...

"Nossa", "mágico", "espiritual"... o mergulho no Ganga é tudo isso mesmo e muito mais.

Infelizmente está cada vez mais sujo, e não sei até quando ele vai sobreviver...

O fato é que essa "moça", mesmo sendo muito fria, deixou um calor eterno em nossos corações, na forma de muitas recordações.


Cris


O Ganga


Muitas postagens merece esse companheiro especial de viagem...
Amigo marcante..
Palco de muitos momentos especiais, mergulhos inesquecíveis...
Realmente o Ganga tem um algo mais de sacralidade!
Não é para menos... um bilhão de pessoas enviando-lhe emissões mentais, exaltando sua divindade e cultuando-o como Deus, com certeza lhe imprime algo de especial.
Não acredito que o Ganga seja Deus, mas é algo que Ele fez quando estava com muita inspiração!
É difícil não lembrar do Criador na presença dessa grande obra.
Penso que certas obras Deus fez por vaidade, para a gente ter certeza da sua existência e se lembrar dela... Uma dessa obras com certeza é o Ganga.
Outra é o Himalaya... (mas isso é assunto demais para agora)
Cris



segunda-feira, 1 de junho de 2009

Dom Quixote contra os moinhos de vento


Quando se corre atrás de um sonho deve-se avaliar quais são os limites reais e aqueles criados pela mente. Avaliar com sinceridade, pois a mente encontra “razões que até a própria razão desconhece” para nos impedir de prosseguir adiante em nossos ideais.

Algumas dificuldades são realmente difíceis de transpor, como dobrar os ossos, atravessar paredes e vencer a gravidade. Mas até mesmo isso pode-se dar um jeitinho.

Outras situações nos parecem difíceis. Algumas distâncias nos parecem grandes, algumas montanhas parecem inalcançáveis, alguns objetivos impossíveis. Até o primeiro passo...

A partir dele, se desistimos nos primeiros obstáculos, se não levantamos nos primeiros tropeços, temos a ilusão de que nossos receios se concretizaram. “Eu sabia que isso ia dar errado”, “ Bem que me avisaram”.

É preciso ter pulso firme para não sucumbir aos primeiros fracassos e não encontrar mil e uma justificativas “prudentes” para desistir e não ceder a tentação de se entregar a um cômodo “entreguismo” e literalmente entregar o ouro para o bandido, sem uma luta das boas. Tendemos a sempre fugir das batalhas necessárias. Assim como Arjuna quis fazer fugindo à guerra que iria restabelecer a justiça. Todas as justificativas que ele encontrou eram válidas, “reais”, “justas”. Mas negavam o seu dever maior.

“ É preciso estar atento e forte” para não temer ou não deixar que o medo paralise os nervos, a ação, o pensamento e a intenção.

Mas creio que não existe satisfação mais poderosa do que a vitória após a persistência.

Cris e Rô

"It's all in your mind" *

Nossos limites são transponíveis.

Reais até o primeiro passo.

A partir daí percebemos que é tudo uma questão de ponto de vista....

De percepção.

Às vezes a distância me parece grande....




Cris

* George Harrison no desenho Yellow submarine

domingo, 31 de maio de 2009

Ironias da vida - Trocando de papéis


No trem de ida para Jaipur, uma mãe com duas crianças indianas ocuparam o assento à minha frente. Como a maioria das crianças indianas de hoje em dia, vestiam roupas tipicamente ocidentais, calças jeans, jacketa e boné.
A mãe certa hora perguntou o nome do meu filho e se surpreendeu quando eu disse: Ravi Chandra: " Indian name?" Como dizem sempre os indianos ao fazer a mesma pergunta. Quando perguntei os nomes das crianças, achei graça quando ela me disse : "Lucky and Happy!" American name?", eu disse..

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O portal de entrada no Nepal


Vale a pena falar sobre essa entrada no Nepal, o quanto foi mágica e o quanto é linda essa via de acesso por Mahendranagar, a primeira cidade do Nepal saindo por Banbassa (a ultima da Índia). É como sair do inferno e passar por um portal, que é o caminho até chegar na fronteira. Abençoada desonestidade do motorista do rikshaw, que nos fez decidir atravessar a pé e vislumbrar uma cena que desmontou toda minha insegurança de tão inebriante, ou melhor, "ineblinante"! Uma neblina que dava a sensação de estar entrando no céu, ou em um cenário das Brumas de Avalon. Uma paisagem bucólica e alquímica, que enlevou os sentimentos de todos e permitiu que entrássemos no Nepal completos de paz.



Compensa muito conferir essa rota, quem deseja migrar da Índia para o Nepal via terra. Nao é um caminho nada conhecido entre os turistas, que geralmente preferem as vias aéreas ou os fretes de automóveis particulares. Esse é o trajeto comum que fazem os nepaleses que vivem na Índia. E para fazê-lo, é bom estar preparado para encarar o temido "local bus" e enfrentar situações inusitadas, tipo viajar com cabras, cinco pessoas para dois lugares, ônibus gelado sem janelas, inúmeras paradas para longas refeições, dentre outras. Mas é uma rota mais "rápida" (dentro dos padrões indianos) e muito bonita.


Entrada triunfal no Nepal


quinta-feira, 28 de maio de 2009

Lua cheia em Rishikesh

Primeira lua cheia nas montanhas próximas ao Himalaya, pelo menos o mais próximo que já chegamos dessa grande cadeia montanhosa. Pode parecer que é simplesmente uma lua cheia numa serra de montanhas bem altas, como poderíamos ver na serra dos órgãos, penedo ou itaiaia. Mas, obviamente, percebemos que é bem diferente. O rio Ganges, o Ganga Nadi, faz toda a diferença quando visto do alto das montanhas. O ar é diferente. Frio, seco, e o vento vem com o sopro dos ascetas, dos santuários de sábios e yogis que ficam nos limites dessa gigantesca serra que precede a cadeia de picos nevados.




Amanhecer no Ganga, visto das montanhas

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Incredible India


Estávamos em uma lanhouse em Rishkesh, onde trabalha o Ravi, um amigo nosso, quando passou um ratinho minúsculo, passeando entre os pés das pessoas que usavam os computadores. O dono do espaço apontou para o rato e, ao contrário do que se espera de um proprietário de loja no Ocidente, que ficaria no mínimo constrangido com a situação e provavelmente tentaria assassinar o infeliz, ocorreu o contrário, o senhor apontou para o rato e celebrou a sua presença em alto e bom tom:

- Ganesha!, disse ele com um sorriso nos lábios como se aquilo fosse sinal de boa sorte. ( Os hindus acreditam que o Deus Ganesha tem como vahana, que é o veículo pessoal de cada Deus, um rato)

Ravi, compartilhando da satisfação do chefe, voltou-se para seu xará, o nosso Ravi, e disse:

- He is your brother! He is like you!

Em um momento o ratinho parou bem ao lado do pé do Rodrigo. Fiquei receosa dele entrar em sua roupa, como presenciamos acontecer com um amigo no Nepal. Achei que o Ravi nosso amigo estava coadunando com a mesma preocupação quando gritou ao Rodrigo: "cuidado!" (be careful!), mas Ravi estava com medo do ratinho ser pisoteado e só relaxou quando o ratinho se escondeu em um cano dentro da loja. "Uf....Safe now" Ele disse.

Alguns minutos depois, foi engraçado, pois o ratinho ameaçou sair da loja, e o Ravi começou a gritar : No, no, no! "Come back ! The street is very dangerous to you."
Que nobreza de sentimentos.

terça-feira, 26 de maio de 2009

" O que seria dos Himalayas sem o sol?"


E o que seria do sol sem os Himalayas para colorir?


E o que seria dos dois sem a nossa presença os percebendo e admirando?

Em uma ousada passagem de Gitanjali, o canto de oferenda, o poeta Tagore diz: "Ó Senhor, o que seria de ti sem o meu amor". Assim como o criador necessita do amor da criatura e de sua admiração e fidelidade, o criador e a criatura necessitam da experiência da consciência.

Necessitam do observador, "daquele que vê", o "vidente" - no sentido de alguém que vê.

Necessita de uma consciência que testemunha (sakshi) ou quer dizer, a existência que tem consciência (Sat-chita) de si mesmo, que se compreende como sendo o Ser, e não os "objetos" que o circundam com seu "brilho" próprio.

Quando digo objetos, me refiro ao sentido que Patanjali dá ao termo vishva, que significa mundo, ou universo e tudo que nele está contido, e que na concepção do Yoga clássico é referente a tudo aquilo que não é este Ser, essa "centelha de consciência" que somos.

Quando escrevo "brilho", quero me referir à fascinação, ao colorido, ao efeito que estes exercem sobre nós. Até mesmo a mente e os pensamentos fariam parte desse "mundo" que nos cerca, mas que verdadeiramente, "cerca" o Ser. Ou melhor seria dizer que "encobre", "superimpõe", como propõe o vedanta.

O ser seria um viajante carregando uma enorme quantidade de coisas. Alguns viajam levando o estritamente necessário, outros carregam uma enorme quantidade de tralha, coisas desnecessárias e supérfluas. Alguns levam sua existencia de forma simples, seu corpo, mente, sua expressão energética e vão anulando karmas, livrando-se de resultados indesejáveis de ações errôneas pregressas. Outros vão acumulando uma bagulhada lascada, carros, casas, terras, móveis, riquezas, posses e muita carga, seus karmas que nada mais são que suas ações e respectivos resultados e principalmente mágoas, rancores, manias, neuroses e traumas. Preocupações, problemas e irritações, uma carga muito pesada para se carregar ao longo da vida, geralmente disfarçada sob o nome de responsabilidade. E como é pesada a tal mala da responsabilidade. Como colocamos tralha nas costas para carregar.

O nome disso tudo em sânscrito é upadhi, e "superimposição" seria uma das possíveis e prováveis traduções. Tal qual um caracol, colocamos "nossa casa", nossa bagagem nas costas e saímos carregando pelo mundo. Um dia, todos nós teremos que ir nos livrando de tudo que pesa, de tudo que carregamos, para aos poucos ir nos transformando novamente naquele Ser simples, e ao mesmo tempo completo, ou seja, a nossa essência. É nossa escolha optar por ter que se livrar um dia de uma carga muito pesada, estando exaustos pela jornada, ou simplesmente tirar das costas uma bagagem mais simples e simplesmente ser feliz.

" As asas de ouro e o sentimento de papelão"



Quando eu era pequena, todos os dias sonhava que flutuava baixinho, a mais ou menos um palmo do chão. E andava flutuando... Eu sonhava tanto com aquilo, que para mim parecia uma realidade. Até o dia em que percebi que não sonhava mais e que aquilo era só um sonho ou seja, eu não podia voar! Fiquei desesperada quando descobri isso, mas logo isso se acalmou e eu esqueci. Um dia antes de vir para a Índia, na casa do Tio Paulo, tudo aquilo teve um sentido, pois eu pensei: " naqueles sonhos, eu voava baixo, amanhã voarei alto..."




Mas quando vim para a Índia...



*"Ouvi dos lábios da cigana
Você se engana
É tão difícil ver na frente
com seu medo.
Durante o dia,
se você deita...
a cama feita
o inimigo espreita.
Você estremece...
mas fica mudo de horror
e treme de pavor..
Durante a noite é diferente
tá tudo escuro.
Se você pensa no futuro,
cai no sono.
E nos seus sonhos, subtamente,
a cama feita, o inimigo espreita.
Você estremece...
mas fica mudo de horror
e treme, de pavor.
No outro dia o mesmo medo
a mesma hora.
A solidão vem desde cedo
lhe devora
Não adianta, ela não passa
Qualquer que seja a reza que você faça
Porque no fundo
você não pode suportar
a hora de arriscar!"



MAS ISTO PASSOU!


Pois, eu combati o bom combate! O bom combate, segundo Paulo Coelho coloca num livro que estou lendo agora na viagem é:


" Nos tempos de antigamente, as pessoas lutavam por terras a serem conquistadas. Mas hoje as coisas mudaram e as pessoas lutam o bom combate consigo mesmas.


O bom combate é aquele que é combatido não pensando no que passou ou no que passará, e sim no processo e no que está acontecendo, independente se é bom ou ruim."



E AGORA, FINALMENTE E NOVAMENTE....


" Eu tenho asas, posso voar
posso voar bem perto, bem lá no céu
posso no ar morar
a voar, a voar."





Flora

*Obs: Quando a Flora chegou na Índia, teve uma crise de pânico e desespero e não queria nem descer do avião. Depois quando chegou em Rishikesh não queria voltar para o Brasil de jeito nenhum. As duas músicas que ela escolheu explicitam bem o antes e o depois, as duas situações na cabeça de uma menina senível de 11 anos. Ela colocou primeiramente a letra da música "Corra o risco" do primeiro lp da Olivia Biyngton de 1978, antes dela virar mais uma cantora de mpb chata e sem sal e a outra música é do genial Marcos Valle, na fase que ele já tinha rompido com a turma da bossa nova, em 1974. Duas músicas que não saiam do walk-man dela. Quem curtir música antiga pode procurar nos blogs da vida.

Cris


A serpente de ouro

Ontem subimos a montanha mais alta "avistável" na região. Trilha linda, às vezes mata, às vezes vales com florestas, terraços com campos cultivados e casinhas de camponeses nas montanhas ao redor. Um clima de Himalaya, daquilo que vem pela frente ... Vimos um pôr do sol como não via há alguns anos. Esplêndido, colossal... e, no meio do seu caminho para desaparecer na terra, o sol se camuflou na bruma, escondeu seu manto dourado e se transformou numa imensa lua de fogo vermelho. Ficamos contemplando em silêncio, meditando e vislumbrando o Ganges serpenteando entre as montanhas como uma longa serpente de cor dourada. O Ganga roubou o brilho do sol e se transformou num rio de ouro.




"O crepúsculo é a fresta entre os dois mundos", disse certa vez o velho brujo Don Juan, o índio Yaqui que ensinou Castañeda. Lembrei-me disso quando atrás de mim já crescia a noite e à frente, o poderoso astro-rei ia mergulhando na terra, atravessando a densa bruma, cedendo lugar à lua cheia e prateada que vinha atrás. Sol e Lua, Shiva e Shakti, consciência e força-energia.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O adoravel "fofucho" das neves

Ravi em frente da cadeia dos Annapurnas, vila de Sarangkot


Viemos para o Nepal para procurar o Yeti, o "pe grande", tambem conhecido como " o abominavel homem das neves", mas encontramos mesmo foi o "adoravel fofucho das neves"

"Pe em Deus e fe na tabua"

Saida caotica da India (Cris, Ravi no colo, Tata do lado, Flora de costas e o motorista picareta que deixou a gente no meio do caminho porque nao cumpriu com o combinado e queria cobrar mais dinheiro... história que se repete na India..


De novo estamos de pe na estrada, deixando o nosso porto seguro em Rishikesh, para nos defrontar com o desconhecido, himalayas, trilhas com neve, gente e habitos diferentes, onibus com motoristas loucos, viemos para o Nepal para descansar dos estudos na India. Buscar novas aquisicoes, sair um pouco do Yoga hindu e buscar o Yoga budista, a cultura tibetana e das montanhas. Um sonho antigo tal qual a viagem para a India, mas como todo sonho, sentimos aquele medo antes da concretizacao, aquele medo de morrer no mar quando ja estamos vendo a praia. Refiz as malas da aflicao horas antes de seguir viagem, o que nos esperava? Atravessar fronteiras de um pais por terra e sempre complexo. Ja estavamos acostumados e instalados na India, com uma rotina organizada, saudavel para as criancas e "segura" para os meus padroes. O Nepal era uma incognita. Portanto, nova confrontacao comigo mesma para superar ansiedades, medos e expectativas. Quando era sozinha, viajava sem problema, me jogava nas situacoes ate imprudentemente, sem medo dos maus resultados... mas agora, tres criancas e tudo que isso implica, alimentacao, saude, agua potavel, educacao, diversao, exemplos para se dar...muda tudo quando nossas acoes nao trazem resultados apenas para nos. Mas, what to do? Se e necessario prosseguir, " Fe em Deus e pe na tabua". E estamos aqui no Nepal, ainda bem...

Cris

Vai com Deus


Qual e o verdadeiro significado desta expressao?

Muitas pessoas acham que estao com Deus, mas na verdade estao com seus medos, suas angustias, suas acomodacoes, seus condicionamentos. Quem esta com Deus se reconhece no olhar curioso, questionador, desejoso de conhecer e desbravar os mais reconditos lugares... especialmente em si mesmo. E, nessa aventura, reconhecer o si mesmo nas pedras que habitam o rio que corre do outro lado do planeta.. no sorriso e nas lagrimas das pessoas que se banham e rezam juntas neste rio. Estar com Deus `e perceber nossas barreiras e desmistifica-las. ("A fe que remove montanhas"...) O viajante muitas vezes ainda sente medo... mas ele nao deixa de seguir em frente. Quando percebe em si a impotencia, reconhece em Deus, a onipresenca... e prossegue com Ele.

Cris

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Olhe bem as montanhas

Eu meu pai e meu tio estamos com a obssessao de ver os himalayas que ficam na India e no Nepal. Entao, estamos tentando de todo jeito ver nem que seja uma pontinha de pico nevado. Ja haviamos subido duas vezes em uma pequena montanha, ela era linda, tinha um ficus gigante e super lindo e encontramos ate uma ossada de boi morto (desconfiamos ser um boi morto por um leopardo). Nos vimos la de cima Rishikesh inteira e um pedaco de Haridwar, e as famosas pontes de Rishikesh. Foi uma otima experiencia mas os "cacadores do himalaya" queriam mais...
Um dia que fomos na praia do ganga, procuramos a maior montanha nas redondezas de Rishikesh e resolvemos ir nela no dia seguinte. Na primeira vez o meu pai e meu tio foram sozinhos para procurar um jeito de comecar a subir a montanha, enquanto fiquei em casa para agilizar uma bolsa que estava costurando. Fomos pelo mesmo caminho que eles descobriram e comecamos a subir. Subimos,subimos,subimos,subimos quase sem parar e com apenas um litro de agua e um pacote pequeno de biscoito. Paravamos de meia em meia hora durante 2 minutos, so para beber agua e comer um biscoito, mas fora isto:andar,andar,andar!

Comecamos a ficar altos e ver uma grande parte de Haridwar e do rio ganga serpenteando as montanhas la longe. Vimos varias vilas ao longe no caminho, alem das lindas plantacoes de mostarda e arroz la em baixo. Chegou uma hora que a trilha sumiu e ficamos um tempo para acha-la de volta, mas quando apareceu, tivemos uma visao magica como nunca tive igual, estava o mais alto que ja estive na minha vida e o ganga era como uma serpente de agua ao longe e Rishikesh e Haridwar ja eram tao pequenos que ja nao se via nada nitido la em baixo. Quando vimos o pico, nosso coracao comecou a festejar e nos nos alegramos soltando um sorriso MUITO cansado. Fomos andando em direcao ao pico e quando chegamos la tivemos a pior decepcao de nossas vidas, mais um pico a nossa frente para terminar de subir. Subimos, e quando chegamos, mais um e quando o subimos... Mais um(bua)pequeno, so que este nao tinha jeito de subir.


Comecamos a andar sem subir e aonde achamos que nao podia haver sequer um alma viva, encontramos uma familia de lenhadores (na verdade criancas e mulheres catadoras de lenha), que e claro nao falavam ingles. Subimos em uma rocha e ficamos la vendo a cadeia de montanhas, o rio e as cidades la em baixo. Uma visao magica, acompanhada do canto dos lenhadores cortando madeira perto de nos. Ficamos la mais ou menos duas horas e depois quando iamos embora,os lenhadores nos indicaram o caminho que eles faziam, e fomos com eles e tivemos uma experiencia magica passando no meio das vilas no alto da montanhas vendo bufalos e cabras exoticas em casinhas lindas.

lenhadores no entardecer

Nao vimos os himalayas, mas tivemos talvez uma experiencia muito mais importante do que (como diz a Cricri gozando nossa obsessao)ver "rochas que parecem ter sal em cima!"Mas eu vou ver os himalayas, pois vou para o Nepal, sikkim (uma especie de reino que fazia parte do Tibet) e talvez Butao, pois vou ficar ate final de fevereiro viajando(EBA!)


Flora

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Massagem para a criatividade

Nossa guru de Ayurveda, Dra. Usha

Para quem pensa que estamos de ferias na India, nao imagina a correria que foi para chegar aqui e continua sendo. Desde que estamos aqui, os dias tem sido cada vez mais curtos para tanto conhecimento que esta disponivel neste lugar, sem contar, que estamos no inverno, num vale no meio das montanhas e temos poucas horas de luz solar. Essa historia de que 2008 teve um segundo a mais nao esta valendo para aqui. Os segundos estao faltando no nosso "quadro" de horarios escolar. Aulas pela manha tarde e noite, caminhadas nos intervalos para chegar de uma para a outra.E como nem sempre a praticidade e preponderante para esta familia, conseguimos encontrar uma casinha bem distante do movimento dos turistas, vendedores, rick-shaws (meio de transporte indiano), e proxima do movimento daas arvores ao vento, macacos brincando e pulando entre elas, dos ares que vem do rio Ganga, que passa aqui do lado.
Voltando as aulas, minha energia criativa que estava adormecida parece que despertou depois de uma semana de cobaia de massagens e terapias no curso de Ayurveda meu e da Flora. Tanto esfregao que sacudiu a poeira (e como tinha poeira no corpo, chegava a dar pocinhas escuras de tanta poeira que tem nesse lugar, e olha que tomo banho "quase" todos os dias!

Cris

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

O melhor filme e ao vivo e a cores

Meu "Baba" de culinaria, Hari
Os filmes orientais sempre foram meus favoritos. Chineses, tailandeses, vietnamitas, japoneses, so os indianos que nao (filmes de Bolywood sao de lascar). Quero falar da sensacao de bem estar que sentia quando via aquela menininha do filme "o caminho para casa", fazendo "trouxinhas de nao-sei-oque" para o seu amado, chegava a ficar com a boca cheia de agua. Agora descobri o que e, uma comida tibetana (que tambem aparece no mesmo contexto, no filme Samsara)chamada Momo, que sao trouxinhas de massa cozidas no vapor ou fritas e recheadas com verduras ou carne ( e o Raviolli tibetano). Amanha vou tentar fazer para o Ro, como as duas mulheres do filme fazem para o seu amado. Mas voces nao imaginam como e dificil para as minhas toscas maos ocidentais - acostumadas a abrir o pacote de macarrao pronto do supermercado - fechar aquelas trouxinhas, o que o meu "guru" nepales de culinaria faz em minutos de olhos fechados em postura de cabeca para baixo.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Para alem dos muros de Belo horizonte

Muitas pessoas tem medo de sonhar e nem se dao conta disso. Passam a vida interrompendo "o fluxo do rio" por medo de nao conseguir chegar, ou de nao saber onde estas aguas irao levar. Para nao ter que enfrentar a correnteza preferem a seguranca da margem, de onde podem permanecer observando aqueles que tiveram coragem de nadar....E fingem contentar-se com a bela vista da sacada do predio.

Sente em um lugar bem alto, o mais alto que puder chegar, e observe a vista, a maior area de alcance que seus olhos puderem vasculhar...Qual e o limite de seu horizonte? Quais sao os limites que voce criou a fim de que seus olhos nao enxergassem alem desse horizonte?

Alem nao e possivel enxergar, mas sempre e possivel ir e chegar, e isso se consegue atraves da fe.

Cris

Pausa nessa ladainha

Ola pessoal,

Vou dar uma pausa nessas reminiscencias de viagem e quebrar essa minha linha de tempo imaginaria. Outros da familia estao querendo postar tambem, sobre outros assuntos e eu nessa monotonia e nessa demora em postar mais assuntos. Estamos ha quarenta dias em Rishikesh, e eu ainda estou la na montanha dos macacos, contando "causos" de fogueira e nada do Yoga indiano. Semana que vem retorno para contar sobre outros passos e percalcos no percurso ate Rishikesh e comecaremos entao a conversar sobre Yoga, em realidade.

Um abraco
Rodrigo

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Estacao Monkey Hill




foto da "savana indiana" de monkey hill



Fui para Monkey Hill com "mochila e cuia", seguindo as instrucoes malucas de meu irmao: " Pegue o trem no sentido Lonavla- Mumbai, e quando passar a pequena estacao de Kandala e um tunel sob a montanha, talvez (detalhe para o talvez) o trem pare para fazer uma verificacao nos freios, por exatos vinte segundos. Se isso acontecer, se o trem parar, olhe para fora e se ao longe ver uma montanha com um gigantesco plato em cima, salte rapido do trem. Provavelmente vai ter que passar por cima de um milhao de indianos pendurados na porta do trem, mas lembre-se, voce so tem vinte segundos para fazer isso. Depois caminhe pelos trilhos por cinco minutos ate chegar numa pequena estacao de trem chamada monkey hill, que na verdade nao e uma estacao, mas apenas uma casa onde fica o tecnico que ajuda na verificacao dos freios, ou eventuais problemas nos trens. Pergunte ao tecnico sobre mim, e em qual montanha estou acampado. Caminhe ate la, e no sope da montanha vai encontrar pequena trilha que vai dar em quatro casas de barro e teto de palha, sao casas de pastores, as unicas da regiao, descubra qual e a casa de um menininho chamado Santosh, meu amigo, e pergunte a ele qual e a trilha para chegar no alto do plato. Santosh fala marathi, mas entende umas quatro palavras em ingles e sabe dizer "My name is Santosh." Quando chegar ao alto do plato voce vera campos e mais campos de capim amarelo, com varias "ilhas" de arvore, atrevesse toda a regiao ate chegar ate a outra extremidade da montanha, onde voce tera um deslumbre de toda a regiao, nao se preocupe, nos vamos nos achar, nao tem ninguem na montanha, so eu e os macacos e as vezes os pastores sobem para tanger o gado"


Incrivelmente consegui achar o "acampamento" do meu irmao, uma rede fabricada por ele proprio (incrivelmente bem feita, costurada e resistente), pendurada nas arvores, um "fogao" de pedras em meia-lua e so.


A natureza lembrava muito a savana africana, principalmente quando passavam ao longe os bandos dos enormes macacos da regiao. Mas se por um lado a natureza lembrava os filmes de safaris na Africa, por outro lado lembrava-me muito o cerrado mineiro, o grande sertao das paisagens de Guimaraes Rosa, obviamente sem buritis e tropas de burro, mas uma paisagem muito familiar para mim que passei muito tempo da adolescencia caminhando e dormindo com sleeping bag ou apenas um cobertor pelas montanhas da serra da Moeda e do Cipo.


As tais ilhas de arvore no meio do pasto, eram como "ocas" ja que as arvores eram arbustos semelhantes a Bougainvilles (sem flor) que se entrelacavam no alto criando um caramanchao, como uma abobada de folhas verdes. Nossas redes ficavam dentro dessas "ocas" ( Damiao ja tinha costurado uma para mim tambem).

Os tres dias que eu e Damiao passamos no alto da montanha, dormindo na rede e comendo chapatis (pao indiano feito na chapa) assados na pedra quente, com manteiga, foram maravilhosos, bem melhores para mim que tudo que ja tinha vivenciado na India ate entao.

Experimentei muito mais paz de espirito do que no ashram onde estava, envolvido o tempo todo com praticas de Yoga e meditacao. Na verdade a natureza, os campos, a solidao das montanhas e as caminhadas em florestas sempre me inspiraram mais tranquilidade e clareza mental que "ambientes de Yoga" e praticas em grupo. Desde crianca sempre tive uma grande tendencia a misantropia (que melhorou quando virei terapeuta e depois professor, pois passei a conviver mais com as pessoas), e sendo assim, sempre foi mais facil para mim vislumbrar ou desfrutar o estado de Yoga em meio a santuarios naturais do que em centros de pratica, templos ou em cursos de Yoga. Sempre fui um bicho do mato, e isso veio antes que o Yoga na minha vida: a comunhao com os bichos, plantas, flores, insetos, chuva, ar, vento, lua, ceu, sol...So mais tarde fui aprendendo atraves da meditacao como comungar comigo mesmo, e atraves dessa experiencia, estou aprendendo aos poucos como conviver com os outros, especialmente em sociedade, minha maior dificuldade, ja que minha mulher, irmao e filhos sao farinha do mesmo saco que eu, logo fica mais facil me isolar dentro de casa.



Mas a curta e proficua estadia na montanha dos macacos nao foi simplesmente introspeccao e quietude, pois eu e Damiao - desprovidos do velho violao e do tambor - tivemos que nos contentar com um violao imaginario e com um "tambor de barriga" ou com batuque na perna (e como diz o sagrado Deus da percurssao Nana Vasconcelos : "O melhor instrumento e a voz, depois vem o corpo"). E passamos horas da noite cantando as velhas cancoes da estrada, dos tempos de artesao e viajante e de quando eu e Damiao viajavamos para todo lado. E da-lhe Sa, Rodrix e Guarabyra, O Terco, A Barca do Sol, Marcos Valle ( na fase hippie) e mil outros (folck) rock rurais dos anos setenta como Dylan e Richie Ravens. Um desbunde total, a fogueira, as noites estreladas de rock'n roll primitivo e dois loucos solitarios uivando para a lua.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Lonavla
A ida para Lonavla nao foi estrategica simplesmente pelo periodo curto para estudar antes das criancas chegarem, mas tambem pelo fato de que meu irmao estava acampado nas montanhas ao redor da pequena cidade, que tem alguns antigos santuarios e monasterios budistas, que foram construidos e esculpidos diretamente na rocha, dentro de cavernas e ja estao abandonados ha seculos. Queria encontrar meu irmao depois de um mes sem ve-lo.

No Ashram nao vi nada de excepcional, nada alem do normal, o bom e velho Hatha-Yoga basico. Praticas com enfoque em ciktisa, palavra em sanscrito que significa tratamento, inspiradas no Ayurveda e Yogaterapia. Para mim foi valido, ja que nao esperava que em tao pouco tempo fosse ver algo mais que o basico, e foi suficiente para poder experimentar pela primeira vez o ambiente de um Ashram, que e o local ou comunidade de ensino onde as pessoas moram, trabalham e estudam com seus mestres e professores

Infelizmente nao tenho fotos das cavernas, pois eu nao tive tempo de conhecer, e meu irmao estava sem maquina na epoca, mas quem sabe no retorno ao sul da India, tenho tempo de tirar fotos.

Voltando a dar noticias

Ja estamos em Rishikesh, "a capital mundial do Yoga", com toda a familia reunida, e como ja estamos instalados e adaptados a ardua rotina de estudos, vou tentar me organizar para fazer postagens regulares.

Vou comecar pelo que aconteceu no inicio da viagem, em Puna e Lonavla, duas cidades do estado de Maharashtra, proximas da horripilante megalopole Mumbai.

Cheguei em Puna com o intuito de estudar durante um mes com os filhos do Iyengar, que e na minha opiniao o maior professor de Hatha-Yoga (acessivel) ainda vivo, mas como minha mulher chegaria com as criancas em dezesseis dias, desanimei do objetivo, pois nao me agradava a ideia de instala-los em Puna. Alem do mais, eu iria retornar a esta cidade no final da viagem para estudar Ayurveda por cinquenta dias e teria tempo de sobra para praticar no centro do Iyengar, sem estar com as criancas no periodo de marco/abril. Com essas conclusoes, mudei os planos e resolvi ir para Lonavla, onde ha o famoso instituto Kaivalyadhama, fundado pelo swami Kuvalayananda, provavelmente o primeiro preceptor a introduzir mudancas no ensino de Yoga, criando aulas em grupo, na decada de 20, acredito. Durante milenios o Yoga foi ensinado pelo sistema de parampara, a sucessao discipular, onde um mestre ensina seus conhecimentos a um discipulo, ou filho e dessa forma o conhecimento foi transmitido atraves das geracoes, construindo as tradicoes de Yoga e de outros sistemas de filosofia da India.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Elemento perigoso à solta



Olhe a cara de louco desse sujeito, alguém com esse olhar niilista e fora do mundo pode estar correndo perigo?


Veja o cabelo assanhado e o número da ficha criminal do elemento. E olha que ele tinha só um mês e meio nessa época.


Esse vai ser nosso guarda-costas, nosso protetor aqui na Índia.

Manifesto inicial


Resolvemos chamar de avadhuta o nosso blog, por estarmos de saco cheio de ouvir a ladainha : " Vocês são loucos!": de viajar pela Índia com três crianças"; "de levar um neném que fez uma cirurgia quando nasceu para aquele país imundo"; "de arriscar dessa forma" e etc, etc, etc.
A palavra comum a todas as frases era o termo loucura ou louco.

Segundo o dicionário Michaelis, loucura quer dizer : " Estado de quem é louco. 2 Desarranjo mental que, sem a pessoa afetada estar ciente do seu estado, lhe modifica profundamente o comportamento e torna-a irresponsável; demência; psicose. 3 Ato próprio de louco. 4 Insensatez. 5 Aventura insensata. 6 Grande extravagância."

Não consigo conceber uma viagem de estudos em busca de auto-conhecimento, mesmo com todos os riscos que possa implicar, como "aventura insensata", ou comportamento irresponsável.

O conhecimento só pode ser adquirido através do estudo, da observação adequada e da experiência. Vamos à Índia atrás de estudos, da obervação e da experiência direta.



Qual é o preço da experiência? Os homens a compram com uma canção?

Adquirem sabedoria dançando nas ruas? Não, ela é comprada pelo preço

de tudo que um homem possui , sua casa, sua esposa, seus filhos.

A sabedoria é vendida num mercado sombrio onde ninguém vem comprar,

e no campo infecundo que o fazendeiro ara em vão por seu pão


William Blake


Em tempos de Índia pop, Yoga fast-food e modismos de espiritualidade, quando os enfeites e adornos indianos conquistam as casas de madames e work-shops caríssimos com gurus indianos são lotados em todos as cidades em suas longas turnê, resolvemos transferir nossa casa, nosso lar durante uns meses para a Índia, a fim de ver com os próprios olhos (pratyaksha) - sem a intermediação de pacotes turísticos que camuflam - a sujeira, a miséria, as bizarrices e idiossincrasias, mas também ver e conhecer a gigantesca espiritualidade do subcontinente indiano. Digo gigantesca, pois é muito ampla em opções e diversidade e também devido à quantidade de tipos de conhecimento que conduz à iluminação.


Viemos atrás dos grandes sábios que ainda existem por aqui, para pelo menos poder "respirar" o mesmo ar que eles, mesmo que poluído e ressecado em algumas cidades. Viemos atrás dos conhecimentos tradicionais, que ainda não foram adaptados para o gosto e o modus vivendi ocidentais. Exatamente por isso que o professor de Ashtanga vinyasa Yoga que vos fala, não vai à meca do Ashtanga, Mysore, praticar com o superstar do método.


Não temos tempo, energia, disposição, e nem dinheiro para buscar o brilho falso da Índia. Viemos em busca de mestres autênticos e verdadeiros, e também do contato com o povo, tão repelido pelas pessoas, segundo observo em relatos de viagem para a Índia, em blogs de europeus e norte-americanos e até mesmo de professores brasileiros. Observo um grande repúdio das pessoas em relação aos serviços na Índia, aos hábitos do povo indiano, uma grande crítica à miséria, sujeira, doenças, falta de progresso, como se eles tivessem culpa de tudo. Como se nós do ocidente não tivéssemos grande culpa pela desgraça do oriente, por causa de nossa exploração econômica, da sustentação desse sistema patético e frágil e da maldita globalização. Nós também somos responsáveis, e sendo assim, não adianta vir para a Índia se internar em ashrams ou spas e querer fechar os olhos, fingindo que a Índia é somente espiritualidade e cheiro dos incensos nag champa.


Viemos para a Índia com nossos filhos, tomando evidentemente todos os cuidados, tal qual tomaríamos em casa, porque não achamos que os filhos dos indianos sejam piores dos que os nossos. Se eles aqui vivem, é possível trazer os nossos para experimentar e aprender também.


Isso não quer dizer, que os inevitáveis problemas que surgirão não vão nos preocupar ou nos tirar do sério, mas sim que vamos tentar ter compreensão com as dificuldades - ou o que julgamos sê-las - já que somos nós que viemos para cá, por nossa própria escolha e esforço, então de nada vale reclamar do povo indiano. Quem viaja pela Bahia tem motivos semelhantes e constantes para se irritar, e todo mundo volta para a Bahia, e lá não tem conhecimento libertador, mas sim axé music em cada esquina, comida ruim e muitas praias feias (entre uma ou outra bonita), todas supervalorizadas pela mídia.


Para piorar a situação desse quadro, a rede globo dá um presente de grego para os professores de Yoga e terapeutas ayurvêdicos filmando uma novela sobre a Índia que será lançada ano que vem. Que castigo ! O que será que nos reserva para quando voltarmos ? Será que vamos voltar e encontrar todo mundo dançando as ridículas coreografias dos filmes indianos de Bollywood? Que tipo de sacanagem vão fazer com a cultura milenar desse país ?

Ninguém merece ! Por isso mesmo resolvemos ir logo para a Índia, pois quanto mais tempo levar, mais o conhecimento verdadeiro e os mestres verdadeiros vão se escondendo dessa invasão da "cultura ocidental", que vai dominando a Ásia por todos os lados, comendo as culturas antigas pelas beiradas.

Essa é uma das respostas, à pergunta sobre o motivo pelo qual resolvemos vir agora, com uma criança de 11 anos, uma de três e um bebê de três meses. Não sei que Índia, meus filhos podem conhecer, quando vierem por sua própria conta, não sei se vai ser possível encontrar facilmente locais apropriados para estudar, ou se ainda vai existir a natureza local. Embora o neném não aproveite ainda a viagem, certamente vai ser maravilhosa para as duas meninas. Evidente que nossos filhos não estão acostumados com o "ambiente" indiano, mas por outro lado, podemos dizer, que não criamos nossos filhos pelos padrões convencionais.


Mas voltando ao assunto, o que é avadhuta, e o que tem a ver com uma família de malucos viajantes?


Avadhuta é o protótipo indiano do louco. E como na Índia antiga, tudo se relacionava de alguma forma à espiritualidade, podemos dizer que o avadhuta é o louco santo, o "louco de Deus", aquele sujeito que se livrou de todas as convenções e atitudes que o caracterizam, dentro das normas de sua sociedade, como cidadão normal. O avadhuta, em busca de sua libertação espiritual, ignora tudo aquilo que lhe parece um fardo, todas as máscaras sociais, e simplesmente pára de se importar com a opinião alheia, as regras estabelecidas, o status quo. Ele deixa fluir de dentro, aquilo que é autêntico. O avadhuta se livra de seus condicionamentos, suas aspirações sociais e nega-se a se corromper para ser aceito. A palavra quer dizer literalmente "que lançou fora", alguém que "se livrou" das correntes que o caracterizavam como homem normal. Mas suas aspirações sempre são o conhecimento e o domínio de si mesmo, além do ensino pelo exemplo. Na concepção do avadhuta, as transgressões de regras que são humanas, mas que não espelham as leis universais, é uma forma de libertar-se de vícios e condicionamentos.


Como temos bastante identificação com a cultura do avadhuta, e como realmente não aguentamos mais ouvir que somos loucos, principalmente agora, por estarmos indo estudar na Índia com as crianças, resolvemos então homenagear os santos loucos da Índia, batizando o blog da viagem de : "Caravana Avadhuta". Que as aspirações espirituais e metafísicas desses buscadores nos inspirem a transgredir o senso comum em busca do verdadeiro aprendizado. Não somente nessa viagem, mas sempre, na grande jornada que é a vida.


P.s: Já que nos deram a fama, agora vamos deitar na cama. Viemos com Deus e ao invés de nos agorar, pedimos que torçam por nós.